EUA: Agricultores, bombeiros e comissários de bordo pedem prioridade de vacinas

A questão mais espinhosa é descobrir quais grupos virão a seguir na vacinação prioritária no país

Rachel Bluth e Phil Galewitz, da Kaiser Health News
15 de dezembro de 2020 às 16:38
Vacina contra Covid-19 da Pfizer/BioNTech
Foto: Owen Humphreys/Pool via Reuters (8.dez.2020)

Com os primeiros lugares nas filas para a vacina contra a Covid-19 nos EUA reservados para profissionais de saúde da linha de frente e residentes e funcionários de casas de repouso, a questão mais espinhosa é descobrir quais grupos virão a seguir.

A resposta provavelmente dependerá do local de habitação de cada um.

Enquanto aguardam as recomendações de um conselho consultivo federal no final deste mês, os departamentos de saúde estaduais e os governadores norte-americanos já estão tomando a decisão sobre quem terá acesso a um número limitado de vacinas nas próximas semanas.

Como resultado, um verdadeiro vale-tudo vem acontecendo nos bastidores, com indústrias, varejistas, bancários, dentistas e motoristas de aplicativo procurando uma vaga perto do início da fila.

O Comitê Consultivo em Práticas de Imunização (ACIP) dos Centros dos EUA para Controle e Prevenção de Doenças havia decidido por 13 votos a 1 que a prioridade de vacinação seria para profissionais de saúde e residentes de instalações de cuidados de longo prazo assim que a FDA, a agência reguladora de medicamentos e alimentos nos EUA, aprovasse o uso emergencial de uma ou mais vacinas contra a Covid-19. Espera-se que o comitê consultivo forneça mais detalhes de sua lista de destinatários priorizados a seguir antes do final do ano.

Suas próximas recomendações provavelmente se concentrarão em priorizar as pessoas que mantêm a sociedade funcionando, como trabalhadores nos setores de alimentos, agricultura, segurança pública e educação. Idosos e pessoas com doenças crônicas também são consideradas no topo da lista.

Moderna afirma que sua vacina contra o coronavírus tem 94,5% de eficiência
Foto: Dado Ruvic/Reuters

No entanto, como os suprimentos iniciais da vacina são limitados, escolhas difíceis estão à frente, como: é mais importante priorizar os professores que entram em contato com muitas pessoas todos os dias, ou os trabalhadores rurais, que não podem trabalhar remotamente e fornecer a alimentação do país?

“Temos que estar atentos às questões de igualdade, comorbidades e a probabilidade de morte versus sobrevivência, mesmo entre esses trabalhadores essenciais”, afirmou Mitch Steiger, um defensor legislativo da Federação do Trabalho da Califórnia. Serão “muitas conversas realmente difíceis e muitos princípios concorrentes entre si”.

Inicialmente, os estados não receberão doses de vacina suficientes para cobrir até mesmo seus grupos mais bem classificados.

Na Califórnia, um estado de 40 milhões de habitantes, as remessas iniciais de cerca de 1 milhão de doses não chegarão nem perto de cobrir todos os que estão na linha de frente. Mais de 2 milhões de pessoas se enquadram na categoria da Fase 1a de distribuição de vacinas, que cobre apenas aqueles que correm o risco de adoecer em um estabelecimento de saúde ou de longa permanência.

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Mesmo entre profissionais de saúde há disputas para chegar à frente da fila, com farmacêuticos e dentistas defendendo o direito de ser considerados prioritários.

A doutora Laurie Forlano, vice-comissária para saúde da população do Departamento de Saúde da Virgínia, disse que o estado tem ouvido várias partes por meio de cartas, telefonemas e reuniões virtuais, enquanto decide quais “trabalhadores críticos” seguirão o grupo inicial na vacinação. “É complexo”, disse ela sobre o problema. “Mas não é novidade para a saúde pública tomar essas decisões”.

Os estados já sinalizaram prioridades diferentes.

O governador da Flórida, Ron DeSantis, disse que depois que os residentes de asilos e os profissionais de saúde da linha de frente forem vacinados, o estado tentará vacinar pessoas com 65 anos ou mais e residentes com doenças significativas.

O governador de Kentucky, Andy Beshear, disse que os professores do ensino fundamental deveriam ser os próximos na fila, depois dos profissionais de saúde e residentes de asilos, junto com os atendentes de serviço de emergência e adultos com doenças graves.

A Pensilvânia incluirá “trabalhadores críticos" e pessoas com doenças de alto risco no topo de sua lista de prioridades, junto com profissionais de saúde, residentes de lares de idosos e socorristas, de acordo com a porta-voz do departamento de saúde do estado, Rachel Kostelac.

Frasco com vacina contra Covid-19 da Pfizer/BioNTech em hospital
Foto: Liam McBurney/Pool via Reuters (8.dez.2020) 

Nacionalmente, grupos de defesa de pacientes apontam que pessoas com algumas doenças preexistentes correm um risco maior de morte se forem infectadas com o coronavírus. A Associação Americana de Diabetes publicou um editorial defendendo seus pacientes; a Associação Nacional dos Administradores Renais escreveu aos reguladores federais dizendo que os pacientes renais deveriam ser priorizados.

O doutor Marcus Plescia, diretor médico da Associação de Oficiais de Saúde Territoriais e Estaduais, disse esperar que os estados sigam amplamente a lista de prioridades do comitê. Mas não está claro quantos detalhes o comitê do CDC fornecerá em sua próxima rodada de recomendações, entre eles quais “indivíduos de alto risco” e “trabalhadores críticos” incluir.

De acordo com Plescia, deixar alguma flexibilidade para os estados é bom, porque eles podem divergir sobre as formas de vacinar as pessoas com eficiência. Por exemplo, alguns estados podem abrigar grandes fábricas onde as pessoas correm maior risco e podem ser vacinadas no local.

É também aí que a pressão entra em jogo.

"A ‘Prioridade 1a’ para nós é colocar nossos funcionários nesse grupo de ‘Prioridade 1b’”, afirmou Bryan Zumwalt, vice-presidente executivo de relações públicas da Consumer Brands Association, que representa empresas que fabricam milhares de produtos domésticos, de papel higiênico a refrigerante. Dos 2,3 milhões de funcionários da associação, 1,7 milhão são considerados essenciais, disse ele.

“Os trabalhadores de nossas empresas estão fabricando produtos que sustentam a vida”, disse Zumwalt. A associação está enviando cartas aos departamentos de saúde estaduais, mas Zumwalt disse que o processo seria mais fácil se houvesse uma ordem de prioridade nacional uniforme para a vacina, em vez de deixar os estados darem a palavra final.

Essas empresas estão lidando com taxas de absenteísmo em média de 10%, disse ele, o que pode causar atrasos na produção de alimentos e outros produtos essenciais.

Frascos com vacina da Pfizer em laboratório em Pearl River, Nova York
Foto: Pfizer

“Quando um trabalhador tem teste positivo, cinco a dez funcionários adicionais precisam ser retirados das linhas de produção”, explicou.

Em Idaho, um conselho consultivo da Covid-19 decidiu neste mês que, após os trabalhadores de saúde e residentes e funcionários de lares de idosos, os atendentes de serviço de emergência, como policiais e bombeiros, além de professores e funcionários da escola primária, deveriam tomar as vacinas, seguidos pelo pessoal do sistema prisional, funcionários do setor de alimentos (processamento e varejo) e a Guarda Nacional de Idaho.

A doutora Elizabeth Wakeman, professora de filosofia no College of Idaho e membro do conselho, disse a seus colegas que fazia mais sentido vacinar com o objetivo de retardar a transmissão do vírus, em vez de classificar os grupos quanto ao seu valor para a sociedade.

Isso colocaria trabalhadores de processamento de alimentos à frente dos balconistas de supermercado, porque há mais espaço para manter distância e melhor ventilação no comércio, disse Wakeman.

Também há pressão para proteger rapidamente o serviço de alimentação e os agricultores. Diana Tellefson Torres, diretora executiva da United Farm Workers Foundation, o sindicato do setor, disse que os trabalhadores rurais são essenciais e estão profundamente em risco. Segundo ela, eles podem trabalhar ao ar livre, onde o risco de transmissão é menor, mas muitas vezes têm contato com pessoas fora de suas famílias imediatas.

A maioria dos trabalhadores rurais são imigrantes sem documentos que não têm seguro saúde e “podem nem saber que têm problemas de saúde preexistentes", disse Tellefson Torres, membro do Comitê Consultivo de Vacinas Comunitárias da Califórnia. “Há muita vulnerabilidade.

Está quase na hora da colheita dos cítricos de inverno na Califórnia, e a alface precisa ser colhida no Arizona.

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“É importante garantir que a comunidade de pessoas que fornecem a comida em nossos pratos também seja vista como prioridade máxima”, opinou Tellefson Torres.

Na semana de abertura da sessão legislativa da Califórnia, uma das primeiras discussões foi o argumento de que a força de trabalho do abastecimento de alimentos deveria ser a primeira na fila para vacinas e testes rápidos.

A Associação Internacional de Bombeiros, um sindicato que representa 322 mil bombeiros e equipes médicas de emergência, está pressionando para incluir seus membros como um dos primeiros a ter acesso à vacina, argumentando que eles prestam serviços médicos de emergência nas casas das pessoas e em outros locais fechados espaços.

Os funcionários das companhias aéreas também desejam ser vacinados rapidamente.

Os farmacêuticos, da mesma forma. Embora o comitê de vacinas ACIP inclua farmacêuticos em sua categoria de profissionais de saúde de Fase 1a, cada estado interpreta as recomendações de maneira diferente com base na sua disponibilidade de vacina, como observou Mitchel Rothholz, chefe de governança Associação Americana de Farmacêuticos, que está pedindo aos estados que mantenham seus membros no topo a lista. “É uma corrida para tomar a vacina primeiro”, disse. “Todo mundo gostaria que houvesse suprimento suficiente para todos logo no início, mas essa não é a situação."

A KHN (Kaiser Health News) é um serviço de notícias sem fins lucrativos que cobre questões de saúde. Trata-se de um programa editorial independente da KFF (Kaiser Family Foundation) que não é afiliada à Kaiser Permanente.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).