Países que já começaram vacinação têm acordo com laboratório desde julho


Matheus Prado, da CNN, em São Paulo
26 de dezembro de 2020 às 13:07 | Atualizado 27 de dezembro de 2020 às 15:25

 

Diferentemente de vários países no globo, inclusive nosso vizinho Chile, o Brasil ainda não tem uma ideia clara de quando deve ter o imunizante de Pfizer e BioNTech disponível para começar a vacinar sua população.

É certo que cada nação tem recebido doses reduzidas, conforme o laboratório consegue produzi-las. Mas também fica claro que o Brasil, que assinou contrato com o consórcio em 10 de dezembro, ficou para o final da fila. 

Para entender por que isso ocorre, é preciso analisar alguns fatores, o primeiro deles já exposto acima. Enquanto a gestão Bolsonaro só fechou parceria com a Pfizer este mês, outros países fizeram essa aposta muito mais cedo.

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Os Estados Unidos, por exemplo, compraram 100 milhões de doses do imunizante em 22 de julho, por US$ 1,95 bilhão. Vale ressaltar, é claro, que o governo americano comprou vacinas de vários produtores para agilizar a entrega.

No Reino Unido, a coisa foi parecida: acordo firmado em julho e vacinação já em dezembro. A União Europeia, mesmo após vários países do bloco fecharem acordos individuais, também se comprometeu a comprar o imunizante em novembro.

Vacina da Pfizer/BioNTech contra Covid-19 é aplicada em idosa na Escócia
Vacina da Pfizer/BioNTech contra Covid-19 é aplicada em idosa de Edimburgo, na Escócia
Foto: Andrew Milligan - 8.dez.2020/Reuters

E, para não dizer que só países do hemisfério norte tiveram acesso ao produto, o Chile fechou a compra de 10 milhões de doses da Pfizer ainda em setembro e já começou a recebê-lo. 

Carlos Murillo, CEO da Pfizer no Brasil, chegou a afirmar em entrevistas que buscou, sem sucesso, contato com o Ministério da Saúde para negociar a venda antecipada do imunizante para o governo brasileiro.

No dia 2 de dezembro, Alejandro Lizarraga, diretor de vacinas da companhia, também disse à CNN que "a cada dia o número de doses disponíveis para os países diminui consideravelmente. Diversos países da América Latina, como Peru e Chile, já fecharam acordos com a Pfizer.”

O governo, que acreditava que a vacina não tinha o perfil ideal para o Brasil por conta da temperatura de armazenamento, acabou cedendo e fechando a compra de 70 milhões de doses no dia 10. Para se ter uma ideia, o Reino Unido já tinha começado a vacinar sua população.

Uso emergencial

Outro fator que afeta a velocidade com que uma vacina começa a ser aplicada em sua população é a aprovação pelos órgãos reguladores de saúde. A própria Pfizer pleiteou a utilização emergencial do seu imunizante em alguns países, o que também não ocorreu por aqui.

Nos Estados Unidos, a farmacêutica entrou com pedido de uso emergencial do imunizante no dia 20 de novembro, após a divulgação dos resultados da Fase 3 dos ensaios clínicos sobre o produto.

O Food and Drug Administration (FDA, na sigla em inglês), órgão semelhante à Anvisa, levou cerca de 20 dias e anunciou a liberação da vacina no dia 11 de dezembro. A vacinação começou três dias depois, em 14 de dezembro. O Reino Unido já havia aprovado isso no dia 2.

Um exemplo diferente ocorreu na Argentina, que ainda negocia a compra da vacina da Pfizer. A Administração Nacional de Medicamentos, Alimentos e Tecnologia Médica da Argentina (Anmat) autorizou o registro de uso emergencial do imunizante da farmacêutica americana antes mesmo disso.

Nossos vizinhos também já liberaram a utilização do Sputnik V, imunizante produzido pela Rússia que já tem 750 mil doses em solo argentino. Por aqui, o uso emergencial não foi pedido, nem pela companhia e nem pelo governo.

O registro da vacina da Pfizer na Suíça em procedimento padrão, ou seja, que não é emergencial, deve acelerar o processo de registro no Brasil. De acordo com a apuração da CNN do dia 22 de dezembro, existe um acordo bilateral entre Brasil e Suíça e isso permite uma maior troca de informações entre as agências reguladoras dos dois países.

No final de setembro, a Anvisa anunciou um acordo de cooperação internacional de cooperação técnica com diversos países, entre eles a Suíça. A cooperação técnica em vigilância sanitária tem o objetivo de favorecer a troca de experiências e o aproveitamento das melhores práticas regulatórias executadas por diferentes autoridades sanitárias. A adesão deve facilitar o processo de certificação do imunizante.

Aposta

Sem tantos recursos para despender no processo, o governo brasileiro decidiu colocar todas as suas fichas na vacina de AstraZeneca e Universidade de Oxford, que deve estar disponível em fevereiro.

Já o governo de São Paulo, através do Instituto Butantan, fechou acordo com a chinesa Sinovac, que produz a Coronavac. O imunizante, que pode estar disponível em janeiro, já adiou por duas vezes a divulgação dos seus resultados de eficácia.