Em Manaus, voluntários doam oxigênio para infectados por Covid-19 em isolamento

São muitos os grupos de voluntários que estão, há cerca de duas semanas, cadastrando pessoas em listas para receberem oxigênio de forma domiciliar

José Brito, da CNN, em São Paulo 
26 de janeiro de 2021 às 21:12 | Atualizado 26 de janeiro de 2021 às 21:20

 

Moradores fazem fila para conseguir cilindros de oxigênio em Manaus
Moradores fazem fila para conseguir cilindros de oxigênio em Manaus (16 jan. 2021)
Foto: Reprodução / CNN


Além dos pacientes com quadro grave de Covid-19 que estão internados nos hospitais de Manaus durante o colapso na saúde do Amazonas, há um número de pessoas infectadas também lutando contra a doença em suas casas. 

Até esta terça-feira (26), a FVS-AM (Fundação de Vigilância em Saúde) já havia registrado 31.342 pessoas nessa condição. Cabe aos familiares de alguns desses pacientes ir à porta de empresas de gases ou contar com a solidariedade de desconhecidos para fornecerem cilindros de oxigênio. 

Um dos casos é o da aposentada Maria Soares, 69 anos, que começou a ter sintomas do novo coronavírus na segunda-feira (18). Por conta da superlotação nos hospitais, a família optou por manter ela em casa e recorreu a médicos particulares. 

“De quarta para quinta-feira, ela passou mal com falta de ar. Em uma consulta particular, vimos que a saturação dela estava em 54, muito baixa, e o médico disse que ela precisava imediato de oxigênio. Com a ajuda de pessoas na internet conseguimos R$ 1.900 para um cilindro de 3 litros. Ele já veio cheio, mas a gente viu que só teria três horas e bateu o desespero”, disse a filha Adriana Soares.   

Na tarde da segunda-feira (25), a família se mobilizou novamente e conseguiu um novo cilindro de 50 litros cheio doado por um grupo de voluntários. 

"Eu não tenho coragem de levar ela para um hospital, porque eu sei que ela vai morrer"

Adriana Soares, filha de uma paciente com Covid-19 em Manaus


“Hoje ela tem, mas a gente fica poupando a dose do oxigênio administrado, porque, se ela tivesse leito, com certeza ela estaria internada; mas, do jeito que está, como ela é diabética, hipertensa e tem problema cardíaco, eu não tenho coragem de levar ela para um hospital, porque eu sei que ela vai morrer”, desabafa Adriana.  

São muitos os grupos de voluntários que estão, há cerca de duas semanas, cadastrando pessoas em listas para receberem oxigênio de forma domiciliar. Apenas no cadastro feito em parceria entre o “Voluntários do Oxigênio” e o “Respira Amazonas” há mais de 1.000 pessoas solicitando ajuda de forma urgente. 

Eles são procurados por parentes de contaminados que não têm condições de pagar por um cilindro ou simplesmente não encontram onde encher o equipamento.  

“O nome da pessoa vai para uma lista, com o endereço e o contato. E essa lista passa a ter uma certa prioridade por quem tem uma saturação mais baixa que vamos monitorando. O que se consegue de oxigênio é priorizado para essas pessoas. Essa logística está sendo feita pelos voluntários, associações e empresas da região de forma gratuita”, diz a advogada da Associação dos Oficiais da Polícia e Bombeiros Militares do Amazonas, Luciana Trunkl.   

Outro advogado, que também atua como voluntário, resume como desesperadora a sensação de não conseguir parte da demanda que chega ao grupo. 

"Chega uma recarga de doações de cilindros de oxigênio e, a cada 100 ligações que fazemos para as pessoas cadastradas, 17 pessoas já faleceram por falta do oxigênio"

André Reis, integrante do Voluntários do Oxigênio


“Chega uma recarga de doações de cilindros de oxigênio e, a cada 100 ligações que fazemos para as pessoas cadastradas, 17 pessoas já faleceram por falta do oxigênio. Uma parente de dois idosos irmãos infectados que estavam dividindo um mesmo cilindro me mandou mensagem, ontem à noite, para pedir ajuda. E, hoje de manhã, já mandou uma nova mensagem informando que um deles veio a óbito. E o que está vivo não sabe que o irmão faleceu”, disse o advogado e integrante do Voluntários do Oxigênio André Reis. 

Estabilização do oxigênio

Na manhã desta terça-feira (26), acompanhando os trabalhos executados pelo Ministério da Saúde na capital do Amazonas, o ministro Eduardo Pazuello explicou que tanto o governo federal quanto o do estado têm se empenhado na estabilização do oxigênio nas unidades de saúde.

“Estamos trabalhando na revisão de toda a rede de gases dos hospitais para reduzir as perdas. São redes antigas que precisam ser trabalhadas para a redução de perdas. Estamos trabalhando com concentradores de oxigênio individuais, esses que ficam ao lado de cada leito, usinas individualizadas nos hospitais e oxigênio de grande porte como backup. Nesse aspecto, eu coloco aqui que nós estamos vendo de maneira muito clara como deve ser no futuro a nossa situação hospitalar na Amazônia”, disse o ministro.

No mesmo evento, o secretário de Estado de Saúde, Marcellus Campêlo, reforçou a importância da abertura do Hospital Nilton Lins para os pacientes que aguardam leitos. 

“Estamos com uma fila de aproximadamente 600 pessoas precisando de um leito, seja clínico ou de UTI, na nossa regulação, fora os pacientes que imaginamos que estejam em casa, que não estão saindo de casa por não conseguir leito ou medo de ser contaminado. Estamos trabalhando com várias ações com apoio do Ministério da Saúde, inclusive com remoções para outros estados do Brasil. Já removemos 300 pacientes para outros estados, 11 estados envolvidos numa ação muito de sucesso”, disse.

Ao todo, já foram contabilizadas pelo governo do estado 7.424 vítimas da Covid-19 apenas no estado do Amazonas, sendo 51 mortes nas últimas 24 horas.