Farmacêuticas testam vacinas contra novas variantes da Covid-19

Ainda não é claro se eficácia dos imunizantes se mantêm, apesar de otimismo das fabricantes

Anna Satie, da CNN em São Paulo
28 de janeiro de 2021 às 05:00 | Atualizado 04 de fevereiro de 2021 às 16:38
Profissional de saúde prepara aplicação de vacina Pfizer
Profissional de saúde prepara aplicação de vacina Pfizer em Los Angeles, nos EUA
Foto: Lucy Nicholson/Reuters

O início da vacinação contra a Covid-19 traz esperança após a morte de milhões de pessoas pelo mundo. No entanto, há um fator que coloca pressão sobre a eficácia desses imunizantes: as mutações do vírus.  

Fabricantes das principais vacinas em uso se debruçam em testes para confirmar se essas novas cepas alteram funções-chave do vírus e aumentam a capacidade de transmissão. Até o momento, as farmacêuticas dizem acreditar que a eficácia de seus imunizantes se mantém.

Há meses, especialistas tentam identificar essas alterações e analisá-las, a fundo, com o objetivo de verificar o perigo que elas representariam. Variantes detectadas no Reino Unido, na África do Sul e no Brasil, em Manaus, acenderam um alerta em vários países, que fecharam as fronteiras para viajantes desses locais.

Confira o posicionamento dos laboratórios

Sinovac (Coronavac)

Relatórios preliminares disseram que a vacina da Sinovac, desenvolvida em parceria com o Instituto Butantan, é eficaz contra as variantes da África do Sul e da China, disse uma fonte da farmacêutica ao jornal estatal chinês Global Times nesta semana.

O laboratório planeja testar se a eficácia se mantém frente à variante brasileira em breve. Um estudo detalhado, porém, ainda não foi publicado.

Mo início desta semana, um cientista do Centro Chinês para Controle e Prevenção de Doenças, Shao Yiming, disse que a tecnologia usada no imunizante permite que uma atualização seja concluída em cerca de dois meses, se for necessário.

Oxford/AstraZeneca

Em dezembro, o chefe da farmacêutica AstraZeneca, Pascal Soriot, disse que os pesquisadores acreditavam na eficácia da vacina contra a nova variante que circulava na Grã-Bretanha.

"Até agora, achamos que a vacina deve permanecer eficaz. Mas não podemos ter certeza, então vamos testar isso", afirmou.

Pfizer/BioNTech

A vacina da Pfizer parece funcionar contra as mutações descobertas na China e na África do Sul, concluiu um estudo, que ainda não foi revisado por pares, feito por cientistas da Pfizer e da Universidade do Texas.

A análise foi realizada com sangue colhido de pessoas que receberam a vacina. Um dos principais cientistas de vacinas virais da farmacêutica disse que o resultado é encorajador, uma vez que o imunizante já foi testado contra outras 15 mutações anteriormente.

"Portanto, agora testamos em 16 mutações diferentes e nenhuma delas teve um impacto significativo. Essa é a boa notícia", disse ele.

Os pesquisadores planejam fazer testes semelhantes para ver se a vacina é eficaz contra outras mutações e esperam ter mais dados em semanas. A BioNTech disse que poderia desenvolver uma vacina ajustada para combater as variantes em cerca de seis semanas.

Moderna

Nesta semana, a Moderna anunciou que a vacina produziu anticorpos contra as variantes encontradas no Reino Unido e na África do Sul, mas que a eficácia pode ser reduzida.

"Um regime de duas doses da vacina Moderna deve proteger contra as cepas emergentes detectadas até o momento", disse a empresa.

A farmacêutica vao testar um reforço da vacina em ensaios pré-clínicos para verificar se isso a torna mais eficaz para aumentar os anticorpos produzidos contra a variante da África do Sul e variantes futuras.

Como acontecem as mutações

Ilustração em 3D representando o novo coronavírus
Ilustração em 3D representando o novo coronavírus
Foto: Nexu Science Communication/Reuters

Os vírus são organismos simples— são, basicamente, material genético envolto por uma cápsula proteica. Essa simplicidade faz com que ele seja altamente mutável.

Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações, explica. "Toda vez que os vírus se copiam, eles podem errar uma parte e criar uma microvariante. É como se eles cortassem o cabelo, fizessem a barba, passassem batom. É diferente num detalhe específico", compara, acrescentando que a maior parte das variações não muda a estrutura do vírus de maneira que comprometa a imunidade ou a vacinação.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), “todos os vírus, incluindo o da Covid-19, mudam com o tempo”. "Para entender por completo o impacto de mutações específicas, são necessários estudos laboratoriais avançados”, diz a agência no site oficial.

Até dezembro, ao menos 40 linhagens do novo coronavírus já haviam sido detectadas no Brasil, de acordo com a Fundação Oswaldo Cruz.

Kfouri, da SBIm, disse que, nesse momento, a vigilância das mutações virais, do vírus que causa a Covid-19 e de todos os outros, é essencial.

"Isso traz duas vantagens: a primeira é de rastreamento, conseguimos traçar por onde ele andou. A segunda, é que podemos identificar variações importantes, quando o vírus fica muito diferente e muda alguma característica, se está se tornando mais grave ou menos grave", disse.

Alexandre Naime Barbosa, infectologista e professor da Unesp (Universidade Estadual Paulista), reforçou essa necessidade.

"A vigilância tem que ser feita, porque vários vírus se adaptam para escapar da resistência, de vacina, de medicação. Tudo isso para a Covid ainda não está claro e somente a vigilância biomolecular da consistência do vírus vai poder responder a essas questões no futuro", concluiu.  

(Com informações da Reuters, da CNN Internacional e do Estadão Conteúdo)