Novas variantes podem ter influenciado em aumento da contaminação em crianças

Taxa de ocupação de leitos para crianças em hospitais públicos ultrapassa os 80%

Renato Barcellos, da CNN, em São Paulo
06 de março de 2021 às 05:00
UTI de hospital em São Paulo em meio à pandemia da Covid-19
UTI de hospital em São Paulo em meio à pandemia da Covid-19
Foto: Amanda Perobelli/Reuters (3.jun.2020)

Hospitais públicos e privados têm registrado uma alta no número de crianças internadas em leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) por Covid-19

A média de pacientes pediátricos internados infectados pelo novo coronavírus desde março de 2020 no Hospital Israelita Albert Einstein é de 6 pessoas. O maior pico aconteceu em janeiro, data que coincide com as festas de fim de ano, com 14 casos. Em fevereiro, foram admitidos 8 pacientes com Covid-19.

No Sabará Hospital Infantil, pelo menos três crianças têm sido diagnosticadas com Covid-19 por dia. No mês de janeiro, o pico de internações chegou a 22%. O número é o maior desde o ínicio da pandemia. 

A taxa de internação neste primeiro bimestre foi de 18%, superando o acumulado do ano anterior que registrou 13%. Na distribuição por faixa etária, 68% dos pacientes têm entre 1 e 10 anos, com 18% menores de um ano e 14% maiores de 10 anos.

Novas variantes podem ter influenciado aumento

Já nos hospitais públicos, a taxa de ocuapação ultrapassa os 80%. O Hospital Municipal Infantil Menino Jesus registrou um aumento de 56,63% nas internações, enquanto o Hospital Municipal da Criança e do Adolescente teve aumento de 86,41%. Já o Hospital Infantil Cândido Fontoura ultrapassou a marca de 76,5% de taxa de ocupação de leitos.

Um dos motivos que pode ter influenciado essa alta é a circulação das novas variantes do vírus, aponta a epidemiologista professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Ethel Maciel. De acordo com a médica, desde o final do ano passado, a Europa como um todo, mas principalmente o Reino Unido, já havia registrado uma alta no número de casos graves em crianças.

"Esse aumento pode estar relacionado com as novas variantes, principalmente com a P.1 (de Manaus) e também a do Reino Unido, porque elas têm a mesma mutação. Essa mutação fez com que o vírus ficasse mais transmissível", explica.

Um pesquisa realizada pelas faculdades de Medicina e de Odontologia da Universidade de São Paulo, campus de Ribeirão Preto, identificou que a proteína spike, da nova cepa viral, estabelece maior força de interação molecular com o receptor ACE2, presente na superfície das células humanas e com o qual o SARS-CoV-2 se liga para viabilizar a infecção.

Segundo os pesquisadores, o aumento na força de interação molecular da nova linhagem é causado por uma mutação já identificada no resíduo de aminoácido 501 da proteína spike do SARS-CoV-2, chamada de N501Y, que deu origem à nova variante do vírus.

Além das aglomerações provocadas durante as festas de fim de ano e no carnaval, outro fator que pode ter relação com o alto número de internação de crianças é a volta às aulas. Para Maciel, as escolas acabam se tornando pontos de aglomeração e para algumas faixas etárias é difícil controlar o distânciamento social.

Além disso, a médica aponta que a situação precária de algumas escolas e a má ventilação dos ambientes também ajudam na disseminação do vírus.

"Nos Estados Unidos e em países da Europa, as salas de aula têm o filtro HEPA (High Eficiency Particulate Air). Esses filtros trocam o ar do ambiente, filtrando particulas muito pequenas, menores até que o vírus. Sendo assim, eles conseguem controlar o ambiente. Países mais desenvolvidos, que optaram pela educação, fizeram essa investimento importante", ressalta.

A gerente de marketing Tereza Candida afirma ter medo de que a filha de nove anos contraia o vírus durante as aulas. No entanto, ela entende que a abertura da escolas é necessária neste momento.

"As escolas precisam ser priorizadas, vacinando os professores o mais rápido possível. Era para fechar os bares, academias, igrejas e abrir as escolas", afirma.

Nesta quarta-feira (3), o governo de São Paulo anunciou que todo o estado regrediu à fase vermelha, a mais restritiva da quarentena. 

"A fase vermelha permite o funcionamento, apenas, de setores essenciais, como saúde, educação, segurança pública e privada, construção civil, indústria, logística, abastecimento, transporte coletivo, comunicação social e serviços gerais", disse o governador João Doria (PSDB), em entrevista coletiva no Palácio dos Bandeirantes.

Doria ressaltou que as escolas, tanto públicas quanto privadas, poderão continuar abertas no estado durante a fase de restrição. 

"As escolas de rede pública municipal e estadual e da rede privada vão continuar abertas e vão atender os alunos, exatamente como estava previsto", disse.

Em entrevista à CNN nesta quinta-feira (4), o secretário estadual de Educação de São Paulo, Rossieli Soares, afirmou que as escolas vão continuar abertas “para quem precisa”.

“A educação é essencial. Desde o dia 17 de dezembro aqui em São Paulo foi declarado que, mesmo na bandeira vermelha, a escola não fecharia. Agora o que a gente tem dito é que sempre que a família puder e a criança conseguir desenvolver as atividades online neste momento, é preferível que fique obviamente em casa”, explicou.

Questionada se teria com que deixar a filha caso ela não fosse à escola, Tereza Candido respondeu: "Eu sou privilegiada e a minha empresa adotou home office 100%".

De acordo com um levantemento realizado pelo Sindicato dos Professores de São Paulo, até as 15h desta quinta-feira, 155 escolas particulares registravam algum caso de Covid-19 entre estudantes, professores e trabalhadores não docentes.