Mortalidade de pacientes de Covid-19 com até 45 anos sobe 193%, aponta pesquisa

Levantamento mostrou também que o número de pacientes que precisam de uma vaga em UTI chegou ao pior patamar desde o início da pandemia

Stéfano Salles e Thayana Araujo, da CNN, no Rio de Janeiro
07 de abril de 2021 às 08:26
Leitos de UTI no Hospital Ronaldo Gazzola, na zona norte do Rio de Janeiro
Leitos de UTI no Hospital Ronaldo Gazzola, na zona norte do Rio de Janeiro, durante pandemia da Covid-19
Foto: Wilton Júnior/Estadão Conteúdo (10.mar.2021)

Uma pesquisa da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib) mostra que a taxa de mortalidade de pacientes com até 45 anos que contraíram Covid-19 aumentou 193%, quando os meses de setembro, outubro e novembro de 2020 são comparados com fevereiro e março de 2021.

A taxa de óbitos salta de 13,1% no primeiro período para 38,5% no segundo, de acordo com o estudo “Projeto UTIs Brasileiras”. 

A pesquisa mostra que a mortalidade hospitalar está em crescimento. Passou de 32% no trimestre formado por setembro, outubro e novembro de 2020 para 38% em dezembro, janeiro e fevereiro deste ano.

No caso dos pacientes que dependem de um respirador, a taxa sobe de 65,6% para 72,8% dentro do mesmo período. 

Na análise regional, o Norte enfrenta a pior situação do país com 62,4% de mortalidade geral e 80,1% na ventilação mecânica. O Sudeste apresenta os indicadores mais baixos: 33,2% e 70,9%, respectivamente. 

A piora dos indicadores é, de acordo com pesquisador Ederlon Rezende, coordenador do levantamento, fruto do agravamento das condições de operação do sistema de saúde. 

“Esse é o pior momento para ficar doente. Quem adoecer agora terá dificuldades para ser atendido, pode ter o azar de precisar aguardar a disponibilidade de um leito de terapia intensiva, em um CTI operando acima da capacidade, faltando insumos e etc. Isso tudo se reflete no aumento das taxas de mortalidade de todos os lugares e todas as idades”, avalia o médico. 

Mesmo entre os mais jovens, a situação de todo o país é preocupante. Em setembro, outubro e novembro de 2020, 43,2% dos pacientes entre 18 e 44 anos que dependiam de ventilação mecânica morreram. Já em dezembro, janeiro e fevereiro deste ano, o índice subiu para 51,1%. 

O estudo leva em conta um universo amostral com 20,8 mil leitos públicos e privados da rede UTIs Brasileiras.

Aplicação da vacina contra Covid-19 no Rio de Janeiro
Aplicação da vacina contra Covid-19 no Rio de Janeiro
Foto: Delmiro Júnior/Agência O Dia/Estadão Conteúdo (19.mar.2021)

Curiosamente, neste período, o perfil de internação dos pacientes dessa faixa etária não mudou tanto: passou de 18% para 20%. Já o de internados maiores de 80 anos caiu de 13,4% para 9,7%. Esse é o único dado comemorado pela pesquisa, como explica Rezende:

“Isso representa uma queda de 27,6% nas admissões de pacientes com esse perfil. Já é reflexo do avanço da campanha de vacinação dos idosos, certamente. Esse é um grupo que temos que nos esforçar para evitar que precise de terapia intensiva, porque são muito frágeis e, quando chegam, já estão em situação grave”, explica o médico, membro do comitê consultivo da AMIB. 

Rezende destaca que a proporção de internações de pacientes mais jovens não aumentou tanto em relação ao número de casos – esse número que disparou e foi responsável pela maior procura por leitos. 

“Dados da Fiocruz apontam que o contágio nesse público cresceu de forma extraordinária, atingindo até 500%. No geral, eles respondem bem, mas há também um aumento do número de pacientes que chegam ao estágio grave, dependendo de mais oxigênio, diálise e até do uso de pulmões artificiais. Quando se falava em grupos de risco para a doença, esse grupo ficou muito confiante, acreditou que estava imune, ou que apresentaria apenas sintomas leves, mas não é o que acontece”, conclui.