Apesar de risco baixo, profissionais relatam recusa à vacina de Oxford no Rio

Imunizante é seguro e reações são monitoradas pela Anvisa

Leandro Resende, Elis Barreto e Lucas Janone, da CNN, no Rio de Janeiro
15 de abril de 2021 às 15:53
Vacinação contra Covid-19 na quadra do Cacique de Ramos, no Rio de Janeiro
Vacinação contra Covid-19 na quadra do Cacique de Ramos, no Rio de Janeiro
Foto: Alexandre Silva/Fotoarena/Estadão Conteúdo (9.abr.2021)

Profissionais de saúde responsáveis pela vacinação na cidade do Rio de Janeiro afirmaram que a vacina contra Covid-19 Oxford/AstraZeneca tem sido rejeitada por parte dos cariocas. O relato foi feito por funcionários de quatro postos de vacinação.

A desinformação sobre a vacina, que é segura e aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), está na raiz do problema apontado pelos que estão na linha de frente da vacina. São dois os motivos principais: o intervalo maior entre a primeira e a segunda dose e o receio de efeitos colaterais como a formação de coágulos.

Segundo os funcionários ouvidos pela CNN, as recusas foram relatadas nos postos de vacinação de Copacabana e Botafogo, na Zona Sul do Rio, Complexo do Alemão, na Zona Norte, e Santíssimo, na Zona Oeste.

 “Até 6 idosos por dia têm demonstrado essa resistência em receber a vacina de Oxford. Há caso de um senhor que rodou a cidade atrás da Coronavac. É difícil de convencer as vezes”, afirmou à CNN um funcionário que atua na coordenação de um posto de vacinação.

Diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBI) e uma das principais referências no país sobre vacinas, o médico Renato Kfouri afirmou à CNN que a vacina é segura, os riscos são muito baixos e as pessoas não devem se preocupar com o fato de o intervalo de aplicação da vacina de Oxford ser maior entre a aplicação da primeira e da segunda doses do que no caso da Coronavac. “O intervalo só é possível porque há uma proteção garantida pela primeira dose e a vacina foi estudada com este intervalo de três meses. Não tem nenhum problema”, afirmou.

No Brasil, a Anvisa recebeu apenas a informação de 47 casos em 4 milhões de doses aplicadas. “São casos muito raro e não foram identificados fatores de risco específicos para a ocorrência do evento adverso”, diz a Anvisa. Riscos de trombose são maiores para quem fuma, tem Covid ou mulheres que administram anticoncepcional.

“Os relatos de reações adversas e formação de coágulos  fizeram idosos recusarem a vacina”, afirmou, sob condição de anonimato, uma médica que atua na aplicação de imunizantes. A Anvisa e especialistas consultados pela reportagem ressaltam que não há motivo para receio e a chance de alguém desenvolver trombose se contaminada por Covid-19 é muito superior a de ter o problema com a vacina. 

“Os casos estão sendo acompanhados e os números mostram que os eventos são muito raros. Quem fuma, é infectado por coronavírus ou mulheres que tomam anticoncepcional tem risco muito maior de desenvolver trombose”, afirmou a médica Ana Clara Kneese Nascimento Coordenadora do Comitê de Hemostasia e Trombose da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular.

Em nota divulgada na semana passada, a Anvisa afirmou que não é possível ainda estabelecer uma relação entre os eventos de trombose e a vacina de Oxford. “A Anvisa mantém a recomendação de continuidade da vacinação com o imunizante, uma vez que, até o momento, os benefícios superam os riscos do uso da vacina de Oxford/Astrazeneca/Fiocruz”. É a mesma recomendação dada pela Agência Europeia de Medicamentos. 

Vacinas aplicadas no Brasil há muito tempo também tiveram efeitos adversos

Sue Ann Costa Clemens, coordenadora dos centros de pesquisa da vacina de Oxford no Brasil e que já atuou em pesquisas de desenvolvimento de outros imunizantes como a da pólio, afirmou a CNN que ja foram aplicadas pelo menos 230 milhões de doses da vacina em todo o mundo, e apenas dois casos acontecem, no máximo, a cada milhão de habitantes. “O risco é muito baixo”, afirmou. 

Clemens também lembrou que “eventos adversos muito raros fazem parte da história da vacinação em todo o mundo”. Ela lembrou que milhares de brasileiros foram salvos de outras doenças e que tais eventos não deveriam impedir as pessoas de se vacinar.  “Rotavírus em alguns lugares no mundo apresentam eventos adversos raros. A Fiocruz mostrou eventos adversos raros da Febre Amarela, e todos se vacinam”, lembrou. 

Prefeitura do Rio recomenda vacinação

Em resposta aos relatos colhidos pela CNN, a Secretaria Municipal de Saúde lembra que não há comprovação de casos graves que levem à contraindicação tanto da vacina de Oxford como da Coronavac. 

A pasta lembra que eventos adversos podem ocorrer com quaisquer medicamentos e devem ser reportados às autoridades sanitárias”. 

“As duas vacinas disponíveis no Brasil, a CoronaVac e a Oxford/AstraZeneca, protegem contra os efeitos do coronavírus no organismo e ambas são seguras para a população”, diz a nota.