Em meio a recorde de casos de Covid-19, Índia atrasa entrega de vacinas

Apenas neste domingo (18), o país registrou 261.500 novas infecções – maior número diário desde o início da pandemia; entregas para Covax seguem indefinidas

Jessie Yeung e Esha Mitra, CNN
18 de abril de 2021 às 13:34 | Atualizado 18 de abril de 2021 às 15:11

Em tempos normais, a Índia produz mais de 60% de todas as vacinas vendidas globalmente e é a sede do Serum Institute of India (SII), o maior fabricante de vacinas do mundo.

No entanto, em meio à uma forte segunda onda de infecções pelo novo coronavírus, o país tem enfrentado escassez na produção dos imunizantes e atrasado as entregas para o consórcio Covax para priorizar o mercado interno e a imunização de seus próprios cidadãos.

"As entregas de doses do Serum Institute of India serão adiadas em março e abril", disse a Covax, que é administrada por uma coalizão que inclui a organização internacional de vacinas Gavi e a Organização Mundial de Saúde (OMS), em um comunicado à imprensa no fim de março

"Os atrasos em garantir o fornecimento de doses de vacina contra Covid-19 produzidas pelo SII se deve ao aumento da demanda por vacinas Covid-19 na Índia", destacou o texto.

Até o momento, a Índia já forneceu 28 milhões de doses da vacina AstraZeneca/Oxford ao consórcio. A entrega de mais 40 milhões de doses estava prevista para março e de outras 50 milhões para abril, detalhou o comunicado, acrescentando que a Covax e o governo indiano "permanecem em discussões" sobre a conclusão do fornecimento.

A capacidade de fabricação de imunizantes é o motivo pelo qual a Índia se inscreveu como um dos principais participantes do consórcio Covax, uma iniciativa global de compartilhamento de vacinas que oferece doses com desconto ou até de forma gratuitas para países de baixa renda. 

Pelo acordo inicial anunciado em 2020, o Serum Institute fabricaria até 200 milhões de doses para até 92 países. Atualmente, no entanto, a situação é diferente de alguns meses atrás.

Cartaz informa sobre falta de vacinas contra Covid-19 em centro de vacinação em Mumbai, na Índia
Foto: Francis Mascarenhas/Reuters (8.abr.2021)

Recrudescimento da pandemia fez governo mudar planos

Em março, a segunda onda de infecções por Covid-19 superou rapidamente a primeira, que atingiu o pico em setembro, com recorde de mais de 97.000 casos do novo coronavírus por dia.

E novos recordes têm sido registrados desde então. Apenas neste domingo (18), a Índia registrou 261.500 infecções por Covid-19 – o maior número em um único dia até agora, de acordo com dados do Ministério da Saúde. 

A Índia adicionou um milhão de novos casos em menos de uma semana, ultrapassando o total de 14 milhões de casos nesta quinta-feira (15).

Enquanto isso, centros de vacinação espalhados pelo país têm pedido que os indianos retornem às suas casas já que  há escassez de imunizantes em, pelo menos, cinco estados – as autoridades locais pedem que o governo indiano aja.

Estados e cidades estão impondo novas restrições, incluindo toques de recolher nos finais de semana e durante a noite na região da capital Nova Delhi, onde vivem 19 milhões de pessoas. Os trabalhadores migrantes também estão deixando as grandes cidades em massa rumo a seus vilarejos natais, com medo de que qualquer bloqueio potencial os deixe presos na capital.

Índia enfrenta aumento expressivo do número de casos e mortes por Covid-19 em 2021
Foto: Reprodução/CNN Brasil (16.abr.2021)

Não é a primeira interrupção das contribuições a Covax

Em janeiro, o governo indiano restringiu a exportação de vacinas AstraZeneca/Orford produzidas pelo Serum "porque eles querem priorizar os segmentos mais vulneráveis e necessitados primeiro", declarou o CEO da farmacêutica, Adar Poonawalla.

Esses repetidos atrasos de entrega atingiram duramente os países mais pobres. O diretor do órgão de controle de doenças da África advertiu que o controle da Índia sobre as exportações pode ser "catastrófico" para o continente africano.

Já o Paquistão, um dos maiores beneficiários do programa Covax, decidiu permitir a importação e venda de vacinas pelo setor privado para preencher a lacuna deixada pela Índia.

Internamente, a Índia usa duas vacinas diferentes em seus cidadãos: a AstraZeneca/Oxford, e o imunizante indiano Covaxin, desenvolvida em conjunto pela farmacêutica Bharat Biotech e pelo Indian Council of Medical Research (ICMR, na sigla em inglês).

O país iniciou seu programa de vacinação em janeiro para profissionais de saúde e grupos prioritários, com a meta de imunizar totalmente 300 milhões de pessoas até agosto. Mas o programa teve um início lento, enfrentando problemas logísticos, bem como hesitação da população – especialmente em relação à Covaxin, que foi aprovada para uso emergencial antes que os dados de eficácia de seu ensaio clínico de fase 3 fossem divulgados.

Até o momento, apenas 14,3 milhões de pessoas foram totalmente vacinadas (com duas doses) – pouco mais de 1% da população da Índia de 1,3 bilhão, de acordo com a Universidade Johns Hopkins.

Mas a confiança do público aumentou após o governo intensificar uma campanha de conscientização para amenizar as preocupações, e o programa de vacinação ganhou velocidade. À medida que novos casos diários se aceleravam em março e abril, vários estados começaram a relatar uma grande escassez de vacinas.

Centros de vacinação fechados por falta de suprimento

Em Odisha, quase 700 centros de vacinação tiveram que fechar na semana passada devido à escassez, escreveram as autoridades sanitárias em uma carta ao governo central, alertando que o estado logo esgotaria seu estoque disponível.

Rajesh Bhaskar, um funcionário da Saúde em Punjab, disse à CNN na semana passada que o estado tinha cerca de 450 mil doses da AstraZeneca/Oxford e 30 mil doses de Covaxin.

O estado abriga mais de 27 milhões de pessoas, de acordo com as últimas estatísticas disponíveis do governo. “Queremos vacinar cerca de 100 mil pessoas por dia no mínimo, e a oferta atual é insuficiente para atender a essa demanda”, disse.

Mercado lotado em Mumbai, na Índia; país superou a marca dos 100 mil casos diários de Covid-19
Foto: Niharika Kulkarni - 5.abr.2021/Reuters

Vários distritos em Maharashtra, o estado mais atingido pela pandemia, tiveram que suspender temporariamente as campanhas de vacinação, incluindo mais de 70 centros em Mumbai que fecharam na semana passada, de acordo com o ministro da saúde do estado, Rajesh Tope.

Maharashtra administrou mais de 11,1 milhões de doses até a quinta-feira (15), a maior quantidade entre todos os estados indianos, de acordo com o Ministério da Saúde local.

"Nas cidades e vilas, criamos equipes para trazer todos os maiores de 45 anos para tomar a vacina", disse Tope em 7 de abril. "As pessoas estão vindo para os centros, mas nossos profissionais de saúde têm de avisá-los que eles não receberão a vacina, então devem voltar para casa."

As causas do problema

Existem vários desafios que contribuem para a escassez – um deles é o fornecimento de matérias-primas, disse o ex-diretor geral do ICMR, Nirmal Kumar Ganguly.

A Índia "tem capacidade para produzir", mas as cadeias de abastecimento foram interrompidas durante a pandemia. As fórmulas da vacina e os materiais necessários "não podem ser alterados da noite para o dia, então temos que contar com a importação de matérias-primas".

Os EUA proibiram temporariamente a exportação de matérias-primas essenciais para a produção de vacinas – e a União Europeia também endureceu as restrições às exportações de vacinas. A Índia agora está trabalhando para "se adaptar aos materiais que são feitos no país ou em países vizinhos como Cingapura", mas isso deve levar tempo, disse Ganguly.

Um desafio adicional é a dependência do país ao Serum Institute, acrescentou Ganguly. Existem outros fabricantes de vacinas no país, como a Bharat Biotech, mas o Serum continua sendo o maior.

"A necessidade evidenciada foi que precisamos expandir nossa capacidade", disse Ganguly. “Nós somos um dos exportadores de vacinas, mas isso é feito por duas ou três empresas indianas no momento, o restante delas não são grandes e algumas são totalmente novas na produção de vacinas.”

Resposta do governo indiano

Vários estados solicitaram mais doses do governo central, mas as autoridades federais insistem que a situação está sob controle.

As queixas não foram "nada além de uma tentativa de desviar a atenção dos repetidos fracassos do governo de Maharashtra em controlar a propagação da pandemia", disse o ministro da Saúde indiano, Harsh Vardhan, em um comunicado na semana passada. 

O ministro do Interior, Amit Shah, também refutou as afirmações dos estados, dizendo que suas informações "não eram verdadeiras" e que as vacinas estavam disponíveis "tanto quanto necessário".

O primeiro-ministro Narendra Modi fez questão de elogiar o esforço de vacinação da Índia e o classificou como "um sucesso". Durante uma reunião com governadores na última quarta, Modi destacou que a Índia "se tornou a nação mais rápida a atingir a marca de 100 milhões de doses", de acordo com um comunicado de seu gabinete.

A Índia levou 85 dias para chegar a 100 milhões de doses. Em comparação, os EUA levaram 89 dias e a China 102 dias, de acordo com o gabinete de Modi.

Já Rajesh Bhushan, secretário do ministério da Saúde, disse que o problema era de planejamento e gerenciamento deficientes – e não abastecimento. "Estamos disponibilizando as doses aos estados em tempo hábil", disse ele, acrescentando que os estados deveriam "verificar quantas doses não utilizadas existem em cada ponto da cadeia".

Suas declarações foram recebidas com indignação por líderes locais. A afirmação foi "factualmente e completamente incorreta", tuitou o ministro-chefe do Rajastão, Ashok Gehlot, em 10 de abril.

E embora um carregamento de última hora do governo central tenha salvado Uttarakhand de uma escassez completa, está longe de ser uma solução perfeita e "o fornecimento é imprevisível", disse Kuldeep Martolia, funcionário do departamento de saúde, na última segunda-feira (12). 

Em um sinal de que o governo federal pode estar sentindo a pressão, ele agiu nesta semana para abrir as portas para a importação de vacinas. 

Na terça-feira (13), anunciou que aceleraria as aprovações de emergência para vacinas já aprovadas pela OMS ou autoridades nos Estados Unidos, Europa, Grã-Bretanha e Japão. As empresas ainda precisam se inscrever para obter a aprovação na Índia, mas ficarão isentas de ter que realizar testes de segurança locais, agilizando o processo.

A medida é "um passo calculado" do governo para "garantir que tenhamos mais vacinas disponíveis", disse Ganguly. O governo também poderia expandir sua oferta por meio do mercado privado, mas isso também traz desafios adicionais, incluindo a questão de como precificar as vacinas para fornecer acesso equitativo aos pobres.

Mas mesmo com a possibilidade de importar vacinas estrangeiras não será uma solução rápida, uma vez que empresas como Pfizer e Moderna têm outros pedidos a cumprir primeiro, incluindo o fornecimento de vacinas para os EUA. A Índia acaba de conceder autorização de uso de emergência para a vacina russa Sputnik, mas "quando eles aumentarem as capacidades de fabricação e os requisitos de fabricação, levará de cinco a seis meses", disse Ganguly.

 

"Atrasos em garantir o fornecimento de doses de vacina Covid-19 produzidas por SII [Serum Institute] se deve ao aumento da demanda por vacinas Covid-19 na Índia."

diz um comunicado do consórcio Covax

 

Enquanto isso, o governo está trabalhando para expandir a capacidade de produção local – um instituto biomédico estatal em Maharashtra recebeu luz verde para fabricar a vacina Covaxin na quinta-feira (15), por meio de uma transferência de tecnologia com a Bharat Biotech.

Enquanto isso, a segunda onda da pandemia continua, com casos subindo drasticamente a cada dia. Milhões de pessoas estão viajando pelo país para a cidade de Haridwar em Uttarakhand para o Kumbh Mela, um festival hindu e a maior peregrinação da Terra. 

Apesar dos avisos sobre os riscos de Covid-19, grandes multidões estão se reunindo para fazer orações, participar de cerimônias e mergulhar no rio Ganges.

Os casos em Haridwar já estão aumentando, o que levou o estado a impor novas restrições. Pelo menos um grupo religioso que compareceu ao festival, o Niranjani Akhada, pediu aos de fora do estado que recuassem em meio ao aumento de casos.

"Este aumento é uma visão muito, muito ameaçadora que está acontecendo neste momento na Índia", disse Ganguly. "Nunca vimos nada assim antes."

 (Texto traduzido; leia o original, em inglês)