Quadro irreversível significa que paciente está vivo, mas em estado terminal

Nestes casos, não há mais tratamento que permita melhora do estado de saúde

Camila Neumam, da CNN, em São Paulo
15 de maio de 2021 às 18:07 | Atualizado 16 de maio de 2021 às 10:30
Bruno Covas em tratamento contra o câncer
Prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), quando estava internado no Hospital Sírio-Libanês, em foto de 17 de dezembro de 2019
Foto: WERTHER SANTANA/ESTADÃO CONTEÚDO

Boletim médico divulgado na noite desta sexta-feira (14) afirmou que o quadro clínico do prefeito licenciado de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), é "irreversível", ou seja, sem possibilidade de melhora.

Bruno Covas está internado no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo (SP), recebendo analgésicos e sedativos. 

O prefeito está licenciado desde o início do mês, quando pediu afastamento do cargo por 30 dias para se dedicar ao tratamento de um câncer, diante do aparecimento de novos focos e da metástase no trato digestivo, descoberto em 2019.

O estado irreversível significa que ainda há vida, mas o paciente se encontra em estado terminal, ou seja, no qual nenhum tratamento é capaz de melhorar o estado de saúde, explica a oncologista Rachel Riechelmann, head de Oncologia do Hospital A.C. Camargo. 

“É uma pessoa que está viva, mas com a saúde muito frágil, quadro muito grave e terminal no qual os tratamentos disponíveis não funcionam mais”, explica Riechelmann.

Covas recebeu o diagnóstico de adenocarcinoma entre esôfago e estômago, com lesões no fígado e nos linfonodos em 2019. O tipo de câncer de Covas é considerado metastático desde que foi diagnosticado, porque mostrou focos em diferentes partes do corpo.

Recentemente, surgiram novos focos da doença no fígado e nos seus ossos, que indicaram nova metástase, ou seja, quando as células do tumor original se multiplicam e circulam através do sangue, se instalando em diferentes órgãos ou regiões do corpo.

Cuidados paliativos

Riechelmann explica que há vários motivos que podem agravar o estado do paciente oncológico a ponto de se tornar irreversível. Um deles é o espalhamento de tumores para outros órgãos, que os lesa de tal forma, que pode fazer com que eles parem de funcionar.

Nestes casos, as terapias indicadas como quimioterapia, radioterapia e imunoterapia – todas utilizadas por Covas – não fazem mais efeito e a doença fica fora de controle.

“A doença se torna muito agressiva e os tumores se tornam resistentes aos tratamentos indicados e não há mais nada que possa ser feito, senão os cuidados paliativos”, afirma. 

O crescimento e espalhamento dos tumores podem causar dores, sangramentos e mal-estar tamanhos, que a medida paliativa a ser considerada é sedar o paciente para evitar que ele sofra.

“O paciente oncológico é sedado para aliviar o sofrimento que pode ser por dor, falta de ar, agonia, confusão mental; sintomas que causam muita dor no paciente e nos seus familiares”.

"A doença se torna muito agressiva e os tumores se tornam resistentes aos tratamentos indicados e não há mais nada que possa ser feito, senão os cuidados paliativos"

Rachel Riechmann, head de oncologia do A.C. Camargo

O fato de estar sedado não impede a doença de manter seu curso e vir a falecer por falência dos órgãos comprometidos. Mas não significa que órgãos vitais como cérebro ou coração estejam parados. “Eles continuam funcionando, mas a medida que a doença avança, pode haver a falência dos órgãos e a morte”, explica Riechelmann.

Desde a descoberta do câncer, Covas foi submetido a oito sessões de quimioterapia. Nos quatro primeiros meses, elas resultaram na regressão dos tumores na região gastroesofágica, mas não foram capazes de extrair o câncer na região dos linfonodos. Com os linfonodos ainda aumentados, sinal de que o câncer persistia, o prefeito começou sessões de imunoterapia em fevereiro de 2020.

Na ocasião, o oncologista Tulio Eduardo Flesch Pfiffer, um dos membros de sua equipe médica, informou que o tratamento com a imunoterapia era "mais tranquilo e muito menos tóxico", e que ajudaria a reforçar a imunidade do prefeito.

Entenda a doença

O câncer gástrico metastático não tem cura. Os tratamentos disponíveis, servem para melhorar os sintomas e prolongar a vida de quem tem a doença, segundo Riechelmann.

“O câncer gástrico é uma doença muito grave. Mesmo quando o doente consegue retirar o tumor em cirurgia e receber tratamentos adequados, mais da metade evolui para metástase”, afirma.

Em seu atlas do Câncer no Brasil, o Instituto Nacional do Câncer (Inca), descreve o tratamento do câncer de estômago metastático como “nas situações em que não é possível retirar o tumor com cirurgia ou em que há metástases, o tratamento é paliativo”. São indicados: radioterapia, quimioterapia e imunoterapia.

Câncer de estômago no Brasil

Segundo dados do Inca, o adenocarcinoma de estômago atinge, em sua maioria, homens por volta dos 60-70 anos. Cerca de 65% dos pacientes têm mais de 50 anos. No Brasil, o câncer de estômago é o terceiro tipo mais frequente entre homens e o quinto entre as mulheres.

Para cada ano do triênio 2020-2022, devem surgir 13.360 casos novos de câncer de estômago entre homens e 7.870 entre as mulheres, segundo dados do documento Incidência de Câncer no Brasil – Estimativa 2020, do Inca.