Fiocruz recomenda manter intervalo de 12 semanas entre doses da AstraZeneca

No entanto, epidemiologista da fundação reconhece dificuldade de recomendação nacional com diferentes cenários internos de vacinação

Stéfano Salles, da CNN, no Rio de Janeiro
14 de julho de 2021 às 13:08 | Atualizado 14 de julho de 2021 às 18:47

 

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) publicou uma recomendação indicando que estados e municípios mantenham o intervalo de 12 semanas de aplicação da segunda dose da vacina de Oxford/AstraZeneca contra a Covid-19. A decisão acontece depois de estados e municípios decidirem antecipar a aplicação da segunda dose, impulsionados por um estudo divulgado pela revista científica "Nature", segundo o qual a proteção completa é necessária para que a vacina seja eficaz contra a variante Delta, originária da Índia.

Já presente no Brasil, a Delta é uma das quatro linhagens consideradas de preocupação pela Organização Mundial de Saúde (OMS), e é associada à maior transmissibilidade do novo coronavírus. Segundo a Fiocruz, a manutenção do regime ocorre porque a fundação e o laboratório anglo-sueco AstraZeneca consideram "dados que demonstram uma proteção significativa já com a primeira dose e a produção de uma resposta imunológica ainda mais robusta quando aplicado o intervalo maior".

O comunicado destaca ainda que o regime de 12 semanas "permite ainda acelerar a campanha de vacinação, garantindo  a proteção de um número maior de pessoas". A Fiocruz destacou ainda que uma pesquisa da agência de saúde do governo do Reino Unido, publicada em junho, mostrou que o imunizante apresentou 71% de efetividade após a primeira dose e 92% depois da segunda, para hospitalizações e casos graves.

A Fiocruz destaca ainda um estudo canadense que apontou efetividade de 88% contra hospitalização ou morte, em caso de aplicação de uma dose.

Epidemiologista, professor da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) e pesquisador da Fiocruz, Júlio Croda destaca a dificuldade existente para se implementar uma orientação nacional em um país no qual estados e municípios apresentam níveis muito diferentes de vacinação.

"A bula indica um intervalo de quatro a 12 semanas. As realidades são muito locais. Se você avança na campanha por faixa etária e consegue vacinar um grande percentual até 18 anos, os municípios adiantam. Sabemos que a vacinação está muito desproporcional pelo país. O Reino Unido reduziu para oito semanas para pessoas até 50 anos. Alguns recomendam e não vejo contradição", afirma.

Para Croda, o que não deve ser feito é antecipação do prazo por parte de municípios ou estados que estejam com a vacinação em fases iniciais. "Seria um absurdo adiantar nesses casos, sem ter coberto pelo menos a imunização da população mais idosa, que tem maior risco de internação e morte em caso de contágio pela doença", conclui o pesquisador.

Profissional prepara aplicação de vacina da Astrazeneca contra Covid-19 em Belo Horizonte (MG)
Foto: Alex de Jesus/O Tempo/Estadão Conteúdo (1º.jun.2021)