Esclerose múltipla: conheça as causas, os sintomas e o tratamento

A doença neurológica autoimune compromete o sistema nervoso central e pode levar a alterações na visão, no equilíbrio e na capacidade muscular

Lucas Rocha, da CNN, em São Paulo
16 de julho de 2021 às 17:05 | Atualizado 16 de julho de 2021 às 17:15
Neurônios
Foto: Getty Images (Viaframe)

A esclerose múltipla é uma doença neurológica autoimune que compromete o sistema nervoso central e pode levar a alterações na visão, no equilíbrio e na capacidade muscular. Segundo o Ministério da Saúde, a doença atinge principalmente pessoas entre 18 e 55 anos.

Os sintomas estão relacionados a alterações em uma estrutura cerebral chamada bainha de mielina, que envolve as células nervosas pelas quais passam os impulsos elétricos responsáveis pelo controle das funções do organismo. 

 A atriz Cláudia Rodrigues, diagnosticada com esclerose múltipla em 2000, enfrenta complicações relacionadas à doença. Para poder receber a vacina contra a Covid-19, a atriz fez uma pausa no tratamento e apresentou uma piora no quadro clínico.

Entenda as principais causas, os fatores de risco e tratamentos disponíveis contra a doença:

Causas são desconhecidas

Um dos desafios do estudo da esclerose múltipla é definir a causa da doença. Até o momento, a ciência não tem uma resposta sobre o que leva à deterioração da bainha de mielina. As hipóteses consideram que a ação contra os tecidos do sistema nervoso seja induzida pelo próprio sistema imunológico, de acordo com a predisposição genética.

Segundo o neurologista Tarso Adoni, coordenador do Centro de Esclerose Múltipla do Hospital Sírio-Libanês, de São Paulo, a infecção pelo vírus Epstein-Barr, causador da mononucleose, aliada à predisposição genética, pode ser um dos fatores de risco.

"Esse vírus é um fator de risco, principalmente quando ele acomete os indivíduos na adolescência. É um vírus de transmissão oral, que causa a mononucleose infecciosa, popularmente conhecida como doença do beijo, relacionada à transmissão por saliva", explica.

"Por uma coincidência genética infeliz, parte da estrutura do vírus é parecida com parte da estrutura da mielina daquela pessoa. O sistema imunológico, na tentativa de debelar o vírus, acaba atacando também a mielina do sistema nervoso central", complementa. O neurologista explica que, como a doença depende de fatores como a predisposição genética, não há como preveni-la. 

Sintomas da esclerose múltipla

As pessoas acometidas pela esclerose múltipla apresentam surtos ou ataques agudos, que podem ser revertidos espontaneamente ou com o uso de medicamentos. Os sintomas mais comuns são perda visual (neurite óptica), diminuição ou perda de movimentos dos membros (paresia), sensação de dormência ou formigamento (parestesia), disfunções da coordenação e do equilíbrio, inflamação da medula espinhal (mielite), além de alterações cognitivas e comportamentais.

Os pacientes podem apresentar, ainda, alterações ligadas à fala e deglutição, fadiga e problemas no trato urinário e digestivo.

As diferentes manifestações clínicas

Os tipos de esclerose múltipla são definidos de acordo com a evolução clínica de cada paciente, que pode se manifestar de diferentes formas. A mais comum é a forma remitente-recorrente (EM-RR), que corresponde a cerca de 85% dos casos.

Os pacientes apresentam surtos bem definidos, com sintomas clínicos que podem durar dias ou semanas e desaparecem. A recuperação geralmente é completa e sem sequelas. "O surto é um sintoma visual, sensitivo ou motor que dura alguns dias e passa.", explica Tarso.

Já as formas progressivas, que podem ser divididas em primária (EM-PP) ou secundária (EM-SP), concentram de 10 a 15% dos casos. A primária-progressiva apresenta início lento e piora constante dos sintomas. Os déficits e as incapacidades, que se acumulam ao longo do tempo, podem estabilizar ou continuar por anos.

A forma secundária, por sua vez, é uma evolução natural da remitente-recorrente, seguida pelo desenvolvimento de uma incapacidade progressiva que pode apresentar mais surtos. "Ela acomete cerca de 50% dos indivíduos que têm um início remitente-recorrente, depois de um período de 10 a 20 anos do início dos sintomas. A pessoa para de ter surtos e começa a ter uma lenta e progressiva dificuldade", afirma.

Diagnóstico da esclerose múltipla

O diagnóstico pode ser feito a partir da investigação do histórico do paciente e de exames físicos. A confirmação é realizada por meio de exames de ressonância magnética do crânio e da coluna, com foco no encéfalo (parte do sistema nervoso localizada no interior do crânio) e na medula, além de exames laboratoriais que permitem descartar outras doenças que apresentam sintomas semelhantes.

Em casos de dúvidas, pode ser realizado, ainda, o exame do líquor, o líquido produzido no interior do cérebro com a função de proteger o sistema nervoso central. 

Quando procurar ajuda

O neurologista do Sírio-Libanês alerta que as pessoas devem procurar um médico sempre que manifestarem sintomas neurológicos que persistam por dias e que não tenham uma causa definida, como alterações da visão, da sensibilidade e dos movimentos do corpo. 

Tratamento da esclerose múltipla

A esclerose múltipla não tem cura. Em geral, o tratamento atua no sistema imunológico, com o intuito de reduzir a inflamação do sistema nervoso central. A medicação tem como objetivo promover a melhoria dos sintomas, reduzir a frequência e a gravidade das recorrências e diminuir o número de internações.

"Temos tratamentos orais, injetáveis por via subcutânea e infusionais que são recebidos na veia. Dependendo da medicação, pode ter uma frequência mensal ou semestral", diz Tarso.

O tratamento da esclerose múltipla pode ser realizado gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A rede pública oferece procedimentos clínicos e de reabilitação para a doença, além de medicamentos específicos.