Brasil tem circulação de uma variante altamente transmissível, diz Fiocruz

Virologista fala sobre os protocolos adotados quando um paciente é identificado com variante Delta e diz disseminação pode aumentar hospitalizações

Thayana Araujo e Pauline Almeida, da CNN, no Rio de Janeiro   
19 de julho de 2021 às 13:26 | Atualizado 19 de julho de 2021 às 20:14
Testes de laboratório identificam pacientes com variantes da Covid-19 (29.Mai.21
Testes de laboratório identificam pacientes com variantes da Covid-19 (29.Mai.2021)
Foto: Reprodução/CNN

Responsável por sequenciar amostras de coronavírus para a identificação de novas cepas, a Fiocruz foi fundamental nas confirmações dos primeiros casos no Brasil da variante Delta, inclusive daqueles em que o paciente evoluiu para óbito. Mas o que muitos não sabem é como funciona o momento logo após a identificação da cepa indiana em uma pessoa. 

A virologista Marilda Siqueira é pesquisadora da Rede Genômica Fiocruz e do Ministério da Saúde e atuou na descoberta da variante Delta em pelo menos seis estados, incluindo o Paraná, que concentra o maior número de mortes no país até o momento. 

A pesquisadora explica que o processo de comunicação para alertar que a variante foi confirmada precisa ser muito rápida.

“Ao identificarmos, nós imediatamente conferimos o sequenciamento, revisamos com calma, pegamos a ficha do paciente e já comunicamos ao Ministério da Saúde e ao Laboratório Central de Saúde Pública do estado de origem da pessoa. Comunicamos na hora", esclarece a pesquisadora da Fiocruz.

Feito todo o protocolo nacional de comunicação, a Secretaria Municipal de Saúde da cidade onde o caso é identificado inicia a busca pelo paciente. Assim que ele é encontrado, passa por uma entrevista para saber com quem teve contato da família, amigos e pessoas aleatórias, inclusive sobre os locais que frequentou nas últimas semanas. 

“Tudo que o paciente com a variante Delta teve contato é apurado para que tenhamos maior entendimento da dispersão do vírus. Se não fizermos isso, demoramos mais tempo para entender o quadro real”, destaca a pesquisadora da Rede Genômica da Fiocruz.                    

Além da comunicação célere e da identificação de quais pessoas podem ter sido contaminadas, quando um caso positivo de nova variante é verificado, há reuniões semanais entre o Ministério da Saúde, a instituição responsável pelo sequenciamento genético, os Laboratórios Centrais de Saúde Pública / LACEN e as secretarias Estadual e Municipal de Saúde de origem do paciente positivado. 

“Estamos com a circulação de uma variante altamente transmissível. Se ela se espalhar rápido, maior será o número de infectados e por consequência, podemos ter novas altas de hospitalização. A entrada da Delta no país motiva ainda mais esse encontro para debater o que fazer”, destaca Marilda Siqueira, virologista do Instituto Oswaldo Cruz. 

Em nota, o Ministério da Saúde explicou como o processo de identificação e comunicação da variante. A pasta confirmou que são realizadas amostragens dos resultados positivos de RT-PCR aptos para envio de sequenciamento genômico, pelos Laboratórios Centrais de Saúde Pública (LACEN'S) dos estados.

“Os resultados sequenciados são notificados imediatamente aos CIEVS locais e nacionais para que possam ser investigados e as medidas de prevenção e controle possam ser adotadas”, informa trecho da nota.

O Ministério reforça que tem orientado estados e municípios sobre todas as ações necessárias, como intensificar o sequenciamento genômico das amostras positivas para a Covid-19 e a vigilância laboratorial, rastreamento de contatos, isolamento de casos suspeitos e confirmados, notificação imediata e medidas de prevenção em áreas de suspeita de circulação de variantes. 

A Secretaria Estadual de Saúde do Rio de Janeiro, local onde está concentrado o maior número de casos de variante Delta, explicou que as amostras são coletadas em Unidades de Saúde que solicitam o sequenciamento devido à característica do caso, ou selecionadas de forma aleatória para realizar a vigilância genômica no estado, e enviadas para os laboratórios de referência. 

Assim que o laboratório envia os resultados (via e-mail) para SES, ela realiza a comunicação para os municípios de residência do paciente e para o Ministério da Saúde, através do Centro de Informações Estratégicas e Resposta em Vigilância em Saúde (CIEVS) Nacional.

As secretarias municipais de Saúde notificadas fazem a investigação epidemiológica, com apoio da SES, rastreando e testando pessoas que tiveram contato com os casos notificados.

Como acontece a vigilância genômica?

Os laboratórios centrais de saúde pública de cada estado decidem quais amostras serão enviadas para sequenciamento. Está escolha é baseada em critérios pré-definidos pelo Ministério da Saúde, LACENs, FIOCRUZ e IEC.

Segundo a Fiocruz, eles escolhem amostras clínicas que chamam a atenção pela alta quantidade de vírus, o que aumenta a chance de o procedimento ser bem-sucedido.

O número de amostras também precisa representar a situação da pandemia naquela semana, com casos não graves, graves e de mortes e de pessoas com faixas etárias variadas. 

O sequenciamento é fundamental para identificar quais variantes estão circulando pelo país e quais políticas públicas devem ser adotadas no combate ao avanço da pandemia.

Como a variante Delta foi importada, o exemplo vivido por outros países pode ajudar o Brasil a balizar o que esperar da nova cepa, especialmente em relação à agressividade e transmissibilidade. 

“Estamos esperando os resultados internacionais do impacto clínico dessa variante. Eles devem sair antes dos nossos, até porque a variante Delta já está presente lá fora há mais tempo do que no Brasil”, apontou Marilda Siqueira.

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