Por que não sabemos o que aconteceu em uma quase colisão no espaço


Jackie Wattles, da CNN
17 de outubro de 2020 às 16:08
Planeta Terra

Golfo do México visto do espaço

Foto: Nasa/Unplash

Especialistas em tráfego espacial rastrearam dois pedaços de lixo orbital que pareciam estar se aproximando um do outro na noite de quinta-feira (15): um satélite soviético desativado e um foguete auxiliar chinês descartado. No fim, os dois objetos não se colidiram por muito pouco, de acordo com a empresa privada de rastreamento espacial LeoLabs.

Com seus próprios radares baseados em terra para rastrear objetos espaciais, a LeoLabs afirmou que as chances de colisão eram de 10% ou mais. É uma probabilidade alta, mas não incomum, afirmou o CEO da empresa, Daniel Ceperley, à CNN.

Leia também:
Supermercado britânico envia nugget de frango ao espaço
O espaço está ficando lotado, diz CEO da Rocket Lab, uma startup de foguetes

Mas as Forças Armadas dos EUA, que usam dados da maior rede mundial de radares e telescópios, disseram que sua equipe de controle de tráfego espacial detectou uma “probabilidade de colisão de quase zero por cento”.

Em resposta, Ceperley do LeoLabs disse em um comunicado na manhã de sexta-feira (16): “Obviamente, temos um grande respeito pelo 18º Esquadrão de Controle Espacial [das Forças Armadas dos EUA] e suas estimativas. Ninguém está contestando que esses objetos chegaram perto um do outro”.

Enquanto isso, Moriba Jah, especialista em astrodinâmica da Universidade do Texas em Austin, que há muito tenta conscientizar o público sobre a abundância de lixo na órbita da Terra sob risco constante de colisão, disse que o evento era apenas a última prova de que o mundo precisa de um esforço colaborativo internacional para rastrear o tráfego espacial.

Seus dados, um amálgama de todas as informações de tráfego espacial em tempo real disponíveis publicamente, mostra dezenas de colisões potenciais acontecendo a qualquer momento. Jah sugeriu que o satélite soviético e o foguete auxiliar descartado deveriam chegar a 72 metros um do outro. No entanto, ele não podia dizer com certeza se uma colisão era mesmo “provável”.

Objetos no espaço são rastreados com telescópios e radares operados por governos e empresas privadas. Mas todas essas organizações hesitam em compartilhar seus dados umas com as outras.

Portanto, quando há uma chance de que dois objetos no espaço possam colidir, os especialistas têm extrema dificuldade em descobrir exatamente o tamanho do risco. A LeoLabs não compartilha seus dados publicamente.

Segundo o CEO, a empresa decidiu aumentar a conscientização pública sobre esse evento específico porque os dois objetos são grandes e estão em uma área da órbita que ainda é relativamente limpa em comparação com as órbitas próximas. A empresa também está tentando aumentar a conscientização geral sobre o problema dos detritos, disse ele, para incentivar o setor privado a desenvolver meios de limpá-los.

“Várias vezes por semana, vemos satélites mortos chegando a 100 metros um do outro, movendo-se a velocidades tremendas”, relatou Ceperley.

O que aconteceu na quinta-feira (15)

O satélite soviético, lançado ao espaço em 1989 e usado para navegação, pesa cerca de 900 quilos e tem 16 metros de comprimento, de acordo com Jonathan McDowell, astrônomo do Harvard-Smithsonian Center for Astrophysics. O foguete, parte de um veículo de lançamento chinês provavelmente lançado em 2009, tem cerca de 6 metros de comprimento. Nenhum dos dois objetos está em uso.

Se o foguete e o satélite colidissem, teria sido a primeira vez em mais de uma década que dois objetos se chocariam espontaneamente no espaço, uma situação que os especialistas em tráfego espacial esperam desesperadamente evitar.

A última colisão, em 2009, envolveu um satélite militar russo desativado e um satélite de comunicações ativo operado pela empresa norte-americana de telecomunicações Iridium. Esse evento produziu uma enorme nuvem de destroços, a maioria deles muito pequenos para ser rastreados do solo. Esses destroços ainda estão em órbita, representando uma ameaça constante para os satélites próximos.

Já existem centenas de milhares (possivelmente milhões) de objetos girando em órbita sem controle, incluindo minúsculos pedaços de destroços, impulsionadores de foguetes usados, satélites mortos e detritos de demonstrações de mísseis militares anti-satélite – um lixo espacial fortemente concentrado em órbitas próximas da superfície da Terra.

Embora não represente um grande risco para os humanos no solo, esses objetos descartados ameaçam os satélites ativos que fornecem uma série de serviços importantes, incluindo rastreamento e estudos do clima da Terra e fornecimento de serviços de telecomunicações.

Os destroços também ameaçam a Estação Espacial Internacional, onde equipes de astronautas vivem desde 2000, e que teve que ajustar sua própria órbita três vezes este ano devido a detritos espaciais.

O astrônomo McDowell explicou no Twitter que uma nova colisão seria “muito ruim”. O choque do satélite soviético e o foguete impulsionador chinês poderia ter levado a um aumento de 10% a 20% na quantidade de destroços no espaço, e cada novo fragmento aumenta as chances de que mais colisões continuem acontecendo.

A colisão poderia até mesmo desencadear uma reação em cadeia desastrosa, deixando o espaço repleto de um campo impenetrável de lixo que impediria o lançamento de novos foguetes para a exploração do espaço.

Parte do problema é que o espaço sideral permanece amplamente não regulamentado. O último tratado internacional amplamente aceito para orientar o uso do espaço permanece sem atualização nas últimas cinco décadas, obrigando a indústria espacial a se autorregular.

O aumento da popularidade das megaconstelações de satélites (cujo maior exemplo é a constelação Starlink que a SpaceX de Elon Musk está construindo) gerou uma nova onda de discussão sobre os riscos de congestionamento em órbita. O CEO do Rocket Lab, Peter Beck, disse à CNN no mês passado que o crescente congestionamento no espaço está dificultando o caminho para os foguetes de sua empresa que levam novos satélites para o espaço.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês)