Objetos feitos pelo homem podem superar o peso de todas as coisas vivas na Terra

Estudo conduzido por cientistas israelenses calculou o peso de materiais manufaturados; estudo foi publicado na revista científica Nature

Drew Kann, da CNN
10 de dezembro de 2020 às 15:41
Vista aérea da cidade de Nova York
Foto: Free-Photos/Pixabay

De estradas e edifícios a carros e plástico, a civilização humana se construiu sobre muitas coisas.

Mas aproximadamente quantas coisas nós realmente criamos? E, no processo, quanto do mundo natural consumimos ou destruímos?

Uma nova análise descobre que, em ambos os casos, é muita coisa. Tanto, na verdade, que esses materiais podem agora pesar mais que todos os seres vivos da Terra.

O ano de 2020 pode ser aquele em que a massa produzida pelo homem ultrapassar o peso total da biomassa – estimada em cerca de 1.100.000.000.000 de toneladas, ou 1,1 teratons – um marco que, segundo os cientistas, mostra o enorme impacto que os humanos tiveram no planeta.

A análise foi publicada na quarta-feira (9) na revista científica “Nature”, e foi conduzido por um grupo de pesquisadores do Instituto de Ciência Weizmann de Israel.

Para fazer seus cálculos, os pesquisadores dividiram objetos de fabricação humana em seis categorias principais: concreto, agregados (incluindo materiais como cascalho), tijolos, asfalto, metais e “outros” materiais, que inclui plástico, madeira usada para construção, papel e vidro.

Essa massa é agora esmagadoramente dominada por concreto, agregados, tijolos e asfalto, que hoje são a base para edifícios modernos, estradas e outras infraestruturas.

Visão noturna de trânsito área urbana
Foto: Csliaw/Pixabay

De acordo com o estudo, os pesquisadores não consideraram o desperdício ao fazer seus cálculos, embora, se fosse incluído, provavelmente teria inclinado a balança a favor de materiais feitos pelo homem já em 2013.

Olhando para a biomassa, os autores descobriram que as plantas representam a esmagadora maioria dos seres vivos (aproximadamente 90%) seguidos por bactérias, fungos, arqueias unicelulares, protistas e animais. Isso também inclui os próprios humanos, bem como plantações e animais criados para alimentação.

Leia e assista também:

Indústria da moda pode retomar patamar pré-pandemia só em 2023, diz estudo

'Tubarão perdido' pode ter sido extinto, diz organização que monitora espécies

O estudo descobriu que os humanos mudaram o planeta com uma velocidade impressionante.

Desde que a primeira revolução agrícola começou há cerca de 12 mil anos, os humanos reduziram a biomassa global quase pela metade, de dois teratons para cerca de 1,1 teratons hoje.

Embora uma quantidade cada vez maior de terras do planeta esteja sendo usada para o cultivo, sua massa total é diminuída por perdas em outras partes da biosfera, onde o desmatamento e outras mudanças no uso da terra impulsionadas por humanos reduziram drasticamente a massa vegetal. O estudo concluiu que a caça, a pesca predatória e a pecuária também afetaram a biomassa geral.

Canteiro de obras
Foto: Joffi/Pixabay

Embora a massa dos organismos tenha continuado a encolher nos últimos 120 anos, os humanos aumentaram dramaticamente a produção de materiais. A geração de materiais se tornou o principal motor da mudança no equilíbrio entre o que foi feito pelo homem e a natureza.

No início do século 20, os objetos produzidos pelo homem equivaliam a apenas 3% da biomassa global.

Mas o crescimento explosivo continuou quase inabalável desde a Segunda Guerra Mundial. Hoje, os autores estimam que a massa de fabricação humana está sendo produzida a uma taxa de cerca de 30 milhões de toneladas (30 gigatoneladas) por ano.

Isso significa que, em média, materiais que superam o peso corporal de todas as pessoas no planeta são produzidos a cada semana.

Se este ritmo continuar, a massa produzida pelo homem, incluindo os resíduos, deverá exceder 3 teratons até 2040, triplicando o peso de todos os seres vivos.

Dados os desafios de contabilizar esses enormes estoques globais de massa e biomassa de origem humana (e como ambos são definidos), os autores reconhecem que há incerteza sobre exatamente quando chegaremos ao ponto de cruzamento.

É possível que o ponto de transição já tenha ocorrido na década passada e, se não, ocorrerá nos próximos 20 anos, diz o estudo.

Poluição em área urbana
Foto: Marcinjozwiak/Pixabay

Além disso, embora os cientistas digam que a descoberta é simbólica, o marco histórico dá à humanidade uma chance de fazer um balanço de como chegamos aqui - e como será o futuro.

“O estudo fornece uma caracterização quantitativa simbólica e baseada em massa do Antropoceno, a era geológica da ‘era da humanidade’”, disseram dois dos autores do estudo, Emily Elhacham e Ron Milo. “Dadas as evidências empíricas sobre a massa acumulada de artefatos humanos, não podemos mais negar nosso papel central no mundo natural. Já temos um papel importante e com isso vem uma responsabilidade compartilhada”.

Fridolin Krausmann, professor da Universidade de Recursos Naturais e Ciências da Vida em Viena que estuda as interações entre a natureza e a sociedade, mas não esteve envolvido neste estudo, disse que as descobertas dos pesquisadores mostram como a sociedade se tornou grande em comparação com o mundo natural.

Embora o professor diga que as descobertas não foram particularmente surpreendentes, ele espera que elas enviem uma mensagem forte às pessoas e tragam mais atenção para como as sociedades modernas podem crescer de forma sustentável.

“São duas tendências altamente problemáticas, que o estudo relaciona aqui, que são importantes: a comparativamente lenta, mas de longo prazo, redução contínua induzida pelo homem do estoque global de biomassa e o crescimento exponencial da massa antropogênica (produzida pelo homem)”, disse Krausmann. “Um melhor conhecimento sobre a dinâmica e os padrões da massa antropogênica e como ela está ligada à prestação de serviços e fluxos de recursos é fundamental para o desenvolvimento sustentável. A grande questão é de quanta massa antropogênica precisamos para uma boa vida”.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).