Chifre de ‘unicórnio do mar’ tem função sexual, diz estudo da USP

O tamanho da estrutura pode sinalizar aos competidores “sou maior do que você” ou as fêmeas podem preferir narvais com os chifres maiores

Washington Luiz, colaboração para a CNN
23 de fevereiro de 2021 às 15:50 | Atualizado 23 de fevereiro de 2021 às 15:52
 ‘unicórnio do mar’
Foto: Carsten Egevang, Greenland Institute of Natural Resources

A função do chifre dos narvais, uma espécie de baleia que vive na parte fria do Ártico intriga a comunidade científica há muitos anos. Essa dúvida, no entanto, parece estar perto de terminar.

Pesquisadores do Instituto de Biociências (IB) da USP, da Universidade do Estado do Arizona e no Greenland Institute of Natural Resources encontraram evidências de que a estrutura pode ter função sexual e servir para os machos atraírem fêmeas ou ser utilizado durante a disputa por parceiros.

Embora chamado de chifre, essa parte do corpo dos “unicórnios dos mares” é um dente que cresce de maneira exagerada pelo lado superior do animal.

Na pesquisa, a comparação de dados sobre os narvais machos mostrou que o dente cresce desproporcionalmente em relação ao corpo, ou seja, à medida que os animais aumentam de tamanho, o dente também aumenta.

Eles também cresceram mais em comparação com outras estruturas, como a cauda, que é usada para sobrevivência.

Segundo o biólogo e pós-doutor em Ecologia pela USP, Alexandre Palaoro, esses são indicativos de que o “chifre” foi selecionado sexualmente, porque há um investimento maior de energia para que ele cresça.

A constatação, porém, não foi considerada uma prova suficiente e os pesquisadores resolveram analisar a variação do tamanho do dente entre machos.

 ‘unicórnio do mar’
Foto: Zack Graham, Universidade do Estado do Arizona

De acordo com Paolo, essa variação é algo previsto na teoria para estruturas selecionadas sexualmente, pois assim os machos demonstram que são maiores. “Para um determinado tamanho de corpo nós vimos que essa estrutura variava muito. Em vez de todos os indivíduos crescerem uma mesma unidade do dente, alguns cresciam muito mais e outros menos”, explica.

Outra descoberta que pode significar que os narvais usam o dente durante a reprodução são as propriedades materiais. Além de ser muito grande, a estrutura não é tão rígida.

“Se for aplicada uma força reta no dente ele quebra muito fácil. E se o narval bater com ele, reto, em outro narval, quebrará muito facilmente. Isso, por exemplo, são evidências de que os navais não usam os dentes para brigar”, detalha Paolo.

Com essas evidências, os cientistas demonstraram que o chifre do “unicórnio dos mares” pode estar sendo usado para a reprodução. Provavelmente, durante competições entre machos ou durante a seleção das fêmeas.

O tamanho da estrutura pode sinalizar aos competidores “sou maior do que você” ou as fêmeas podem preferir narvais com os chifres maiores.

Base de dados

Os narvais são difíceis de serem observados na natureza, pois passam muito tempo em mergulhos profundos. Para chegar às conclusões, os pesquisadores utilizaram uma base de dados com informações sobre o tamanho do animal, do dente, da cauda e o sexo.

O banco, gerado por meio da coleta de dados ao longo de mais de 30 anos, foi fornecido pelos pesquisadores da Groenlândia, que também participaram do estudo.

“Distinguir entre essas funções, sem filmagens dos animais, é difícil. Porém, informações sobre cicatrizes na cabeça dos machos grandes e o comportamento de tusking, quando os animais sobem até a superfície para encostar os dentes, sugerem que ele é usado durante brigas.

Por isso, com esse trabalho publicado na Biology Letters, uma revista científica da Royal Society, fornecemos as evidências mais fortes, até o momento, de que o unicórnio dos mares usa seu chifre para se reproduzir — e muito provavelmente para espantar competidores”, afirma Paolo.