Objeto interestelar 'Oumuamua' pode ser fragmento de planeta semelhante a Plutão

Apesar de parecer um cometa, pesquisadores ainda têm dúvidas sobre o objeto; estudo publicado nesta semana promete por fim ao mistério

Por Ashley Strickland, da CNN
17 de março de 2021 às 22:45 | Atualizado 17 de março de 2021 às 22:49
Asteróide Oumuamua
Asteróide Oumuamua
Foto: Divulgação/Nasa

O primeiro objeto interestelar observado passou pelo nosso sistema solar em outubro de 2017. Desde então, astrônomos tentam entendê-lo. Agora, pesquisas mais recentes sugerem que ele é um fragmento de um planeta parecido com Plutão, mas de outro sistema solar.

Há quase quatro anos, o visitante interestelar, que foi chamado de 'Oumuamua pela equipe que o descobriu, movia-se a 315 mil quilômetros por hora e levou os cientistas a se esforçarem para observá-lo antes que ele desaparecesse. As observações, no entanto, causaram mais perguntas do que respostas. 

Os novos estudos que tentam identificar o objeto foram conduzidos por Steven Desch e Alan Jackson, dois astrofísicos da Escola de Exploração da Terra e do Espaço da Universidade do Estado do Arizona, que analisaram as características incomuns de 'Oumuamua. As descobertas foram publicadas na terça-feira no American Geophysical Union Journal of Geophysical Research: Planets.

'Oumuamua é uma palavra havaiana que significa algo como "um mensageiro que vem de um passado distante". No início, os astrônomos esperavam que ele fosse um cometa.

Isso porque os cometas podem ser expelidos do sistema hospedeiro por meio de distúrbios gravitacionais e também são muito visíveis. O segundo objeto interestelar descoberto em nosso sistema solar foi um cometa interestelar, 2I / Borisov, observado em 2019.

Mas o objeto em forma de charuto alongado, seco, rochoso e avermelhado, grosso como um prédio de três andares e com metade do comprimento de um quarteirão, não tinha cauda de cometa, e seu movimento cambaleante não podia ser explicado. A partir disso, surgiu um debate sobre se ele era um asteroide interestelar ou um cometa.

E, é claro, havia especulações de que 'Oumuamua era um tipo de sonda alienígena.

"Em muitos aspectos, 'Oumuamua se assemelhava a um cometa, mas era peculiar o suficiente de várias maneiras que um mistério cercava sua natureza, e a especulação corria desenfreada sobre o que era", disse Desch, que também é professor da ASU, em um comunicado.

Efeito foguete

'Oumuamua se diferenciava dos cometas de várias maneiras, incluindo o fato de ter uma velocidade mais baixa ao entrar em nosso sistema solar. Se tivesse viajado pelo espaço interestelar por mais de um bilhão de anos como um cometa, teria tido uma velocidade mais alta.

Sua forma era achatada como uma panqueca, ao contrário dos cometas que são como bolas de neve cósmicas. O objeto também recebeu um impulso considerável, conhecido como "efeito foguete", maior do que o que os cometas experimentam quando seus gelos evaporam ao encontrar o sol.

Os pesquisadores se perguntaram se 'Oumuamua era feito de gelos com composições diferentes, o que lhes permitiu calcular a rapidez com que os gelos se transformariam em gás quando o objeto passava pelo sol. Isso também possibilitou que Desch e Jackson determinassem a massa, a forma e o efeito do foguete e avaliassem o quão refletivos os gelos eram.

"Percebemos que um pedaço de gelo seria muito mais reflexivo do que estavam supondo, o que significava que poderia ser menor. O mesmo efeito de foguete daria a 'Oumuamua um impulso maior, maior do que os cometas normalmente experimentam", disse Desch.

Pesquisas anteriores sugeriram que a água condensada ajudou a impulsionar o objeto. Em seu estudo, Desch e Jackson descobriram que o nitrogênio sólido combinava melhor com o movimento de 'Oumuamua. O objeto também era brilhante, com a mesma refletividade de outros corpos conhecidos feitos de gelo de nitrogênio.

Em nosso sistema solar, Plutão e a lua de Saturno, Titã, são principalmente cobertos por gelo de nitrogênio. Se o objeto for amplamente composto de gelo de nitrogênio, é possível que um pedaço sólido dele tenha sido desalojado de um planeta semelhante a Plutão depois de ser impactado em outro sistema planetário.

A mesma ocorrência aconteceu em nosso próprio sistema solar, incluindo Plutão e objetos no cinturão de Kuiper gelado. Este distante cinturão de objetos na borda de nosso sistema solar já teve mais massa do que agora.

Quando Netuno migrou para o sistema solar externo há bilhões de anos, ele interrompeu as órbitas desses objetos que eram sobras da formação do sistema solar. Milhares de objetos semelhantes a Plutão, cobertos de gelo de nitrogênio, colidiram uns com os outros.

Se isso pode ter ocorrido em nosso próprio sistema solar, é altamente provável que o mesmo evento tenha acontecido em outro sistema solar, o que significa "’Oumuamua pode ser a primeira amostra de um exoplaneta nascido em torno de outra estrela, trazido para a Terra", escreveram os autores em o estudo.

"Ele provavelmente foi arrancado da superfície por um impacto de cerca de meio bilhão de anos atrás e expulso de seu sistema original", disse Jackson, também pesquisador e pesquisador da ASU, em um comunicado.

"Ser feito de nitrogênio congelado também explica a forma incomum de 'Oumuamua. À medida que as camadas externas de gelo de nitrogênio evaporavam, a forma do corpo teria se tornado progressivamente mais achatada, assim como uma barra de sabão faz quando as camadas externas são removidas através do uso. "

Os pesquisadores estimaram que o encontro de 'Oumuamua com nosso sol fez com que ele perdesse 95% de sua massa.

Especulação alienígena

Teorias de que 'Oumuamua é um objeto alienígena ou peça de tecnologia circularam desde que o objeto apareceu, e é a base para o novo livro "Extraterrestre: O Primeiro Sinal de Vida Inteligente Além da Terra", de Avi Loeb, professor de ciências da Universidade de Harvard.

Não há nenhuma evidência para provar que 'Oumuamua é uma tecnologia alienígena, disseram os pesquisadores no estudo, embora seja natural que o primeiro objeto observado de fora de nosso sistema solar traga alienígenas à mente.

"Mas é importante na ciência não tirar conclusões precipitadas", disse Desch. "Demorou dois ou três anos para descobrir uma explicação natural - um pedaço de gelo de nitrogênio - que corresponda a tudo o que sabemos sobre 'Oumuamua. Isso não é muito tempo na ciência, e muito cedo para dizer que esgotamos todas as explicações naturais."

No entanto, 'Oumuamua tem sido uma forma única de os cientistas estudarem um objeto de fora de nosso sistema solar. Entender mais sobre 'Oumuamua, que desapareceu de vista em dezembro de 2017, pode lançar mais luz sobre a formação e composição de outros sistemas planetários.

"Até agora, não tínhamos como saber se outros sistemas solares tinham planetas semelhantes a Plutão, mas agora vimos um pedaço de um passar pela Terra", disse Desch.

Futuros telescópios, como o Observatório Vera Rubin no Chile, farão um levantamento regular de todo o céu visível do hemisfério sul, aumentando nossa capacidade de detectar mais objetos interestelares que entram em nosso sistema solar. O observatório entarará em operação a partir de 2022.

"Espera-se que em uma década mais ou menos possamos adquirir estatísticas sobre os tipos de objetos que passam pelo sistema solar e se pedaços de nitrogênio são raros ou tão comuns quanto calculamos", disse Jackson. "De qualquer maneira, devemos aprender muito sobre outros sistemas solares e se eles passaram pelo mesmo tipo de história de colisão que o nosso."

(Texto traduzido, leia o original em inglês)