Assistente relembra carreira de sonho ao lado de Anthony Bourdain

Laurie Woolever contou detalhes da produção do programa que se tornou sucesso em todo o planeta; CNN Brasil vai exibir os episódios

Da CNN
20 de agosto de 2020 às 05:00 | Atualizado 20 de agosto de 2020 às 07:47
Laurie Woolever e Anthony Bourdain no Hipódromo Aqueduct em Queens
Foto: Zero Point Zero Production

A CNN Brasil vai exibir "Anthony Bourdain", um dos programas de gastronomia e viagem de maior prestígio já produzidos na televisão mundial, a partir das próximas semanas.

"Anthony Bourdain” é uma produção original da CNN americana e entrará na grade de programação do canal brasileiro em breve. Na versão da CNN Brasil, a apresentação será do chef e apresentador André Mifano.

No texto abaixo, a assistente Laurie Woolever relembrou sua carreira de sonho ao lado de Bordain, que morreu em junho de 2018 na França. 

Há quase dez anos, tive um bebê. Poucos meses depois, insatisfeita com meu trabalho de edição em tempo integral e desanimada por ter que colocar meu recém-nascido na creche durante 50 horas por semana, comecei a procurar oportunidades de trabalho de meio período e frilas. Sem pensar muito, enviei um e-mail com uma breve súplica, meu currículo e uma foto do meu bebê de pernas rechonchudas, sorridente e desdentado, para Tony Bourdain, com quem eu havia trabalhado no livro “Anthony Bourdain: Afinal, as receitas do Les Halles” vários anos antes.

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Dado seu status de autor de best-sellers, palestrante disputado e personalidade da televisão que viaja pelo mundo, não esperava resposta. Mas, na verdade, ele respondeu imediatamente. Sua assistente estava de saída; será que estaria interessada em substituí-la? Embora não fosse exatamente o tipo de trabalho que estava procurando, por sorte negociei com meu ego e aceitei o trabalho.

Eu estava planejando não fazer acontecer, desafiando o conselho de carreira de Sheryl Sandberg para mulheres [a executiva do Facebook, autora do livro “Faça Acontecer”]. Mas, de alguma forma, ao aceitar um emprego de meio período que Tony descreveu como “manter minha agenda e fazer reservas ocasionais em restaurantes”, descobri que estava fazendo acontecer uma espécie de carreira de sonho sem querer, uma combinação de tarefas administrativas, escrita e edição, cozinha e viagens, possibilitadas por sua lendária generosidade e sua igualmente lendária irritabilidade.

 A autora diz que Bourdain "era um chefe muito bom".
 Foto: David Scott Holloway/ CNN

Sobre o mau humor: mesmo que Tony tenha compartilhado muito sobre sua vida no papel e nas telas, ele era uma pessoa reservada. Ele gostava de dizer que não queria nem precisava de ninguém o perseguindo com um telefone e uma escova de cabelo; portanto, eu não era esse tipo de assistente e provavelmente não poderia ser mesmo.

Não tínhamos um escritório. Nossa comunicação era em grande parte por e-mail ou mensagem de texto e, naqueles primeiros anos, nos víamos tão raramente que eu tive de me apresentar mais de uma vez para ele nas raras festas ou exibições a que ambos comparecemos.

Era um trabalho ideal. Passei muito tempo com meu filho, mantive o calendário de Tony organizado e busquei outras oportunidades de escrever, com sua bênção e muitas vezes com sua ajuda, uma expressão tácita de sua generosidade mencionada.

Um bom chefe ajuda seus funcionários a crescer, e Tony era um chefe muito bom. Comecei a me expandir para uma função editorial, primeiro editando alguns dos títulos de seu selo editorial e acabei sendo coautora de “Appetites: A Cookbook” (“Apetites: um livro de receitas”, sem tradução no Brasil), publicado em 2016 (veja aqui em inglês).

Ao me convidar como observadora nas filmagens longínquas do programa “Parts Unknown” em lugares como Vietnã, Japão, Sri Lanka e Hong Kong, Tony me ajudou a iniciar uma carreira secundária como autora de textos de viagens, ao mesmo tempo que me deu um gostinho das emoções e desafios de uma vida vivida em aeroportos, hotéis e vans de produção, além de scooters, balsas e multidões ao redor de barracas de comida, experimentando alguns dos melhores sabores de tudo o que estava em oferta no mundo.

Como eu vivo e gosto do bairro de Queens, em Nova York, e gosto de assistir às corridas de cavalos, Tony e eu filmamos juntos uma cena de turfe divertida e enriquecida com cerveja em uma tarde de domingo nas arquibancadas do Hipódromo Aqueduct, para o Episódio do Queens de "Parts Unknown”.

 

E quando mencionei casualmente que um parceiro e eu estávamos desenvolvendo um podcast focado em comida, “Carbface for Radio”, ele se ofereceu para ser o produtor executivo e apareceu em um segmento de aconselhamento de cada um dos nossos primeiros oito episódios, sem ganhar nada, apenas porque achou divertido.

É bom dizer que nesse ponto eu não precisava mais me apresentar a Tony nas festas.

É importante notar, também, que eu não fui a única pessoa criativamente ambiciosa que se beneficiou da generosidade de Tony. Ele costumava expressar publicamente um sentimento de admiração por sua própria sorte e ficava feliz em usar suas influências e conexões fortes na indústria para ajudar outras pessoas a obter o reconhecimento e as oportunidades que ele achava que mereciam. 

Antes de Tony morrer, começamos a escrever um segundo livro, baseado em suas quase duas décadas de viagens pelo mundo. Tem sido uma luta violenta e tortuosa voltar àquele manuscrito, enquanto lamento a enorme perda de sua existência gentil, profana, surpreendente e brilhante. Fui levada e motivada pelo trabalho que meus colegas fizeram para manifestar uma bela – embora comovente – temporada final de "Parts Unknown”, sem a escrita ilustrativa e as contribuições de pós-produção de Tony. Ele tinha 44 anos quando o livro “Cozinha Confidencial: Uma aventura nas entranhas da culinária” foi publicado, com o sucesso libertando-o do árduo trabalho em cozinhas de restaurantes e colocando-o no papel de escritor e apresentador de TV.

Tenho 44 anos agora, também, e meu mentor e meu trabalho sumiram sem aviso prévio; fui liberada pela morte prematura de Tony para a vida de escritora em tempo integral. É uma perspectiva totalmente assustadora, encarar esse caminho incerto sem sua orientação, mas ele me preparou para o sucesso, e devo a ele essa tentativa. 

*Laurie Woolever é uma escritora que mora em Nova York e coapresenta o podcast “Carbface for Radio”

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original e para ler o original em inglês)