Eu era a ‘censora’ de Anthony Bourdain na CNN

Marianna Spicer Joslyn da CNN
25 de agosto de 2020 às 05:00
Bourdain se senta para almoçar com pessoas do povo hauçá em Lagos, Nigéria, em 2017. “As pessoas se abrem com ele e, com isso, muitas vezes revelam mais sobre suas cidades ou terras natais do que um repórter tradicional poderia esperar documentar”, d
Foto: ZPZ para CNN

Eu era a “censora” de Anthony Bourdain na CNN. Não, na verdade não temos "censores" na CNN – o que temos são padrões e práticas. Mas fui a sortuda, em nosso departamento, encarregada de revisar o programa “Parts Unknown” quanto à linguagem ou imagens explícitas gravadas e a tendências políticas ou ajustes históricos.

Eu nunca conheci Bourdain, nem mesmo falei com ele. Eu não precisei. Ele, sim, falou comigo, e com todos os outros, por meio de seu trabalho.

Como ex-documentarista, apreciei especialmente a beleza de seus programas e o talento de sua equipe. Fiquei maravilhada com a fotografia, a direção, a edição e, claro, a redação.

Como muitos observaram, Bourdain tinha uma voz muito distinta. Como redatora do programa de jornalismo e variedades “60 Minutes”, fiz roteiros preliminares para nomes como Mike Wallace, Ed Bradley e Diane Sawyer.

Tentei ouvir suas vozes em minha cabeça enquanto escrevia as falas iniciais. Não acho que poderia ter feito isso com Anthony Bourdain. Sua voz era muito pessoal. Muito visceral. Eu não sabia como ele se sentia sobre o que estava experimentando. Só ele poderia nos dizer.

Tony – e penso nele assim, em vez de por seu nome formal – falou francamente. Escritores como ele não escrevem para impressionar, não tentam escrever poesia e nem pensam no impacto que suas palavras terão.

Eles escrevem para compartilhar suas experiências enquanto as vivenciam – não como um diário de viagem, mas sim tentando colocar outras pessoas na viagem com eles. Podem nos dizer o que veem, ouvem, cheiram e saboreiam, de uma forma que é orgânica.

Para alguém acostumada a decidir quais padrões de notícias deveriam ser aplicados em nossa rede, tentar encontrar um "limite” para “Parts Unknown” foi uma jornada em si. 

É bem sabido que Tony era profano. Isso era algo novo para a CNN e nós o contratamos com o seu pacote de irreverência completo.

Mas embora a CNN seja um canal de notícias a cabo, também é uma marca. É a rede de notícias mais amplamente respeitada do mundo, dizem nossos telespectadores, e realmente não queremos palavrões saindo da boca de nossos âncoras.

Mas contratamos Tony para ser Tony. Dilema. Então, alguém surgiu com o arbitrário “duas merd*s por programa” (ou seja, a palavra “shit”, em inglês, poderia aparecer duas vezes apenas).

O palavrão que começa com “f” foi proibido e silenciado, embora, é claro, desse para saber o que estava sendo dito. Tony brincou sobre a regra das “duas merd*s” – em um programa de TV exibido tarde da noite – e disse que estava negociando três para a próxima temporada.

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Devo dizer que acabei desistindo das “merd*s”. Mas esses não eram o maior problema.

Tony adorava falar sobre genitais. Principalmente os dele. “Tome cuidado depois de comer alimentos picantes, lavando as mãos antes de se aliviar” era sua favorita.

Vários insetos e répteis subindo em suas calças e colocando 'as joias' em perigo era outra. Em seguida, houve o programa onde as pessoas estavam pulando em lagos e tendo que passar o resto do dia com “bolas úmidas”.

Sempre que a oportunidade se apresentava, Tony se certificava de que você sabia como as funções de seu corpo eram afetadas.

Em uma viagem aos Alpes franceses com seu bom amigo e colega chef Eric Ripert, os dois comeram grandes quantidades de fondue de queijo e Tony avisou Eric que ele teria evacuações grandes e semelhantes a concreto.

Aprendi que “merd*” e “merd*s” eram diferentes. E quem sabia?

Em um dos últimos episódios, sobre o Lower East Side de Nova York, não prestei atenção às “merd*s” proferidas por Tony e seus vários convidados. As múltiplas palavras com “f”, ditas igualmente por Tony e seus companheiros de jantar, seriam silenciadas.

Mas, neste episódio, os convidados de Tony eram – e isso é difícil de acreditar – mais bocas-sujas que ele. Eles contaram histórias da cidade de Nova York dos anos 60 e da enérgica cena artística e musical.

Uma companheira de almoço, a cantora e performer Lydia Lunch, falou abertamente sobre o que foi necessário para fazer sucesso nos anos 60 – trabalhou duramente com as mãos por baixo de mesas de restaurante para levar sua banda para a Europa.

E olha que essa foi uma de suas declarações mais suaves. E os millennials ainda acham que inventaram o potencial de causar um choque. Vamos apenas dizer que “colocar tudo para fora” não era uma metáfora.

Joe Cummings levou Bourdain para fazer uma tatuagem sagrada de sak yan.
Foto: Joe Cummings

Os produtores da Zero Point Zero e eu tivemos muitas discussões sobre o abate de animais. Desde então, li o que Tony escreveu sobre isso e gostaria de ter lido antes.

Ele disse oficialmente que, depois de matar seu primeiro porco com uma lança, o que ele se sentiu obrigado a fazer, o fato de ter ordenado a execução de muitíssimos animais como chef significava que não era hipócrita – estava apenas mostrando de onde vem nossa comida.

Novamente, um canal fechado não é necessariamente um canal de notícias fechado. Eu adoro animais e vivo em negação sobre continuar comendo carne, pois não suporto a ideia, muito menos a visão, de matar animais.

Não achei que nosso público estivesse pronto para o nível de realidade de Tony. Desafiei seu produtor executivo com a pergunta: “Será que Tony gostaria de trazer uma vaca para que os convidados de um jantar vissem antes o massacre do animal?” A gente se expôs, mas com cautela.

Claro, Tony era muito, muito engraçado. Tivemos que buscar um meio termo em muitas áreas, especialmente na política.

Em um episódio, ele descreveu uma comida particularmente nojenta de algum lugar da África como sendo tão boa que até a “comeria servida na cueca de Chris Christie em um dia quente de verão”.

Além do fato de que, na época, Christie era o governador de New Jersey e possível candidato à presidência, havia informação demais ali – havia “piada de gordo”. Tive a feliz alternativa de deixar essas decisões para alguém um nível acima do meu, que seguiu a regra de “deixe o Tony ser Tony”.

Tony parecia amar todas as coisas chocantes, o que não era realmente uma surpresa dada sua jornada pessoal – afinal, o que era realmente chocante para ele?

Em um episódio em Tóquio, ele se divertiu ao seguir um casal que lhe “ensinou” bondage (uma prática sadomasoquista). Houve muitas cenas prolongadas de “diversão com cordas” que irritaram meus chefes, mas Tony adorou.

Minhas responsabilidades incluíam examinar vários cortes de cada programa – corte bruto, corte fino, bloqueio de imagem.

Na verdade, eu precisava olhar todos os cortes, porque estava convencida de que Tony (ou talvez seus produtores?) adorava jogar o jogo de “o que mais posso introduzir aqui que o departamento de padrões não enxergue no segundo corte?”

Os borrões precisavam ser verificados várias vezes. Algo novo? Acho que estava apenas paranoica. Talvez.

Um dos meus desafios favoritos nos últimos cinco anos foi um episódio em Chicago em que Tony visitou um bar cujo dono era um pintor amador, cujas telas retratavam principalmente ícones políticos.

Uma dessas pinturas era da então candidata a vice-presidente Sarah Palin, nua, segurando uma espingarda, com um peru sendo destrinchado atrás dela. Uh. Não.

Por favor, cubra as partes íntimas dela. Pensei até que o programa poderia se chamar “Private Parts Unknown” [um trocadilho com o nome do programa, referindo-se tanto a partes desconhecidas como a partes íntimas].

Como seus espectadores, me apaixonei por Tony. Ele foi um escritor e contador de histórias brilhante, e você sentia tanto sua dureza como sua vulnerabilidade.

Sua equipe no ZPZ são os cineastas mais talentosos que já vi em muito, muito tempo. Seus programas eram brilhantemente filmados, dirigidos e editados, sempre. Seu texto era poesia pura, por mais que seus amigos digam que ele negava ser poeta.

Nem posso começar a dizer o quanto agradeço e sinto falta da minha pequena parte neste programa. E da minha pequena conexão com um dos contadores de histórias mais brilhantes de nossa geração. Sinto falta de sua voz. 

Não tenho a pretensão de ter ficado mais abalada com a morte de Tony do que qualquer um de seus fãs, e não estou na mesma liga daqueles que o conheceram e trabalharam com ele. Mas, como aqueles que o conheciam bem, fiquei furiosa com sua perda e profundamente triste. Gente como ele não aparece no nosso caminho duas vezes.

NOTA DO EDITOR: Marianna Spicer Joslyn é diretora executiva de Padrões e Práticas de Notícias da CNN. Antes de seus 24 anos de carreira na CNN, ela foi produtora executiva de “Face the Nation”, da CBS News, produtora de “This Week With David Brinkley”, “World News Saturday and Sunday” e "The Health Show", todos na ABC News, e produtora associada e redatora do “60 Minutes” e “CBS Reports”, ambos na CBS. As opiniões expressas neste comentário são exclusivamente da responsabilidade da autora. Leia mais artigos de opinião na CNN.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).