‘Nem tudo é bonito aqui’: turismo de Charleston aborda escravidão e racismo

Cidade na Carolina do Sul, nos EUA, é mencionada em vários guias como um dos melhores destinos de viagem

Dartinia Hall, da CNN
31 de agosto de 2020 às 15:44
Igreja no centro de Charleston, na Carolina do Sul
Foto: Reprodução/Charleston Official Guide

Charleston, no estado da Carolina do Sul (EUA), é regularmente mencionada como uma das melhores cidades do mundo para se visitar.

Sobram motivos: a beleza natural do Lowcountry e o musgo espanhol cobrindo as árvores; seu charme, sofisticação e as casas em cor de doce voltadas para a brisa do mar; as praias e os pratos ricos repletos de camarão recém-pescado e o purê de milho típico da região, conhecido como grits.

Outros pontos a serem considerados ao reservar uma viagem para o local: visitas a casarões e extensas fazendas, com sua glória pré-Guerra Civil preservada até no papel de parede, móveis e lustres. Dá para imaginar, talvez, o impetuoso Rhett Butler e os passeios de carruagem, tardes lentas na varanda, os jantares elegantes.

Talvez. Se você for branco.

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Apesar da beleza da cidade, essa imagem não é uma versão completa da história.

Atrás das mansões no centro da cidade ou das fazendas – conhecidas como plantations – costumam ficar outras propriedades menores, feitas de pedra ou madeira, utilitárias, sem varandas, móveis elegantes, escadarias imponentes ou homens sorridentes em ternos elegantes.

São as senzalas.

Charleston, assim como o resto do sul dos EUA, cresceu e prosperou devido ao trabalho não pago de homens e mulheres africanos que foram sequestrados, espancados, estuprados e escravizados. As plantações que produziam arroz, algodão e açúcar, ou que processavam anil, prosperaram a um custo humano extremo.

Já as casas da cidade e seus proprietários brancos eram cuidados por homens e mulheres escravos.

Charleston, apelidada de Holy City (Cidade Sagrada), é extremamente popular. A próspera indústria do turismo local gerou US$ 8 bilhões em 2018, e cresceu cerca de US$ 26 milhões anualmente nos últimos cinco anos.

Nos Estados Unidos, e particularmente nos estados que compunham a Confederação (ou estados confederados), muitas vezes é impossível separar a beleza das franjas da história.

Mas essa história é dolorosa para aqueles que são negros e que, em muitos casos, são descendentes de mulheres e homens escravizados.

A pergunta é: será que o turismo e a verdadeira história de Charleston podem coexistir com a recente atenção ao movimento Black Lives Matter e o atual despertar global para o tema?

O racismo acompanha um ideal romântico

Quando meu marido e eu morávamos em Charleston, ficávamos maravilhados com o pôr do sol sobre o Battery à beira-mar, examinávamos as ruas laterais e testávamos o máximo possível de restaurantes isolados. De fato, não perdemos peso nem ficamos entediados enquanto morávamos lá.

No entanto, às vezes ficávamos chocados com os convites sinceros para visitar as plantations para churrascos com ostras grelhadas, casamentos ou festivais.

Ouvimos guias turísticos do centro da cidade encobrirem detalhes relacionados à escravidão e os escravos: onde eles esvaziavam as latrinas, onde eram vendidos (não no centro da cidade, já que a compra e venda de humanos não era permitida nessa área).

Várias vezes me pararam e perguntaram com alegria onde ficava o mercado de escravos, geralmente quando eu andava bem em frente do prédio das Daughters of Confederacy (Filhas da Confederação).

Eu sempre me perguntei se alguém via a ironia em pedir a uma mulher negra para visitar uma plantation, e ainda por cima para algum festejo. Comecei a me perguntar se alguém pensava profundamente nas palavras que usava ou nos lugares em que estávamos.

As visitas às fazendas não aconteceram. Eu recusei todos os convites. Questionamos as informações dos guias turísticos. O City Market não era onde os escravos eram vendidos, e o espaço real, chamado barracoon, nos dá arrepios.

Agora, sou uma turista, e uma turista não branca, e viajar para esta bela cidade – que amei, ainda amo – nem sempre é um passeio pelo meu antigo lar.

Cada passo pode fazer com que, às vezes, eu e outras pessoas negras ou não brancas sejam levadas de forma profunda para injustiças antigas e racismo e insensibilidade atuais que correm paralelamente ao ideal romântico que outros visitantes podem ver.

Quando nos mudamos pela primeira vez para a cidade, na década de 1990, uma visita ao City Market poderia facilmente revelar tanto uma joia exclusiva como um conjunto de saleiros e pimenteiros decorados com rostos negros pintados.

Um passo loja adentro para comprar uma camiseta podia levar a uma discussão com um balconista que estava ao lado de uma vitrine cheia de lembrancinhas dos Confederados.

Certa vez, trabalhei em uma loja no centro da cidade, e a proprietária, enquanto explicava os parâmetros do trabalho, me acompanhou até o canto de uma sala dos fundos: era o canto confederado, repleto de pinturas de cenas de batalha, soldados e a bandeira dos Estados Confederados da América (conhecida como Stars and Bars).

Ela explicou timidamente que não gostava de vender esses produtos, mas que uma pintura vendida pagaria contas e folha de pagamento por dois meses. Ela não esperava que eu promovesse esses itens.

Uma curva para a Calhoun Street pode levar uma pessoa à Igreja Emanuel AME, onde nove membros – todos negros – foram assassinados em 2015 por um supremacista branco que amava a bandeira confederada.

Do outro lado da rua da igreja, carinhosamente conhecida como Mother Emanuel, fica o Marion Park. Até recentemente, era aqui que ficava uma estátua do vice-presidente John C. Calhoun, um proprietário de escravos e defensor ferrenho da escravidão nas plantations antes da guerra.

A Guerra Civil que começou aqui tratou de fato dos direitos dos estados – os direitos dos estados de continuar usando trabalho escravo para os ganhos dos brancos.

Foram os cadetes da Citadel (cidadela) de Charleston que deram os primeiros tiros da guerra. A bandeira confederada ainda tremula no campus, apesar dos esforços dos ex-alunos atuais para removê-la.

Pessoas oferecem flores em primeira missa após massacre em igreja de Charleston, na Carolina do Sul
Foto: Reuters

‘Nem tudo é bonito aqui’

Doug Warner, vice-presidente de Desenvolvimento de Mídia e Inovação do Explore Charleston, reconhece a verdade mais profunda de sua cidade esteticamente linda.

Mas ele diz que o árduo trabalho de enfrentamento do racismo já começou em Charleston – antes de 2020, da Covid-19, dos protestos e do ressurgente movimento Black Lives Matter – em especial para o setor do turismo.

Simplesmente não havia como continuar com o status quo após os assassinatos de igreja Mother Emanuel. O racismo teve de ser totalmente reconhecido e abordado, de dentro, da

mesma forma como foi em todo o país em 2020, e esse cálculo teve que vir do escritório que promove o turismo na cidade.

“Nem tudo é bonito aqui”, diz Warner. “Nós, como comunidade, começamos antes principalmente por causa da tragédia da [igreja] Mother Emanuel.

Esse evento abalou nossa comunidade profundamente. E, por causa dos membros da família e sua graça e capacidade de perdoar, todos pararam e pensaram ‘podemos fazer melhor com Charleston e com nosso passado chocante’.”

“Este tem que ser um lugar para levar o país adiante”.

Warner admite que há muito a ser feito. Após o massacre, o setor de relações públicas e turismo viu a necessidade de fazer sua própria lição de casa, e também o trabalho nos níveis intermunicipal e intersetorial. O setor precisou voltar a lente de aumento sobre si mesmo.

Para começar, o que a indústria estava fazendo para erradicar os estereótipos raciais e elevar não apenas a diversidade no setor de hospitalidade, mas também para ter certeza de que a verdade dos residentes de Charleston era evidente e visível em todos os espaços possíveis? O turismo seguia com uma norma estereotipada ou progredia?

Não bastava ter negros e brancos entre os funcionários de um hotel; na maioria das vezes, a equipe da frente da casa era branca, atuando em áreas administrativas e de atendimento, enquanto a equipe negra atuava em funções mais servis. Os empregados negros eram

cozinheiros, e não chefs de cozinha. Governantas em vez de membros da equipe de marketing.

O período anterior à guerra acabou e é inaceitável, e o setor precisava ter certeza de que refletia essa verdade.

Amor pela hospitalidade

Para esse fim, o setor do turismo de Charleston desenvolveu o “Heart for Hospitality”, um esforço de divulgação e negócios que incentiva as empresas de hospitalidade a desenvolver e promover oportunidades mais equitativas para todos os funcionários.

Pessoas que trabalharam na área de hospitalidade nos fundos de casa – tradicionalmente empregos em serviços prestados por pessoas negras ou não brancas – mudaram para posições mais visíveis e profissionalmente proeminentes, o que Warner diz ser um começo.

O programa incentiva o estabelecimento de metas para os funcionários e treina os proprietários para criar oportunidades que permitam o avanço equitativo dentro de uma empresa, especialmente para refletir a composição racial da cidade.

Para Warner, é simplesmente correto começar a corrigir gerações de erros. Se não fosse pelas contribuições de africanos escravizados e seus descendentes, a beleza e o sucesso de Charleston não teriam existido.

“Nossa comida sulista veio da África. A cultura do arroz, da África. Você não pode separar nossa arte, nossa arquitetura, nossa cena culinária, sem contar essa história. E você não pode fazer isso sem representação e honestidade”.

‘Racismo é a pandemia global’

No entanto, o turismo deve encontrar fatos em outros espaços, e isso vai muito além de remover bandeiras e estátuas. Ao conversar com negros que amam a cidade e cujo sustento também vem do turismo, a conversa encontra um caminho diferente.

O artista Jonathan Green – cujas pinturas coloridas refletem a cultura Gullah (comum entre os africanos levados para o sul dos EUA) tão perfeitamente que você pode ouvir a música do idioma – concorda com as ideias de Warner. A história de Charleston não pode ser contada sem dar a devida atenção aos ganhos obtidos pelo sequestro de um continente. Ele dá alguns passos adiante.

“Charleston é a Ellis Island dos negros”, afirma, referindo-se à ilha onde fica a Estátua da Liberdade e que foi a porta de entrada para milhões de imigrantes. “Charleston foi a cidade mais rica do país durante 100 anos, com base na engenhosidade da África Ocidental. E o racismo não depende de um lugar ou cidade.

“Mas em quase todos os lugares que vou, duas coisas acontecem: não há um exemplo da contribuição total dos negros para o lugar, e o outro é que não há compreensão ou valorização real da cultura africana na cidade. Charleston é o epicentro da mudança, de como vamos neutralizar e lidar com essa questão global. O racismo é a pandemia global”.

Green, que mora em Charleston, diz que a educação é fundamental.

“Quando vejo crianças caminhando e fazendo passeios turísticos, converso com elas. Mostro o que os livros didáticos não lhes dizem”.

“Sinto que é preciso reformular o sistema educacional. Tudo isso. A história e a cultura precisam ser mais indicativas da história e da população, e você deve falar sobre a história da perspectiva das pessoas em diferentes momentos. Não podemos fazer isso sozinhos em Charleston”, explica Green.

“É preciso ter um entendimento e uma correção nacional e internacional. Mas Charleston certamente pode liderar o caminho”.

Duas igrejas unem forças

Alphonso Brown, dono da agência de turismo receptivp Gullah Geechee Tours desde 1985, também incentiva a educação para crianças e adultos. Ele frequenta a Igreja Mount Zion AME, que é predominantemente negra e fica na esquina da Igreja Episcopal Grace, que é predominantemente branca.

As duas igrejas têm um clube do livro que está lendo “Como Ser Antirracista”, de Ibram X. Kendi. O empresário conta que se sente encorajado pelas duras discussões entre os membros do grupo. Para ele, as pessoas querem saber a verdade.

É assim que ele conduz seus passeios, que, segundo o próprio, mostram uma tendência interessante: a maioria dos participantes de seus passeios são brancos, o que lhe sugere um aumento de consciência.

“Na cidade, temos a opção de formular nosso próprio roteiro, história e diálogo. Entre 70% a 80% dos negócios da minha empresa são feitos com brancos”, relata. Isso sugere a ele uma percepção crescente de que existem histórias não contadas e que essas histórias ajudaram a moldar os eventos de hoje.

Tal como acontece com o artista Green, o empresário Brown está pensando no futuro de maneiras que não necessariamente envolvam estátuas. Ele riu quando mencionei a justaposição da estátua de Calhoun à Mother Emanuel, algo que notei ao participar do Food + Wine Festival de Charleston, em 2019.

“Você percebeu isso, né? A maioria das pessoas não”.

O dono da agência de turismo acredita numa educação mais forte e completa para as crianças e no enfrentamento do racismo por meio da economia: em práticas justas de empréstimo para residências e empresas, mais conhecimento entre os proprietários de terras sobre o valor da propriedade e mais consciência sobre o processo de gentrificação (um termo que ele não gosta).

Brown se lembra de quando não havia segregação de moradias e quando famílias negras viviam em antigas casas de escravos no centro da cidade, mas tiveram que se mudar porque os imóveis se tornaram um grande negócio e os impostos tornaram-se inacessíveis.

E ele quer que os negros aprendam mais. “Você não pode lutar bem quando desconhece a sua luta”, opina.

Ele e Green concordam: ajustar com as contas com o passado é uma coisa. Construir um futuro verdadeiro e justo é outra.

‘É importante dizer: vidas negras importam’

Warner, do escritório de turismo da cidade, fica pensativo ao falar sobre o impacto do movimento Black Lives Matter.

“Nós [do turismo] só devemos falar sobre coisas divertidas, certo? Um dia, um repórter perguntou se tínhamos preparado uma declaração oficial sobre o Black Lives Matter. Ocorreu-me que dizer as palavras claramente importava. Somos uma organização que coloca ideias em ação. Às vezes é importante pronunciar as palavras: vidas negras importam. Charleston não existiria de outra forma”.

Warner menciona o International African American Museum, com inauguração prevista para 2022. É como uma nova linha do tempo que começa entre o horrível massacre em 2015 e o início de um lugar que se compromete a contar a história completa de Charleston e sua herança afro-americana.

É um espaço para todos de Charleston. “O museu é uma nova linha de largada. Não é um pedido de desculpas por nada. É uma declaração”.

Houve outras declarações. No começo de junho deste ano, o Food + Wine Festival de Charleston – que em 2019 gerou mais de US$ 18 milhões em receita durante mais de cinco dias e foi realizado na Marion Square, sob a estátua de Calhoun – fez um pedido público para a remoção da estátua, especialmente à luz da violência racial contínua, dos protestos e da atenção mundial nos Estados Unidos.

As autoridades municipais concordaram. Pouco depois, o festival declarou seu compromisso de se tornar uma “organização ativamente antirracista, que é um verdadeiro reflexo da comunidade gastronômica e de hospitalidade de Charleston”.

Parte desse compromisso inclui a expansão para 20% da diversidade de vozes da comunidade no conselho – atualmente, ele conta com uma mulher afro-americana. Também abarca uma análise dos locais e um esforço contínuo dos anos anteriores para ampliar os talentos que participam do festival.

Locais que podem ter encoberto a dor do passado também progrediram. Ainda assim, os esforços podem correr lado a lado com o que pode ser desencadeante, ou, pelo menos, doloroso e entristecedor, para as pessoas de cor.

“Temos uma vida inteira de trabalho a fazer”, diz Warner.

Progresso irregular

Magnolia Plantations oferece um tour popular chamado 'Da escravidão à liberdade'; propriedade também recebe eventos e casamentos
Foto: Reprodução/Charleston Official Guide

A Drayton Hall, uma das mais antigas plantations que ainda existem no sul, incentiva ativamente os visitantes a prestar homenagens no cemitério afro-americano no local.

O passeio chamado “Da Escravidão à Liberdade” dentro da propriedade é mais popular do que aquela pela casa da fazenda. Ele começou batizado como “The Magnolia Cabin Project”, um esforço para preservar as casas dos escravos, e consistentemente reconheceu e abordou as dificuldades e a crueldade que desafiaram as famílias afro-americanas desde os tempos anteriores à guerra até a era dos direitos civis do século XX.

Magnolia ainda serve como local de casamento. Embora tenha promovido serviços de casamento no início deste ano nas redes sociais, Drayton Hall não hospeda um casamento de fato há quase 10 anos, de acordo com Carter Hudgins, seu presidente e CEO.

Isso aconteceu graças em parte a reação que levou sites como Pinterest e The Knot a parar de promover conteúdo de casamento que romantiza as antigas fazendas com escravos.

Progresso e história podem coexistir como inimigos ou como amigos.

O debate em torno da bandeira e das estátuas confederadas permanece, embora Warner diga que entrar em uma loja e dar de cara com a exibição de uma bandeira confederada é menos provável de acontecer em 2020 do que há 20 anos, ou mesmo há uma década - e particularmente desde a chacina na igreja Mother Emanuel.

No entanto, a falta de vontade de continuar desviando o olhar e fazendo ouvidos moucos criou raízes.

“Com nossa história", diz Warner, “qualquer coisa menor que isso é inaceitável”.

Dartinia Hull é baseada na Carolina do Norte e morou em Charleston na década de 1990. Seus textos podem ser encontrados em The Bitter Southerner, Noteworthy: The Blog Journal, MUTHA Magazine e Age of Awareness.

(Texto traduzido, leia o original em inglês)