'Monstro do Mar Cáspio' ressuscita dos mortos


Miquel Ros, da CNN
29 de outubro de 2020 às 19:42
O ekranoplano classe-Lun

O ekranoplano classe-Lun

Foto: Fred Schaerli/Wikicommons (10.set.2010)

Encalhado na costa oeste do Mar Cáspio, ele parece uma gigante criatura aquática – uma criação bizarra que fica mais à vontade nas profundezas do mar do que na superfície. Com certeza ele não parece nem de longe com algo que pode voar.

Mas voava – mesmo que muito tempo atrás.

Depois de permanecer adormecido por mais de três décadas, o Monstro do Mar Cáspio está em movimento novamente. Uma das mais chamativas das máquinas voadoras já construídas, ele agora completa o que pode ser sua última jornada.

Em julho deste ano, após 14 horas no mar, uma frota de três rebocadores e dois navios de escolta manobrou lentamente ao longo da costa do Mar Cáspio para entregar essa carga volumosa a seu destino, um trecho da costa perto do ponto mais ao sul da Rússia.

É lá, próximo à antiga cidade de Derbent, na república russa do Daguestão, que o “Lun-class Ekranoplan” de 380 toneladas encontrou seu novo e possível lar permanente.

Último de sua geração a navegar nas águas do Mar Cáspio, o Lun foi abandonado após o colapso da União Soviética na década de 1990, e condenado a enferrujar na base naval de Kaspiysk, a cerca de 100 quilômetros da costa de Derbent.

No entanto, antes que pudesse cair no esquecimento, ele foi resgatado graças aos planos de torná-lo uma atração turística, no momento em que esse conceito de viagem incomum pode estar pronto para voltar à cena.

Leia também:

Voo mais longo do mundo está de volta – e ficou ainda maior

Por que esta aeronave da era espacial pode mudar a aviação civil para sempre

Veloz e oculto

Esse é o único foguete ekranoplano do mundo

Esse é o único foguete ekranoplano do mundo

Foto: Denis Abramov/Sputnik/AP

Os veículos de efeito solo, também conhecidos como "ekranoplans", são uma espécie de híbrido entre um avião e um navio. Eles se movem sobre a água sem na verdade tocá-la.

A Organização Marítima Internacional os classifica como navios, mas sua capacidade única de alta velocidade se deve ao fato de planarem sobre a superfície da água a uma altura entre um e cinco metros.

Eles tiram proveito de um princípio aerodinâmico chamado “efeito solo”. Essa combinação de velocidade e discrição (sua proximidade com a superfície enquanto voa torna difícil a detecção por um radar) chamou a atenção dos militares soviéticos, que fizeram experimentos com diversas variantes do conceito durante a Guerra Fria.

Por causa de sua aparência e do local de seu lançamento, feito no mar interior e fechado localizado entre a União Soviética e o Irã, o veículo ganhou o apelido de "Monstro do Mar Cáspio".

 

O Lun foi um dos últimos projetos desenvolvidos pelo programa soviético de veículos de efeito solo. Mais longo que um superjumbo Airbus A380 e quase tão alto, mesmo com seu tamanho e peso ele era capaz de atingir velocidades de até 550 quilômetros por hora, graças a oito motores a jato localizados em suas pesadas asas.

Essa máquina formidável foi capaz de decolar e pousar mesmo durante tempestades, com ondas de até dois metros e meio. Sua missão era realizar ataques-relâmpago, já que era armado com seis mísseis navais e seis lançadores angulares posicionados sobre a fuselagem.

Convidado especial

Turbinas do ekranoplano

Turbinas do ekranoplano

Foto: Denis Abramov/Sputnik/AP


O ekranoplan que foi transferido para Derbent é o único de sua classe já concluído, e entrou em serviço em 1987.

Um segundo Lun, desarmado e designado para missões de resgate e abastecimento, estava em um estado avançado de conclusão quando, no

início da década de 1990, todo o programa foi cancelado, e o Lun existente foi retirado de serviço.

Após mais de 30 anos parado, colocar essa fera marinha de volta em movimento não foi tarefa fácil, exigindo a ajuda de pontões de borracha e uma coreografia cuidadosa envolvendo diversos navios.

O Lun será a estrela do Parque Patriótico de Derbent, um museu militar e parque temático que exibirá diversos equipamentos militares soviéticos e russos. A previsão é que a construção do parque comece ainda em 2020. Por enquanto, o Lun vai ficar sozinho na praia.

Com sua forma incomum, ele provavelmente será um novo ponto turístico para os visitantes de Derbent. A cidade afirma ser o mais antigo assentamento continuamente habitado em território russo. Sua cidadela e o centro histórico foram classificados Patrimônio Mundial da Unesco.

Próxima onda

Companhia de Cingapura WidgetWorks espera criar nova versão do ekranoplano

Companhia de Cingapura WidgetWorks espera criar nova versão do ekranoplano

Foto: Divulgação/WidgetWorks

O Lun se soma às atrações de uma região que, até a pandemia do coronavírus, tinha recebido uma série de iniciativas de abertura para o turismo, incluindo o lançamento de roteiros de cruzeiros no Mar Cáspio.

Quando abrir, o Parque Patriótico de Derbent não será o único museu russo a exibir um ekranoplan. Um ekranoplan muito menor da classe Orlyonok pode ser visto no Museu da Marinha Russa em Moscou.

Embora os veículos de efeito solo tenham sido esquecidos nas últimas décadas, o conceito vem ressurgindo recentemente.

Engenheiros em Cingapura, nos Estados Unidos, na China e Rússia estão trabalhando em diferentes projetos que visam trazer os ekranoplans de volta à vida, mas com propósitos mais pacíficos.

Uma dessas iniciaitivas é da Wigetworks, com sede em Cingapura, cujo protótipo, o AirFish 8, se baseia em trabalhos realizados pelos engenheiros alemães Hanno Fischer e Alexander Lippisch durante a Guerra Fria.

A Wigetworks adquiriu as patentes e os direitos de propriedade intelectual e começou a tentar melhorar e atualizar os projetos preliminares para criar um veículo moderno de efeito solo.

Ainda na Ásia, o ekranoplan chinês Xiangzhou 1 voou pela primeira vez em 2017, embora pouco se saiba sobre esse projeto.

Drones de entrega

A Flying Ship Company está desenvolvendo um veículo não-tripulado

A Flying Ship Company está desenvolvendo um veículo não-tripulado

Foto: Divulgação/Flying Ship Company

Nos Estados Unidos, a Flying Ship Company, uma startup financiada por investidores privados, está trabalhando em um veículo de efeito solo não tripulado para transportar cargas em alta velocidade. Imagine drones de entrega não tripulados, mas sobre a água.

O projeto está nos estágios iniciais, mas o fundador e CEO Bill Peterson disse à CNN que sua equipe pretende concretizar o projeto em um prazo de sete anos.

E a Rússia, mãe do ekranoplan, não desistiu do conceito.

Diversos projetos foram divulgados no país nos últimos anos, embora nenhum tenha conseguido passar da fase de design.

A Beriev, uma fabricante de aeronaves anfíbias movidas a jato, criou o veículo-conceito Be-2500. Mais recentemente, foi divulgado pela mídia russa que um ekranoplan militar de nova geração, provisoriamente chamado de "Orlan", estava sendo cogitado.

Um outro projeto de iniciativa privada surgiu em Nizhny Novgorod, uma cidade industrial às margens do rio Volga, intimamente ligada às origens da tecnologia do ekranoplan. A RDC Aqualines, que também tem escritórios em Cingapura, está desenvolvendo sua própria linha de ekranoplans comerciais capazes de transportar três, oito e 12 passageiros, e talvez possa expandir essa capacidade.

Os projetos da RDC chamaram a atenção de um grupo de empresários que quer implantar uma conexão rápida pelo Golfo da Finlândia, ligando Helsinque à capital da Estônia, Tallinn, em cerca de 30 minutos.

No fim das contas, pode ser que em breve não precisemos visitar um museu para conhecer um ekranoplan.

(Texto traduzido, leia o original em inglês)