Berlin Tegel: o adeus ao aeroporto imortal


Marcel Krueger, da CNN
09 de novembro de 2020 às 16:40 | Atualizado 09 de novembro de 2020 às 16:41
Aeroporto Berlin-Tegel era o principal da capital alemã

Aeroporto Berlin-Tegel era o principal da capital alemã

Foto: Kai Schreiweis (Torek)/Wikicommons (3.out.2004)

Embora a recente inauguração do aeroporto de Brandenburg em Berlim, adiada há tempos, tenha feito muitos na cidade respirarem aliviados, o momento também marca o triste fim de uma era.

Enquanto Brandenburg entrava em operação, o Aeroporto Tegel de Berlim (uma relíquia muito amada do século passado) fechou para sempre no domingo (8).

Na verdade, Tegel deveria ter sido desativado anos atrás. Estava congestionado, exaurido e desatualizado. No entanto, a década de atrasos em Brandenburg o manteve vivo como um substituto e, apesar de todos os seus defeitos, ele tinha muitos admiradores.

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Mesmo os esforços para fechar permanentemente o aeroporto no início deste ano devido à pandemia do coronavírus falharam. Tegel conseguiu escapar da morte uma última vez.

Apesar de seu tamanho relativamente pequeno, ele foi o quarto aeroporto mais movimentado da Alemanha e simbolizava Berlim como poucos outros edifícios públicos.

Os aeroportos de Berlim nunca foram apenas meios de transporte, nem terminais sem rosto no meio de um campo plano. Essas instalações refletem perfeitamente a história turbulenta da cidade nos séculos 20 e 21.

O mais famoso, o Tempelhof, foi inaugurado em 1927 e selou seu lugar na história da aviação durante a ponte aérea de Berlim de 1948-49, quando a cidade foi bloqueada pela União Soviética. Hoje fechado, ele foi transformado em um parque e set de filmagem para filmes da Segunda Guerra Mundial.

O outro aeroporto principal da cidade, Schönefeld, foi inaugurado em 1946 como o principal campo de aviação da Alemanha Oriental e manteve um pouco da atmosfera soviética muito além da reunificação do país.

De todos eles, porém, é Tegel que ocupa um lugar especial no coração de muitos berlinenses.

Ordens de Stalin

Como tantas outras coisas na cidade, o Aeroporto de Tegel foi uma medida paliativa que de alguma forma se tornou permanente.

Após a Segunda Guerra Mundial, quando Berlim Ocidental ainda estava nas mãos das forças aliadas, havia planos de transformar a área em lotes, mas o líder soviético Josef Stalin tinha planos diferentes.

Como o bloqueio que ordenado por Stalin a partir de junho de 1948, descobriu-se rapidamente que havia a necessidade de um campo de aviação adicional para trazer suprimentos. Foi então que as autoridades francesas responsáveis pelo distrito de Tegel ordenaram a construção de uma pista de 2.500 metros de comprimento, a mais longa da Europa na época.

O primeiro avião em Tegel, um USAF Douglas C-54, pousou em novembro de 1948. Depois que o bloqueio terminou seis meses depois, Tegel tornou-se a base berlinense da Força Aérea Francesa.

No final dos anos 1950, com o aumento do tráfego aéreo e a chegada em Berlim Ocidental de aviões cada vez maiores, as pistas de Tempelhof estavam se revelando curtas demais, de modo que nas duas décadas seguintes Tegel se tornou o aeroporto principal. 

O status especial da cidade durante a Guerra Fria significava que apenas os Aliados podiam operar aeronaves militares e civis de e para Tegel. Todos os passageiros tinham que usar o pequeno edifício do terminal pré-fabricado original do aeroporto.

Apesar dessas condições e restrições apertadas, para alguns o aeroporto era realmente uma porta de entrada para a liberdade.

Foi o caso de Drahomira Bukowiecki, que fugiu da Tchecoslováquia comunista em 1968 para Berlim Ocidental e foi condenada a 10 anos de trabalhos forçados à revelia. Para ela, o aeroporto tornou-se o único meio de escapar de uma cidade cercada pelo comunismo.

“Eu só poderia sair por Tegel, pois seria presa se tentasse cruzar a RDA (Alemanha Oriental) por terra”, disse Bukowiecki à CNN Travel. “Foi assim que Tegel se tornou minha porta de entrada para o mundo, também porque eu peguei um avião pela primeira vez na minha vida daqui”.

Glamour hexagonal

O aeroporto continuou a impressionar os berlinenses, especialmente após a inauguração de um novo edifício terminal, ligeiramente brutalista e hexagonal, em 1974.

O projeto impressionante encurtou as distâncias a pé para 30 metros da aeronave até a saída do terminal.

“Para mim e muitos outros berlinenses ocidentais, Tegel realmente era um lugar à parte”, acrescenta Bukowiecki. “Ele simbolizava o glamoroso mundo das viagens aéreas com suas lojas que vendiam coisas maravilhosas. Todo o processo de voar que era muito diferente nos anos 1970”, continua.

“Mesmo após a reunificação, com as viagens aéreas se tornando amplamente disponíveis, essa visão não mudou. Schönefeld está realmente muito longe do centro da cidade. Portanto, para mim e para minha geração, Tegel é o verdadeiro aeroporto de Berlim, uma parte de nós e o único lugar que nos permitiu voar para a liberdade!”, conta a mulher.

Nos anos seguintes, as coisas realmente decolaram para Tegel.

Em 10 de setembro de 1975, a Pan Am e a British Airways transferiram toda a operação noturna em Berlim para Tegel.

A jornalista aposentada Jutta Hertlein se lembra da empolgação de seus vizinhos quando o novo terminal iniciou suas operações. “De manhã, meu vizinho me perguntou se eu tinha ouvido todos os aviões voando baixo sobre a casa a noite toda: eles estavam mudando de Tempelhof para Tegel”, contou. "Mas eu estava tão imersa em meu trabalho que não ouvi nada."

Hertlein também lembra que Tegel ocupou um lugar significativo no cenário político de Berlim e da Alemanha, para o bem ou para o mal.

“Eu costumava usá-lo para viajar a trabalho, mas na mesma época, nos anos 80, o aeroporto já era usado para a deportação de requerentes de asilo.

“Havia um grande protesto planejado em uma dessas ocasiões, e eu fui me juntar aos manifestantes em Tegel de manhã, mas como eu estava usando meu traje normal de trabalho, os policiais que isolaram a área tentaram me guiar até o aeroporto pois não me parecia nem um pouco com uma manifestante. Só que eu queria mostrar que não eram só jovens punks e esquerdistas protestando contra as deportações”.

Confusão e caos

Com a reunificação alemã em 1990 e a mudança do governo de Bonn para Berlim, todas as restrições ao tráfego aéreo de Berlim foram suspensas e Tegel se tornou o aeroporto oficial do governo alemão.

Esse papel significou que o avião oficial da presidência dos EUA, o Air Force One, pousou aqui com mais frequência do que em qualquer outro aeroporto da Alemanha.

A reunificação também significou que o número de passageiros e voos aumentaram exponencialmente à medida que as viagens aéreas se tornaram cada vez mais comuns.

Tegel foi projetado para lidar com 2,5 milhões de passageiros por ano, mas 24 milhões de pessoas voaram daqui em 2019. Com um novo terceiro terminal adicionado em 2007, Tegel tornou-se cada vez mais apertado, com operações e instalações claramente desatualizadas.

Para piorar, Tegal também não tinha conexão direta por transporte público. Os viajantes que usavam o sistema de metrô U-Bahn de Berlim tinham de trocar para um ônibus na Kurt-Schumacher-Platz. Até mesmo Schönefeld tinha melhores conexões ferroviárias.

“A arquitetura e o design exclusivos de Tegel fazem você se sentir como se estivesse em uma época diferente, nos anos 1970", diz o viajante frequente Michael Stoffl, de Berlim. “O aeroporto é minúsculo, principalmente se comparado a outras grandes capitais do mundo.

Ele pode ter sido considerado moderno e apropriado quando foi inaugurado, mas, especialmente na última década, os passageiros

experimentaram suas desvantagens, como muitas vezes se sentindo apertados e em meio ao caos. Falta espaço mesmo nele”, detalhou.

“Era preciso checar se a gente está na fila certa nos balcões de check-in, pois muitas vezes era confuso para onde cada um levava. Muitos frequentadores de Tegel elogiam sua proximidade com o centro da cidade, o que permite chegar mais rápido na cidade, exceto, nesse caso, se se usa o transporte público. Pessoalmente, não vou sentir falta de Tegel, exceto talvez por um aspecto nostálgico”, conta Stoffl.

Por causa de seu projeto que facilita o acesso por carros, Tegel conquistou vários fãs, especialmente no setor hoteleiro de Berlim.

Tilman Hierath é o sócio-gerente do Circus Hotel na Rosenthaler Platz, além de piloto amador, e adora usar o aeroporto.

“Tegel é com certeza o melhor aeroporto do mundo”, elogia. “E não digo isso apenas porque estou perdidamente apaixonado por sua feiura dos anos 70. Este projeto pode não ser eficiente para operar, mas é o sonho do viajante por causa dos tempos de espera curtos e distâncias menores. Quando os motoristas de táxi entraram em greve há alguns anos, aluguei uma van e levei nossos hóspedes do hotel ao aeroporto”.

“Em Tegel isso não significa uma viagem longa. Em vez disso, pudemos deixar nossos hóspedes diretamente no portão. É o único aeroporto importante que conheço onde você pode ver o balcão de check-in no meio-fio e o avião no balcão de check-in”.

Charme surrado

Hierath se lembra de um incidente específico envolvendo um convidado com muita pressa.

“Ele precisava estar em uma reunião muito importante em nosso hotel e pegar seu voo naquela tarde. Daí, nossa recepção ligou para Tegel e seguraram o portão aberto para nosso hóspede.

É esse toque pessoal que fez toda a diferença. O Tegel não foi projetado para intimidar e impressionar, ele foi projetado para estar a serviço do viajante”,

Tegel sempre pareceu um portão de entrada apropriado para Berlim.

Não é um aeroporto com um design elegante, repleto de assentos de massagem e telas inteligentes. Em vez disso, assim como a cidade a que serve, tem um charme meio surrado e acolhedor.

Seu caráter transparece nas partes peculiares do aeroporto, não relacionadas às operações de voo.

No final da pista está um velho Boeing 707, originalmente operado pela El Al, que foi alvo de uma tentativa de sequestro por terroristas palestinos em 1970.

Foi decorado com as marcas vintage da Lufthansa e oferecido à companhia aérea pela Boeing como um presente em 1986. Como nenhum piloto ou porta-aviões alemão estava autorizado a voar até Tegel na época, o avião foi coberto com adesivos brancos e entregue por uma tripulação norte-americana à noite, adotando as cores da Lufthansa no dia seguinte.

A aeronave foi apresentada pela Lufthansa a Berlim Ocidental em 1987 como parte das comemorações pelo 750º aniversário da cidade. Depois, ele foi arrastado para um canto distante do campo de aviação, ocasionalmente sendo usado para treinamento de evacuação.

Na outra extremidade de Tegel está o pequeno, mas peculiar museu Allierte in Berlin (Aliados em Berlim), uma coleção particular operada por voluntários e dedicada à história das forças aliadas em Berlim.

Bowie e Reagan

Último voo da Lufthansa foi operado por um Airbus A350-900

Último voo da Lufthansa foi operado por um Airbus A350-900

Foto: Divulgação/Lufthansa (4.nov.2020)

O aeroporto em si deve ficar restrito à história em 8 de novembro, quando o último voo programado para deixar Tegel será – apropriadamente – um serviço da Air France para Paris.

Depois disso, o futuro é um tanto incerto.

Os promotores imobiliários e arquitetos estão prontos para reinventar o aeroporto: existem planos para transformar o local em uma chamada “República Tecnológica Urbana”, um centro de negócios de alta tecnologia que pode gerar 18 mil empregos.

Os terminais A e B da Tegel serão usados pela University of Applied Sciences Berlin para estabelecer um novo parque tecnológico para até 2.500 alunos. A parte restante estará disponível para uso industrial, a maior área de desenvolvimento de uma cidade na Berlim contemporânea.

Qualquer que seja seu destino, o lugar do aeroporto na história de Berlim irá cimentar para sempre seu status como “o” aeroporto da cidade, particularmente, como o escritor britânico e especialista em Berlim Paul Sullivan aponta, graças ao seu papel na cultura pop recente.

“Eu acho que ao longo das décadas as dimensões modestas e estéticas do aeroporto e o fato de que muitas celebridades como David Bowie e Ronald Reagan o usaram para entrar em Berlim Ocidental realmente criaram muito carinho nos berlinenses”, relatou.

“Até a barraca de currywurst com altos preços do lado de fora do terminal, feita para parecer uma carruagem S-Bahn, para mim simboliza o charme decadente do aeroporto”.

Mesmo que os vizinhos fiquem aliviados, a única coisa de que vou sentir mais falta em Tegel é a experiência direta, barulhenta e fedorenta da viagem.

Havia algo genuinamente atraente em esperar no ponto de ônibus na Kurt-Schumacher-Platz perto das barracas de kebab e restaurantes chineses e assistir os aviões rugirem a apenas 50 metros acima em sua aproximação final ao aeroporto.

Tegel era um dos últimos de uma raça em extinção: um veterano aeroporto urbano, maltratado e para sempre insuperável.

(Texto traduzido, leia o original em inglês)