Rito de passagem para muitos viajantes, mochilão está ameaçado pela Covid-19


Tamara Hardingham-Gill, CNN
01 de janeiro de 2021 às 13:08
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Foto: Reprodução/Pixabay

As viagens no estilo mochilão têm sido uma espécie de rito de passagem para os jovens há quase 70 anos.

Colocar alguns pertences numa mochila e sair viajando de destino em destino, seja ao redor do mundo ou explorando uma região, país ou cidade em particular, continua sendo uma opção extremamente atraente para quem busca diversão e aventura.

Infelizmente, as restrições de fronteiras implementadas devido à pandemia da Covid-19 impediram a maioria dos mochileiros de viajar em 2020.

Muitos estão ansiosos para pegar a estrada novamente. Porém, mesmo quando o mundo começa a se reabrir, os mochileiros podem ter dificuldade para encontrar seu lugar no novo normal.

Embora as viagens do tipo “volta ao mundo” aconteçam há séculos, foi somente nos anos 1950 e 60 que o mochilão como o conhecemos realmente começou.

Uma rota terrestre entre a Europa e o Sudeste Asiático, que ficou conhecida como “trilha hippie”, ficou popular entre os jovens com orçamentos limitados que desejavam ampliar seus horizontes.

A popularidade da trilha levou à publicação do primeiro guia Lonely Planet, chamado “Across Asia on the Cheap” (algo como “Cruzando a Ásia com pouca grana”, sem edição no Brasil), em 1973, escrito pelos cofundadores Tony e Maureen Wheeler.

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Embora o mochilar certamente tenha evoluído nos anos desde então, ela tende a envolver pular de um lugar para outro, hospedar-se em albergues, conseguir empregos temporários aqui e ali e se relacionar com outros viajantes.

“Mochilar é um conceito atemporal”, disse à CNN Kash Bhattacharya, fundador do site BudgetTraveller.org e autor de um guia de albergues de luxo chamado "The Grand Hostels: Luxury Hostels of the World” (sem edição no Brasil).

“É muito fácil e acessível. Faz 20 anos que faço mochilão e o senso de conexão, humanidade e curiosidade nunca acaba, não importa quantos anos eu tenha”.

Um dos muitos apelos desse tipo de viagem é a acessibilidade. Os mochileiros podem dormir em albergues por uma fração do preço dos hotéis. Além disso, o crescimento das companhias aéreas de baixo custo ajudou a abrir as portas para aqueles que antes viam as viagens como algo fora de seu alcance financeiro.

Mas, com as companhias aéreas com estimativas de perdas de US$ 157 bilhões em 2020 e 2021, de acordo com a IATA (Associação Internacional de Transporte Aéreo), os voos baratos dos quais muitos mochileiros dependem em breve se tornarão uma coisa do passado.

Além disso, embora as vacinas contra a Covid-19 estejam sendo aplicadas em vários países, incluindo os EUA e o Reino Unido, o que obviamente é um passo positivo, mais e mais destinos passaram a exigir laudos de um teste de PCR negativo na partida ou chegada no destino da viagem.

Tais requisitos provavelmente acabarão ficando bastante caros para aqueles que planejam visitar vários destinos onde os testes não são fornecidos gratuitamente.

A rua dos mochileiros
Será que essa forma de viagem independente de baixo custo realmente sobrevive a uma nova era de distanciamento social, teste e rastreamento, preços de voos potencialmente crescentes e restrições de viagem em constante mudança?

Não há dúvida de que a perda de renda dos mochileiros afetou os destinos mais procurados por esse tipo de viajante.

Embora o mochilão seja uma forma relativamente barata de viajar de forma independente, ele traz uma enorme receita para a indústria do turismo.

De acordo com números de WYSE Travel Confederation, 45 milhões de viagens de mochileiros são feitas a cada ano, com o valor médio gasto por viagem em 2017 em torno de US$ 4.000.

O sudeste da Ásia continua sendo um dos pontos mais populares do mundo para esse tipo de turismo desde os dias da trilha hippie, e a Tailândia é, sem dúvida, um de seus principais destinos.

Mais de 20 milhões de pessoas visitam a capital Bangkok a cada ano, e a grande maioria acaba indo para Khao San Road, uma das mais famosas ruas de mochileiros do mundo.

Repleta de bares, restaurantes, albergues e vendedores ambulantes, a via sempre teve hordas de viajantes animados em cada esquina.

Mas a Khao San Road ficou praticamente deserta durante meses, depois que a Tailândia fechou suas fronteiras em abril.

Autoridades aproveitaram a oportunidade para revitalizar a rua, investindo US$ 1,54 milhão, uma medida que o vice-governador de Bangkok, Sakoltee Phattiyakul, vinha defendendo há anos.

No entanto, o movimento continua relativamente baixo por causa de falta de viajantes e o fato de muitos albergues permanecerem fechados.

De acordo com Phattiyakul, turistas internacionais representam pelo menos 90% dos visitantes na Khao San Road.

O movimento ficou tão ruim sem eles que o governo decidiu lançar a campanha “Vá para Khao San 2435” para atrair mais visitantes locais para a área, um movimento que teria parecido impensável nesta época no ano passado.

Clientes indesejáveis?

Mas será que uma cidade como Bangkok, junto com destinos semelhantes que estavam lotados de viajantes antes da pandemia, realmente quer os mochileiros de volta?

Afinal, mesmo que injustamente em muitos casos, os viajantes de baixo orçamento se tornaram sinônimo de mau comportamento ao longo dos anos. Destinos como a Austrália, outro local importante para mochileiros, tomaram medidas para desencorajar esses visitantes.

Em 2017, um polêmico “imposto para mochileiros” foi introduzido no país, taxando as pessoas que trabalhavam durante as viagens ao país em 15%. Os próprios trabalhadores australianos têm um limite de isenção de impostos de A$ 18.200 (R$ 72.800).

O imposto foi considerado ilegal para cidadãos de oito países que têm tratados com a Austrália, incluindo Reino Unido, EUA, Alemanha e Japão, em outubro de 2019.

“A maioria dos destinos está se concentrando em segmentos de mercado de alto rendimento agora”, disse no ano passado Denis Tolkach, professor assistente da Escola de Hotelaria e Gestão de Turismo da Universidade Politécnica de Hong Kong, à CNN.

“Os mochileiros são tradicionalmente conhecidos por explorar destinos fora da rota tradicional, comprar produtos locais e interagir com os residentes, mas em grande número eles podem causar danos ao meio ambiente, à cultura e à comunidade locais por causa das festas e de comportamentos inadequados”.

Será que os efeitos posteriores à Covid-19 poderiam fazer com que lugares que se cansaram de viajantes com orçamento limitado optem por exclui-los para sempre?

Stuart Nash, ministro do turismo da Nova Zelândia, outro local extremamente popular para mochileiros, indicou que esse pode muito bem ser o caso ao sugerir que o país iria apelar mais para “indivíduos de alto patrimônio” no futuro.

Suas palavras foram vistas como um desprezo com os mochileiros, muitos dos quais chegam com vistos de férias para trabalhar e assumem empregos na colheita de frutas e em outras funções na agricultura.

No entanto, Jenni Powell, presidente da Associação de Turismo de Aventura e Jovens Mochileiros da Nova Zelândia, enfatiza que os mochileiros contribuem para o país de muitas maneiras diferentes e positivas, e a ausência deles foi sentida.

“Antes da Covid-19, as chegadas internacionais de jovens eram cerca de 25% do total de visitantes da Nova Zelândia e contribuíram com cerca de 1,5 bilhão de dólares neozelandeses para a economia”, detalhou Powell à CNN. “A falta de mochileiros é algo importante para nós. Esperamos ansiosamente que as fronteiras sejam abertas em segurança novamente”.

De acordo com Powell, os viajantes mais jovens visitam mais destinos em todo o país e ficam por mais tempo, o que é bom para o crescimento sazonal.

“O valor que esse mercado traz não é apenas econômico. Eles contribuem ambiental e socialmente e nos agregam culturalmente”.

A Nova Zelândia tem sido relativamente bem-sucedida em conter surtos de coronavírus, e o distanciamento social e o uso de máscaras nunca foram comuns lá, o que provavelmente aumentará seu apelo junto aos viajantes.

“Em um mundo depois da Covid, ou mesmo com a Covid, a Nova Zelândia traz uma proposta de viagem realmente atraente para as pessoas terem aquele senso de normalidade de volta”, diz Powell.

Ela prevê que as viagens de baixo orçamento serão as primeiras a se recuperar assim que as viagens internacionais forem retomadas, já que “os millenials viajantes são resistentes às crises”.

Negócios arrasados

Mochileiros e albergues andam de mãos dadas, então não é surpresa que a comunidade de albergues (ou hostels) também tenha sido duramente atingida pela ausência deles durante a pandemia.

Embora as medidas de segurança variem de destino para destino, a maioria das empresas de hospedagem teve que aumentar as medidas de segurança instalando vidro acrílico nos balcões de check-in e unidades de álcool gel para as mãos, além de operar em uma capacidade reduzida para garantir que os viajantes possam manter uma distância segura uns dos outros.

No entanto, a criação de espaço extra não foi problemática para a grande maioria dos albergues, que mal conseguem preencher os leitos disponíveis.

A Associação de Albergues da Juventude (Inglaterra e País de Gales) ou YHA, uma organização internacional sem fins lucrativos com mais de 150 propriedades, aberta a escolas, famílias, casais e mochileiros, celebrou seu 90º aniversário em 2020, mas os últimos 12 meses provaram ser memoráveis por todos os motivos errados.

“No acumulado do ano, nossa receita caiu cerca de 75%”, disse James Blake, CEO da YHA.

“Portanto, isso representa uma perda de cerca de £ 30 milhões (cerca de R$ 213 milhões) de faturamento para nós, que normalmente temos um faturamento anual de cerca de £ 55 milhões (R$ 390 milhões)”.

A organização financiada por doações conseguiu sobreviver à Segunda Guerra Mundial e ao surto de febre aftosa no Reino Unido em 2001. A Covid-19 é o maior desafio já enfrentando por eles.

“Nunca tivemos que fechar toda a rede antes”, contou Blake.

Muitos pequenos albergues independentes também tiveram que fechar suas portas temporariamente, enquanto outros foram forçados a encerrar de forma permanente.

Infelizmente, o Mitraa Inn, de Singapura, caiu no último grupo, fechando suas portas em junho, após 15 anos no mercado.

Em uma entrevista no Channel News Asia Insider, a coproprietária Viji Jagadeesh contou que tentou penhorar suas joias para levantar dinheiro suficiente para reembolsar reservas canceladas, mas não tinha fundos  suficientes nem para pagar a conta da internet do albergue

“A Covid-19 está nos dizimando. Está acabando com muitos hostels”, lamentou Bhattacharya. “Os albergues que estão lutando são os menores e independentes, que em muitos aspectos representam a alma do setor.

“Esses hostels não são apenas um lugar para dormir. Eles representam as comunidades de cada cidade”.

Veja o caso de Will Hatton, criador do blog The Broke Backpacker (“O Mochileiro Falido”), que dirige passeios de aventura para mochileiros para o Paquistão, Irã e Quirguistão. Ele estava prestes a abrir um albergue para nômades digitais em Bali antes de a Covid-19 chegar.

Nos últimos meses, Hatton teve que cancelar suas viagens de aventura planejadas para 2020, emitir reembolsos aos clientes e fornecer assistência financeira aos parceiros locais.

“Não vou mentir: tem sido muito difícil para nós que trabalhamos no setor de turismo”, afirmou à CNN. “Todos os meus empreendimentos têm sofrido perdas substanciais.

Mas acredito que o pior já passou, já que as viagens domésticas estão aumentando, uma vacina está no horizonte e o desejo de viajar ainda é forte para muitos”.

Hatton tomou a decisão de “desacelerar a construção” de seu futuro albergue há vários meses e agora planeja inaugurar em março de 2021.

Em maio, Bhattacharya, da Singapura, lançou uma campanha chamada Adote um Hostel, que implorava aos viajantes que comprassem um cartão-presente online para uma estada futura ou que doassem para um albergue de sua escolha.

The Beehive, em Roma, dirigido pelo casal Linda Martinez e Steve Brenner, foi um dos cerca de 200 albergues participantes da campanha.

O casal abriu o hostel há 21 anos ao se mudar dos Estados Unidos para a capital italiana.

Eles dizem que sua margem de lucro depende de a propriedade estar 100% cheia em torno de oito a dez meses do ano para compensar os meses de inverno, quando a ocupação cai para 50%.

“O melhor movimento que tivemos neste verão foi de 10% e isso apenas por alguns meses. Agora não há ninguém, exceto um ou dois hóspedes de longa permanência”, contou Brenner à CNN.

A fim de manter a flutuação, a dupla construiu um negócio paralelo de venda de bagels, algo que eles faziam em uma escala muito menor antes da pandemia, em parceria com uma pizzaria próxima.

“Desenvolvemos esse negócio completamente separado, porque não temos hóspedes, não há nada acontecendo no hostel”, disse Martinez.

Embora tenham implementado todas as medidas de segurança necessárias para proteger os hóspedes e a si próprios, o casal admite que é difícil se adaptar à nova e distanciada maneira de lidar com os clientes.

“A abordagem e a atitude são realmente incompatíveis com o que queremos fazer”, explicou Brenner. 

“Normalmente, o benefício de se hospedar num albergue é socializar e se sentir parte de uma comunidade local. Agora, quando temos hóspedes, somos obrigados por lei a manter as pessoas separadas. Não podemos fazer coisas que normalmente faríamos, como grandes jantares e aulas de culinária”.

Embora a maioria dos hóspedes que se hospedaram no The Beehive durante a pandemia tenha ficado feliz em aderir às novas diretrizes, alguns ficaram desapontados porque o albergue não estava oferecendo as atividades habituais.

Eles até receberam críticas negativas de clientes insatisfeitos por terem que usar máscaras, enquanto outros reclamaram que não havia muitos outros hóspedes por perto.

O lado bom

No entanto, ambos dizem que ficaram animados com a quantidade de viajantes que adotaram o estilo “slow travel”.

“Algumas das pessoas que recebemos são aquelas interessantes de verdade, que não estavam apenas viajando com lista de atrações para marcar um ‘x’”, disse Brenner.

O casal acredita que o impacto da pandemia pode nos levar a adotar uma abordagem mais relaxada e ponderada para enxergar o mundo novamente.

“Recebemos pessoas que experimentavam a cidade lentamente, de uma forma mais profunda, em vez de apenas correr aqui e ali ticando itens numa lista”, acrescenta Martinez.

“Isso nos lembrou de quando abrimos. Não víamos esse tipo de viajante há muitos e muitos anos. De fato, eu ficaria muito feliz se esse fosse o tipo de pessoa que continuasse a vir”.

Hatton compartilha deste sentimento, enfatizando que um dos poucos aspectos positivos da pandemia é que destinos movimentados como Bangkok, Roma e Bali, onde seu próximo albergue ficará baseado, foram capazes de reavaliar sua abordagem ao turismo.

“A pandemia de Covid-19 teve alguns aspectos positivos, como dar a lugares como Bali a chance de melhorar sua infraestrutura e ter uma pausa para os milhões de turistas que normalmente vêm aqui todos os meses”, analisou.

“Isso oferece aos países uma chance de reavaliar como podem tornar seus setores de turismo mais sustentáveis e ecológicos”.

O empresário e blogueiro permanece otimista sobre o futuro da indústria e prevê que as pessoas começarão a apreciar mais as viagens quando puderem se mover ao redor do mundo com relativa liberdade novamente.

“Espero que as pessoas não considerem mais as viagens como algo garantido”, disse. “Espero que reservem um tempo para respirar fundo e mergulhar de verdade no ambiente ao redor, em vez de ver tudo através de seus telefones e viajar por causa do Instagram”, comentou.

“Acho que a Covid-19 dá ao mundo a chance de desacelerar um pouco, reiniciar e, com sorte, vai permitir que a gente volte mais forte e sábio com essa experiência. Sinto muita falta de mochilar e mal posso esperar para voltar”.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).