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    Américo Martins

    Américo Martins

    Especialista em jornalismo internacional e fascinado pelo mundo desde sempre, foi diretor da BBC de Londres e VP de Conteúdo da CNN; já visitou 68 países

    “Diplomacia de TikTok”: como Israel usou as redes para ampliar a crise com o Brasil

    Autoridades israelenses fizeram várias provocações contra o presidente Lula no ambiente digital; resposta do Itamaraty foi feita pelos canais institucionais

    “Diplomacia de TikTok”: como Israel usou as redes para ampliar a crise com o Brasil
    “Diplomacia de TikTok”: como Israel usou as redes para ampliar a crise com o Brasil

    O uso das redes sociais por autoridades israelenses foi um fator que ampliou ao máximo a crise diplomática entre os dois países – aberta depois que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) comparou a violenta campanha militar de Israel na Faixa de Gaza ao Holocausto.

    Desde o início, Israel resolveu marcar sua posição, de maneira pública e contundente, através das contas oficiais de órgãos do governo e de políticos como o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, e o ministro das Relações Exteriores, Israel Katz.

    O uso dessa estratégia pouco convencional na diplomacia irritou o Itamaraty, que sempre pautou sua comunicação, inclusive em eventuais desavenças com outros governos, através dos canais institucionais consagrados nas relações internacionais.

    Experientes embaixadores chegaram a chamar a ação israelense de “diplomacia de TikTok”.

    Segundo eles, a expressão pejorativa foi cunhada originalmente por opositores de Netanyahu insatisfeitos com os métodos abrasivos de sua administração e com o uso das redes como uma espécie de “cortina de fumaça” para desviar a atenção de problemas maiores.

    Seria uma forma menor, segundo esses opositores, de se engajar em relações diplomáticas.

    Quase todos os posts vindos de Israel nesta crise contém pesadas críticas e provocações contra Lula, usando o que o chanceler Mauro Vieira classificou de “linguagem chula” – como quando Katz disse que a posição do presidente era “um cuspe na cara dos judeus brasileiros”.

    Na avaliação do Itamaraty a intenção israelense era a de conseguir ganhos políticos internos, num momento em que o governo de Netanyahu está cada vez mais isolado internacionalmente justamente pela violência das ações militares na Faixa de Gaza – que já deixaram mais de 30 mil mortos e cerca de 170 mil feridos, em sua enorme maioria mulheres e crianças.

    A CNN apurou que a cúpula do Itamaraty considerou várias opções de resposta, entre elas o uso do mesmo método de ataques através das redes, antes de optar por manter o foco na diplomacia tradicional, que acredita ser mais efetiva.

    Foi o caso da decisão de chamar de volta o embaixador brasileiro em Tel Aviv, Frederico Meyer, depois dele, na avaliação do Itamaraty, ter sido “exposto” e “humilhado” quando Katz disse, em hebraico, numa entrevista no Museu do Holocausto que o presidente Lula era “persona non grata” em Israel.

    Chanceler israelense Israel Katz e o embaixador brasileiro em Israel, Frederico Meyer, em encontro no Museu do Holocausto, em Jerusalém.
    Chanceler israelense Israel Katz e o embaixador brasileiro em Israel, Frederico Meyer, em encontro no Museu do Holocausto, em Jerusalém. / Reuters

    Chamar de volta um embaixador é uma forma tradicional e conhecida de demonstrar forte descontentamento com atos de um país estrangeiro.

    Uma alta fonte do Ministério das Relações Exteriores do Brasil disse à CNN “que as respostas do Brasil não serão pautadas por outros governos e muito menos pelo chanceler Katz, nem em sua forma e nem em seu conteúdo. Vamos responder da forma, no tom e no momento que acharmos necessário”.

    “Continuaremos fazendo uma diplomacia madura e profissional, como é a tradição do Itamaraty, utilizando os canais apropriados para demonstrar nossa insatisfação quando necessário”, disse a fonte.

    Riscos diplomáticos

    O professor de Relações Internacionais da ESPM Roberto Uebel disse à CNN que é natural que governos utilizem cada vez mais as redes sociais para se comunicar diretamente com o público.

    No entanto, ele vê alguns riscos caso elas não sejam usadas de forma apropriada – entre eles a possibilidade de aumentar as chances de conflito entre as partes e a perda do “rito diplomático”.

    “Acho que primeiro se perde, neste caso específico, um pouco do rito diplomático, do rito das relações internacionais porque acaba confundindo posições oficiais de governo com opinião de indivíduos”, disse ele.

    Segundo Uebel, “Israel tem a liberdade de fazer o uso das redes sociais nesta comunicação, porque é uma escolha política, apesar dos riscos”.

    No entanto, ele considera que “o Brasil acertou em utilizar a comunicação tradicional para evitar um agravo uma uma piora da situação”.

    “Quem está extrapolando, quem está avançando em espaços que não deveria avançar, é Israel. O Brasil está mantendo (sua comunicação) de maneira protocolar, não vai voltar atrás no caso da declaração do presidente Lula e vai manter o curso normal da relação diplomática. Eu acho que foi um cálculo político bem feito pelo Ministério das Relações Exteriores para não tensionar ainda mais o ambiente, que já está muito tensionado pela própria guerra e pelas primeiras reações de Israel”, afirmou.

    O marqueteiro e professor de marketing político Marcelo Vitorino, especialista em comunicação digital em campanhas, afirmou que os dois lados acertaram ao usar técnicas de comunicação diferentes nesta disputa diplomática.

    Ataque israelense em Khan Younis, sul de Gaza / 25/1/2024 REUTERS/Ibraheem Abu Mustafa

    O motivo: cada governo tem um objetivo diferente na crise.

    “Israel acertou ao usar as redes sociais neste caso porque o país está em guerra. Num caso de conflito, o país precisa atrair e manter os simpatizantes à sua causa através da mobilização também nas redes sociais”, disse ele à CNN.

    “É necessário o uso das redes para atrair torcida”, completou.

    Vitorino lembra que a comunicação num momento de conflito consegue uma “reverberação muito maior” nas redes.

    O especialista diz ainda que a estratégia israelense foi “muito boa” para atingir os seus objetivos, mantendo espaço para algum tipo de recuo através dos canais oficiais.

    “Esse tipo de comunicação feita por Israel nas redes não tem o mesmo peso dos comunicados oficiais, tradicionais da diplomacia. Esse tipo de comunicação não tem essa relevância institucional”, diz ele.

    “Colocar esse tipo de mensagem, como foi feito pelas redes, através de canais oficiais da diplomacia, aumentaria a tensão a um ponto de total crise”, diz ele.

    Mas Vitorino diz que o Brasil também acertou ao manter as suas mensagens através dos canais oficiais.

    “O Itamaraty não quer ampliar a polêmica, então foi correto usar a comunicação tradicional”, diz ele. “Eu teria orientado da mesma forma os dois lados, caso tivesse sido consultado”, afirmou.

    “Vitória e empate”

    O marqueteiro analisa ainda que, diante dos objetivos dos dois lados, “Israel ganhou e Lula empatou neste embate”.

    Questionado sobre se isso não era uma afirmação contraditória, ele explicou: “Israel ganhou porque usou o caso para continuar mobilizando seus simpatizantes em meio à guerra. E o presidente empatou porque a crise não mudou a sua posição na política interna. Ele não vai oscilar mais de um ponto para cima ou para baixo (em sua avaliação) por causa da crise. Então, tudo continua na mesma”.

    A CNN tentou entrar em contato diversas vezes com o Ministério das Relações Exteriores de Israel e com sua embaixada em Brasília para comentar esta reportagem.

    Foram enviados três e-mails para porta-vozes do Ministério das Relações Exteriores e até uma mensagem por rede social para David Saranga, diretor de Comunicação Digital do Ministério das Relações Exteriores do país – e responsável pela administração das redes oficiais do órgão.

    As mensagens sequer foram respondidas.

    Além disso, pedidos de posicionamento foram enviados para a assessoria de imprensa e para diplomatas de Israel em Brasília, que informaram respeitosamente que não estavam dando entrevistas no momento.

    A CNN, no entanto, teve acesso a entrevistas de Saranga à mídia israelense, anteriores à crise, no qual ele afirma que a comunicação através das redes é uma peça fundamental do seu Ministério e do seu governo para vender ao mundo as mensagens do lado israelense do conflito.

    Saranga dá especial importância, justamente, ao TikTok (que chegou a ser acusado de antissemita no início do conflito por não censurar mensagens de grupos palestinos).

    Segundo ele, a rede é importante justamente pelo perfil de público mais jovem, até 29 anos, que costuma se informar por ela.

    Recentemente, Israel chegou a contratar influencers para difundir nas redes suas mensagens sobre a guerra.

    A CNN apurou que o Itamaraty também tem uma divisão digital dentro de seu departamento de comunicação, que se pauta estritamente pela comunicação de forma institucional, sem espaço para ataques ou palavras depreciativas a qualquer pessoa ou governo.

    “A orientação é muito clara. Precisamos ter agilidade para divulgar muito rapidamente, de forma transparente, todas as ações do governo.

    Temos agilidade e transparência para informar o público de nossas ações. Sempre de forma institucional e republicana”, diz um dos embaixadores com larga experiência nessa área.