Ibovespa tem nova queda com mercado ainda preocupado com coronavírus


27 de fevereiro de 2020 às 13:12
Bolsa de Valores de São Paulo

Operador olha para quadro eletrônico com índices da Bolsa de Valores de São Paulo

Crédito: Amanda Perobelli/Reuters (27.02.2020)

Preocupações com a propagação do novo coronavírus e seus potenciais efeitos na economia global mantiveram a bolsa de valores de São Paulo pressionada nesta quinta-feira (27), embora com perdas menores em comparação com o dia anterior.

Por volta das 12h40, o Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, recuava 1,75%, a 103.863 pontos. Na véspera, na volta do feriado do Carnaval, o Ibovespa fechou em queda de 7%, maior baixa percentual desde 2017, ajustando-se ao forte declínio nos mercados globais no começo da semana por temores sobre a propagação da doença.

Pelo segundo pregão consecutivo, as ações das companhias aéreas estavam entre as maiores baixas, com os papéis preferenciais da Azul e da Gol caindo ao redor de 6%. Petrobras e Vale, que têm grande peso na composição do índice, também operavam em baixa, ajudando a puxar a bolsa para o vermelho.

Já o dólar renovou mais uma vez sua máxima histórica nesta quinta, subindo pela sétima sessão consecutiva. Às 11h40, a moeda americana chegou a ser negociada a R$ 4,5006, novo recorde histórico intradiário. Na quarta-feira, o dólar fechou R$ 4,4441, também maior o valor nominal (sem considerar a inflação) já registrado para o fechamento.

A forte alta acontece mesmo após intervenção do Banco Central, que fez leilão extraordinário de 20 mil contratos de swap tradicional no início desta sessão, conforme anunciado na véspera. Todos foram vendidos. Segundo o economista Silvio Campos Neto, "o mercado já estava contando com esse leilão, então não foi novidade", o que limitava a capacidade da atuação do BC de frear a moeda dos Estados Unidos.

Impacto da doença no mercado

No exterior, as principais bolsas da Europa operavam em queda de mais de 3% depois que novas empresas disseram que o surto de coronavírus pode impactar seus balanços, incluindo Microsoft e ABIbev – na bolsa brasileira, as ações da subsidiária Ambev caíam ao redor de 2%. 

A epidemia de coronavírus já preocupava os mercados mundiais porque pode desacelerar o crescimento da China, segunda maior economia do mundo e protagonista no comércio global. Agora, crescem também as dúvidas quanto ao impacto do vírus na economia europeia, por conta do avanço na Itália, principalmente, e seus reflexos na atividade global como um todo. 

 

Em cenários de incerteza, os investidores migram recursos alocados em mercados emergentes, como o Brasil, para outros considerados mais seguros, como o americano. O aumento da demanda por dólares faz a cotação subir. "O impacto do coronavírus continua sendo uma incógnita e uma ameaça para a economia mundial", resumiu em nota Jefferson Rugik, da Correparti Corretora, citando movimentos de proteção.

Silvio Campos Neto, economista da Tendências Consultoria, disse que o movimento desta quinta-feira é reflexo do "fator externo, um acompanhamento da tendência do exterior; moedas emergentes continuam fragilizadas pela busca de refúgio em ativos mais seguros".

No entanto, ressaltou que "por ora, o movimento ainda é modesto em comparação à alta do dólar nos outros dias, como ontem". "Isso sugere tentativa de estabilização, e o dia ainda deve ter alguma volatilidade."

Ante moedas emergentes, como pesos mexicano e chileno, lira turca, e rand sul-africano, o dólar ganhava força, mas, contra uma cesta de moedas fortes, tinha queda acentuada de 0,28%, perdendo quase 0,5% em relação ao iene, sinal da cautela internacional.

Pilha de dólares; moeda americana atinge valor recorde no Brasil

Com ameaça do coronavírus, dólar tem renovado recorde nos pregões da Bolsa de São Paulo

Crédito: Guadalupe Pardo/Reuters (14.10.2015)

A rápida disseminação do novo coronavírus nesses últimos dias para vários países, incluindo Estados Unidos e Brasil, trouxe apreensão quanto a um efeito na atividade global ainda maior do que o estimado quando os casos estavam concentrados na China, onde o cenário sugere desaceleração no ritmo de contágio.

"Os mercados devem operar com muita volatilidade e nervosismo nos próximos dias", afirmou a equipe do BTG Pactual, citando que investidores ainda avaliam o impacto que o coronavírus pode ter no crescimento global e sobre os crescimentos dos lucros projetados de muitas empresas.

Algumas casas cortaram previsões para o crescimento da economia mundial nesta semana, entre elas o Credit Suisse, de 2,6% para 2,2%, citando possibilidade de um choque no comércio global muito maior, enquanto empresas têm revisado projeções, entre elas a Microsoft.

Primeiro caso no Brasil

O Brasil confirmou na quarta-feira o primeiro caso de infecção pelo novo coronavírus em um paciente de São Paulo que esteve na Itália, país europeu mais afetado pelo surto da doença, surgida no final do ano passado na China.

Agentes financeiros também citam aumento do risco político como fator adicional para a queda, com nova polêmica entre o presidente Jair Bolsonaro e o Congresso, após ele compartilhar no WhastApp vídeo que convoca a população a participar de manifestações no dia 15 de março.

"O temor é que possa haver algum impacto no calendário de aprovação das reformas", destacou a equipe da XP Investimentos.

Tal cenário tende a minar a confiança de muitos investidores na bolsa paulista, uma vez que o rali recente tem sido apoiado principalmente em perspectivas positivas para a economia doméstica e resultados das empresas, que são baseados, entre outros fatores, no avanço da pauta econômica.