Apesar do risco, procura por day trade aumenta em meio à crise; mas vale a pena?


Manuela Tecchio, do CNN Business, em São Paulo
01 de abril de 2020 às 12:16 | Atualizado 02 de abril de 2020 às 09:51
Operador da bolsa de valores brasileira, a B3, em 7 de janeiro de 2016

Operador da bolsa de valores brasileira, a B3 (7.jan.2016)

Foto: Paulo Whitaker/Reuters
 

Em períodos de crise, alguns investidores partem para apostas arriscadas na renda variável, numa tentativa de conseguir dinheiro rápido para recuperar prejuízos e garantir renda. Entre as muitas filosofias agressivas de jogo no mercado financeiro, a prática do day trade ganhou milhares de adeptos nos últimos anos, inclusive no Brasil.

Para quem não está familiarizado, day trader é a pessoa que realiza uma operação de compra e venda de um mesmo ativo, na mesma quantidade, no mesmo pregão. Ou seja, você começa o dia comprando uma ação e espera que ela valorize; depois, vende por um preço maior do que pagou. O inverso também é comum: apostar que a ação vai desvalorizar –esse tipo específico de operação é o chamado Bear Market

De acordo com dados da corretora Easynvest, o número de clientes operando em sistema de day trade no Brasil cresceu 27% em março, em relação ao mês anterior. Coincidência ou não, a alta ocorreu em um momento de muita volatilidade no mercado de ações no mundo todo, marcado pela incerteza e graves impactos econômicos provocados pela pandemia de coronavírus. 

Em paralelo, pesquisas no Google com os termos “como fazer day trade?” cresceram 53% no último ano no Brasil – em março deste ano chegou a 84 pontos, contra 31 em relação ao mesmo mês de 2019. As palavras-chave “day trade”, isoladamente, também apresentam uma ascensão na plataforma de pesquisa. O estado de São Paulo lidera as buscas.

Mas, o que faz os olhos dos investidores brilharem para esta modalidade? O principal atrativo, para grande maioria deles, são os rendimentos altíssimos que alguns traders relatam conseguir nesse sistema. O funcionário público de 32 anos Alex Serafim, por exemplo, opera há cerca de três anos neste mercado. Entre seus principais investimentos, estão ativos futuros, tanto índice quanto dólar, e algumas ações, nas quais opera por períodos curtíssimos, bem próximo ao fechamento do pregão.

“Já cheguei a ganhar mais de R$ 2 mil num dia. E também já perdi algo em torno de mil reais no período, mas isso lá no início. Hoje, chego a ganhar até dois dígitos por mês e, na verdade, isso é pouco perto de outras pessoas que conheço”, afirma.

Um bilhete premiado

Mas resultados como o relatado pelo funcionário público parecem ser exceção, no famoso estilo “1 em um milhão”. É o que mostra um estudo coordenado pelo professor de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Fernando Chague, em parceria com seu colega de instituição Rodrigo De-Losso e o então professor da USP Bruno Giovannetti, e que gerou uma enorme discussão em fóruns e sites dedicados à modalidade de day trade. 

Na pesquisa, concluída em julho do ano passado, foi constatado que, entre 1.500 pessoas que operaram como day traders entre 2013 e 2015 apenas 45 não tiveram prejuízo. Em suma, 97% das pessoas perderam dinheiro. Das que lucraram, apenas 0.4%, ou 13 indivíduos, foram capazes de ganhar mais de R$ 300 por dia. Ou seja: bem distante da realidade do funcionário público Alex Serafim.  E a que mais lucrou, dentre todas, ganhou mil reais por dia, em valores da época. 

Para chegar nesse resultado, os  pesquisadores decidiram filtrar os dados fornecidos pela CVM, que demonstrava a operação de cerca de 20 mil pessoas, com foco apenas no que consideraram traders profissionais. O estudo, portanto, só acompanhou pessoas que atuaram na bolsa por 300 dias consecutivos, no mínimo, com recorte em contratos futuros de mini-índice, o ativo mais comum entre os day traders, no qual o investidor opera “alavancado.” 

De acordo com o professor Chague, mesmo no melhor dos cenários, o rendimento não recompensa o risco. “Se você considerar o estresse constante e o investimento que a pessoa tem que fazer em equipamentos de ponta, em contratar a plataforma e outras despesas, simplesmente não paga a conta. E assim, mesmo a pessoa que mais obteve resultados no Brasil inteiro, não está andando de Ferrari.”

Além disso, o especialista explica que a matemática não ajuda quem confia na sorte. “É uma questão de probabilidade. Quanto mais você joga, menos ganha. Se você joga por um ou dois dias, a probabilidade é quase a mesma de uma moeda no ar: 50 a 50. Conforme os dias passam, a porcentagem tende a cair.”

Apenas humanos

Mas nada disso chega perto de se equiparar à maior ameaça que os day traders enfrentam: robôs. Não literalmente robôs, mas algoritmos programados para realizar operações em tempo recorde. É praticamente impossível para um humano competir com os chamados High Frequency Traders (HTF), que são essas ferramentas usadas por traders e grandes corporações. “Se tem alguém ganhando, tem alguém perdendo”, diz Chague.

Na tentativa de conter os estragos, day traders geralmente usam sistemas automatizados como o stop loss e o stop gain, que limitam os prejuízos de acordo com valores estabelecidos previamente, antes mesmo da abertura das negociações. Ainda assim, esses mecanismos não eliminam os riscos.

“Como grupo, as pessoas físicas perdem. Tem uma fração minúscula que ganha dinheiro. Mas quem ganha, em geral é esse outro lado da moeda. Além dos HFTs serem desenvolvidos por especialistas de bancos internacionais, eles colocam os operadores próximos do servidor da B3. É uma questão física de infraestrutura que garante velocidade. É simplesmente um ambiente inóspito para pessoas físicas.”

O conto do vigário

E existe ainda quem procura lucrar com a esperança alheia. Além dos riscos próprios desse tipo de operação, o mercado de day trade ainda é alvo de golpistas. Entre os vários relatos de fraude encontrados em fóruns do tipo, a história do paranaense Erick Ferreira, de 26 anos, chama atenção.

O operador de produção vendeu a empresa própria de marcenaria para investir junto com um primo, que parecia estar enriquecendo rapidamente, e aprender com ele o ofício de day trader. Além de aplicar mal o dinheiro nas operações diárias, o primo também depositou a verba que ambos tinham disponíveis no chamado esquema de pirâmide financeira - prática ilegal no Brasil que consiste num modelo de negócio não sustentável e que depende do recrutamento de novos investidores para se financiar . 

Quando Ferreira percebeu que havia entrado em um esquema fraudulento, já era tarde demais. “Perdi todo o meu dinheiro e abri mão do meu sonho, da minha empresa. Teve gente que perdeu casa, perdeu mais de R$ 200 mil”, conta o empresário. 

Como alternativa, ele tentou operar sozinho como Day Trader, mas também não foi bem sucedido. “Operei opções binárias, que é uma vertente de Forex (mercado de câmbio). O risco é imenso, perdi R$ 10 mil da noite para o dia.”

O primo de Ferreira, assim como muitos que prometem dinheiro fácil, também oferecia cursos presenciais para quem quisesse aprender a fazer day trade. O custo da mensalidade das aulas, que eram lecionadas em Cuiabá, no Mato Grosso, passava dos R$ 10 mil. No YouTube e no Facebook, também não faltam influencers sem nenhuma certificação vendendo aulas do tipo. 

“Vários desses caras que vendem cursos na internet ganham muito dinheiro. A maioria não é igual a gente, que trabalha e que sofre para ter uma renda. Eles vendem um sonho. A pessoa acha que vai ganhar dinheiro sem ter que ralar, mas não é assim. Eu aprendi da pior maneira”, conta Ferreira.