China experimenta moeda digital para tirar hegemonia do dólar

O renmibi é responsável por pouco mais de 4% das transações internacionais, de acordo com o Bank for International Settlements; o dólar representa 88%

Foto: Jason Lee/Illustration/Reuters

Laura He,

do CNN Business, em Hong Kong

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 A China quer quebrar a hegemonia do dólar americano no sistema financeiro global e ganhar maior controle sobre como as pessoas gastam seu dinheiro. E espera que uma moeda digital possa oferecer as duas possibilidades.

Após anos de preparação, o país começou a lançar um ambicioso teste de uma versão digital do renmimbi no início deste ano. Atualmente, existem pilotos em quatro cidades chinesas, onde já foram realizadas transações que totalizam mais de 2 bilhões de yuans (US$ 300 milhões). (Nota: remimbi é o nome da moeda chinesa, enquanto yuan é a unidade de valor)

Se o programa for expandido para todo o país, a China se tornará a economia mais poderosa até agora para oferecer uma moeda digital nacional, batendo uma versão digital do euro do Banco Central Europeu que está perto de sair.

O governo chinês elogiou o renmimbi digital como uma moeda futurística que tornará a compra de produtos mais conveniente e segura. As autoridades também dizem que isso pode ajudar aqueles que não têm acesso a contas bancárias e outros serviços financeiros tradicionais.

Embora a China já viva quase sem dinheiro em papel e muitas transações ocorram digitalmente, elas estão além do alcance do estado, funcionando em aplicativos e plataformas de propriedade privada.

Um renmibi digital oficial mudaria isso, pois daria ao governo do país uma quantidade sem precedentes de informações sobre como e onde as pessoas estão e no que estão gastando seu dinheiro – uma abordagem que vai contra a intenção original do dinheiro digital no primeiro lugar.

O bitcoin e outras moedas digitais contam com um sistema de blockchain descentralizado que impede que qualquer pessoa ou organização tenha o controle.

“Em suma, o renmimbi digital pode ajudar a fortalecer a vigilância e o controle do estado sobre a economia e a sociedade”, pontuou Frank Xie, professor de negócios da Universidade da Carolina do Sul Aiken.

“Ele aumenta a centralização da autoridade. Essa pode ser a razão fundamental pela qual ele tem sido fortemente pressionado para sair e apressado pelo estado”.

Os reguladores chineses também sugeriram que a adoção generalizada de um renmimbi digital poderia ajudá-los a realizar um plano muito mais grandioso: quebrar o monopólio do dólar americano e aumentar a influência do renmimbi no cenário internacional.

No mês passado, por exemplo, a líder de Hong Kong Carrie Lam revelou que as sanções dos EUA a impediram de ter uma conta bancária.

No entanto, ainda há muitos obstáculos a serem superados pelo programa da China antes que a nova forma de moeda se enraíze na vida cotidiana. Além disso, os analistas estão céticos sobre se o renmimbi digital pode dar o impulso que Pequim espera, muito menos se representar uma ameaça real para o dólar americano.

O desejo do governante Partido Comunista Chinês de controlar seu sistema financeiro continua sendo o obstáculo final para a criação de qualquer moeda que possa realmente se tornar global.

Manter a economia digital alinhada

Os trabalhos para desenvolver uma moeda digital começaram em 2014, de acordo com o Banco Popular da China. As autoridades passaram seis anos pesquisando o projeto antes de lançar programas-piloto este ano em Shenzhen, Suzhou, Chengdu e Xiong’an.

Como a criptomoeda, o yuan digital incorpora alguns elementos da tecnologia blockchain: cada transação é registrada e rastreável em um livro-razão digital. Ele substituiria parte do dinheiro que já está em circulação, segundo Fan Yifei, vice-governador do banco central.

O desenvolvimento de uma moeda digital serve a outros propósitos também. Um yuan mais facilmente rastreável permitiria ao governo administrar melhor o suprimento monetário do país. O fato também satisfaria o desejo do governo de reduzir a influência crescente que as empresas privadas de tecnologia e seus serviços de pagamento digital têm no sistema financeiro do país.

O banco central chinês não articulou sua razão para desenvolver uma moeda digital na época. A existência do programa só veio à tona nos últimos anos, quando o banco central reconheceu que se sente ameaçado pela rapidez com que a tecnologia digital está evoluindo.

Os serviços de pagamento online administrados pelo Alipay do Ant Group e pelo WeChat Pay da Tencent têm crescido rapidamente na última década, levantando preocupações sobre se as empresas privadas têm muito controle sobre as transações digitais na China.

Bitcoin
Moedas com símbolo do bitcoin: sistema descentralizado evita controle, algo que o governo chinês não se interessa
Foto: Dmitry Demidko/Unsplash

Em 2013, por exemplo, o Alipay lançou um fundo do mercado monetário chamado Yu’e Bao, ou “Tesouro Restante”, que se tornou tão popular que os reguladores chineses intervieram e forçaram o programa a reduzir seu tamanho. Eles estavam preocupados com o risco sistêmico: se o enorme fundo fracassasse por algum motivo, poderia causar estragos na economia chinesa.

“Há muito tempo Pequim se preocupa com o monopólio da moeda digital por gigantes da tecnologia e seu impacto no sistema financeiro além da supervisão do banco central”, escreveu Anthony Chan, estrategista-chefe de investimentos na Ásia do banco suíço UBP, em um relatório de pesquisa publicado no início deste ano.

Os eventos recentes serviram para destacar essas preocupações. No mês passado, por exemplo, o governo chinês pisou no freio sobre a oferta pública inicial (IPO) altamente antecipada do Ant Group poucos dias antes do início das negociações das ações em Xangai e Hong Kong.

Essa decisão confirmou que “nenhuma entidade terá muito poder ou controle sobre um mercado sem a aprovação expressa ou colaboração do governo”, disse James Gillingham, CEO e cofundador da Finxflo, uma corretora de criptografia com sede em Singapura.

A “última peça” da vigilância

De acordo com Gillingham, a China também está preocupada com o dinheiro que está sendo retirado do país.

O Partido Comunista Chinês há muito acredita que ter uma grande quantidade de controle sobre seus sistemas econômico, financeiro e social é melhor para manter a estabilidade e o controle político, e atribuiu essas políticas para proteger o país das recentes e importantes crises financeiras na Ásia e em todo o mundo.

“As autoridades estão cientes dos desafios colocados por súbitas saídas monetárias”, afirmou Gillingham. “A introdução do yuan digital lhes permitiria implementar melhores níveis de controle de capital”.

Muito dinheiro deixou a China em um velocidade recorde no ano passado, por canais não autorizados, enquanto o país enfrentava problemas econômicos e vivia sua guerra comercial com os Estados Unidos.

Xie, professor de administração da Universidade da Carolina do Sul, chamou a moeda digital de “última peça” do estado de vigilância. A China já usa uma ampla gama de tecnologias, incluindo reconhecimento facial e câmeras, para coletar grandes quantidades de informações sobre seus cidadãos.

O Banco Popular da China afirma que seu yuan digital apresenta “anonimato controlável”. Em outras palavras, embora as partes envolvidas em uma transação possam não ser conhecidas uma da outra ou do público em geral, suas informações privadas ainda são conhecidas pelo banco central.

As moedas digitais do banco central “provavelmente não terão o mesmo grau de anonimato que o dinheiro”, escreveu Andrew Tilton, economista-chefe da Goldman Sachs para a Ásia, em um recente relatório de pesquisa. Ele destacou que uma característica fundamental desse tipo de dinheiro é que os bancos centrais podem “monitorar diretamente seu uso”.

A moeda digital chinesa não é a única que será obrigada a enfrentar esse problema. O Banco Central Europeu reconheceu que a infraestrutura de apoio ao seu euro digital deve ser “finalmente controlada” pela instituição, com uma opção de que “todas as transações” sejam “registradas no livro-razão do banco central”.

A presidente do BCE, Christine Lagarde, porém, disse esta semana que não quer que a Europa se mova “muito rápido” e destacou que proteger a privacidade do usuário é fundamental.

Desafios futuros

A criação de uma moeda digital também pode ajudar a China a mitigar outros riscos econômicos, especialmente porque as tensões com os Estados Unidos continuam elevadas.

Se o governo dos EUA proibisse os bancos chineses de usar o SWIFT (o serviço de mensagens que movimenta dinheiro pelo sistema bancário global), indivíduos e empresas poderiam usar o yuan digital em transações internacionais, de acordo com Chan, do UBP.

Os analistas alertam, porém, que vai demorar muito para que as maiores ambições do governo chinês sejam totalmente realizadas.

O yuan é responsável por pouco mais de 4% das transações internacionais, de acordo com o Bank for International Settlements, uma instituição financeira internacional. O dólar norte-americano representa 88%.

Governo americano diz que Huawei e Hikvision são apoiadas por Exército da China
Chinês em uma loja da Huawei: atualmente, boa parte dos pagamentos na China são feitos digitalmente
Foto: Aly Song / Reuters

“A China não está nem perto de fazer com que as pessoas usem o [renmimbi] internacionalmente”, disse Scott Kennedy, consultor sênior do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.

Também não está claro se os consumidores chineses vão realmente migrar para o yuan digital em primeiro lugar.

Mais de 800 milhões de pessoas na China, ou 86% dos usuários de internet móvel, já usam serviços de pagamento móvel como Alipay e WeChat Pay, de acordo com estimativas publicadas pelo China Internet Network Information Center. Embora não sejam totalmente iguais à moeda digital (que seria totalmente garantida pelo banco central), esses programas oferecem níveis semelhantes de conveniência.

A perda de privacidade em torno das transações provavelmente não ajuda a estratégia do governo. Xie disse que as pessoas podem hesitar em usar a moeda, especialmente para grandes transações ou para ativos que desejam transferir para o exterior.

“Pessoas comuns podem ser cautelosas”, ele adicionou. “Eles correm o risco de perder mais privacidade sem ganhar conveniência adicional”.

— Salina Wang contribuiu para esta reportagem.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).

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