A excludente Superliga Europeia tem tudo a ver com (muito) dinheiro

O anúncio da criação da Superliga Europeia no domingo deu início a uma feroz luta pelo poder, que pode virar a economia do futebol europeu de ponta-cabeça

Nicolas Pepe comemora com Mohamed Elneny, depois de marcar seu primeiro gol durante a partida de quartas de final da UEFA entre Arsenal FC e Slavia Praha
Nicolas Pepe comemora com Mohamed Elneny, depois de marcar seu primeiro gol durante a partida de quartas de final da UEFA entre Arsenal FC e Slavia Praha Foto: Charlotte Wilson/Offside/Offside via Getty Images

Charles Riley, CNN Business

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Alguns dos principais clubes de futebol da Europa concordaram em formar uma liga apartada das demais, produzindo gritos de indignação dos órgãos dirigentes do esporte, dos líderes eleitos da França e da Grã-Bretanha, além de legiões de seus próprios torcedores. Por que fazer uma jogada tão impopular? A resposta é simples: dinheiro, claro.

O anúncio da Superliga Europeia no domingo deu início a uma feroz luta pelo poder, que pode virar a economia do futebol europeu de ponta-cabeça. A batalha coloca os proprietários bilionários dos 12 times fundadores da liga — que estão entre os clubes mais ricos do mundo — e o maior banco de Wall Street contra praticamente todos os demais clubes.

Aleksander Ceferin, presidente da União das Associações Europeias de Futebol (UEFA, na sigla em inglês), disse a repórteres na segunda-feira que os clubes do movimento “separatista” são “movidos puramente pela ganância”.

“A Superliga trata apenas de dinheiro, dinheiro para os 12. Não quero chamá-los de dúzia suja, mas a UEFA trata do desenvolvimento e do financiamento do futebol para que o nosso futebol, a nossa cultura, sobreviva. E algumas pessoas não entendem”, disse Ceferin.

Os clubes fundadores serão membros permanentes da European Super League (ESL), uma estrutura que lembra as americanas Major League Baseball (MLS), de beisebol, ou a National Football League (NFL), de futebol americano. A iniciativa promete dinheiro em grande escala via direitos de transmissão e merchandising para os participantes.

Mas a Superliga vai contra as tradições do futebol europeu, com suas raízes em bairros da classe industrial trabalhadora, onde até mesmo os clubes mais pobres podem ser promovidos às ligas de elite se conseguirem bater os rivais dentro de campo. Além disso, nenhuma quantia em dinheiro pode proteger os times ricos do rebaixamento se a campanha não tiver vitórias suficientes.

Seis clubes ingleses — Arsenal, Chelsea, Liverpool, Manchester City, Manchester United e Tottenham Hotspur — disseram que vão ingressar na liga, juntamente com Milan, Inter de Milão e Juventus da Itália. Os clubes espanhóis Atlético de Madri, Barcelona e Real Madrid também estão no grupo. A ESL planeja adicionar mais três clubes permanentes, enquanto outros cinco se qualificam anualmente com base no desempenho.

Ao criar uma liga isolada, os clubes fundadores foram acusados de orquestrar uma grande captura de dinheiro que prejudicaria os competidores menores e potencialmente condenaria à extinção a mundialmente famosa Liga dos Campeões da UEFA, que é disputada por clubes das principais divisões de toda a Europa.

A história dos donos dos clubes que estão liderando essa iniciativa reforça a noção de que o dinheiro foi o motor da decisão de iniciar a Superliga.

O Fenway Sports Group, do bilionário americano John Henry, dono do Boston Red Sox, está à frente do Liverpool. Outro bilionário americano, Stan Kroenke, controla o Arsenal e as franquias esportivas dos Estados Unidos, incluindo o LA Rams e o Denver Nuggets. O oligarca russo Roman Abramovich é dono do Chelsea e o xeque Mansour bin Zayed Al Nahyan, dos Emirados Árabes, é dono do Manchester City.

Os investidores chineses estão por trás da Inter de Milão, enquanto a Elliott Management, do bilionário americano Paul Singer, ditam as regras do rival local, o Milan. Os proprietários de longa data da Juventus são a família Agnelli, que ganhou dinheiro com diversos empreendimentos, incluindo a montadora Fiat.

A família Glazer, que é proprietária do Tampa Bay Buccaneers, franquia de futebol americano, administra o Manchester United. Torcedores do clube inglês protestaram, na segunda-feira, para expressar seu desacordo com os executivos americanos. Uma das manifestações diz respeito a uma faixa colocada do lado de fora do estádio do clube, que dizia: “Criado pelos pobres, roubado pelos ricos.”

Em contraste, o Bayern de Munique e os times da Alemanha, onde os investidores comerciais são impedidos de controlar mais de 49% da maioria dos grandes clubes, são notáveis por sua ausência na Superliga. Assim como os clubes da França, onde o presidente Emmanuel Macron criticou a nova liga.

Se a liga sobreviver à reação inicial e às ameaças legais, os clubes fundadores terão a garantia de muitos milhões de dólares a cada ano com a venda dos direitos de transmissão de suas partidas. Gigantes da mídia, incluindo Facebook e Disney, são os prováveis ?compradores, embora três candidatos potenciais, como Amazon, BT Sport e Sky, de propriedade da Comcast, já tenham se distanciado da iniciativa.

“Acreditamos que parte do drama e da beleza do futebol europeu venha da capacidade de qualquer clube de alcançar o sucesso por meio de seu desempenho em campo”, disse Amazon Prime Video, em um comunicado.

A reação das empresas de mídia não é nenhuma surpresa, dado o enorme clamor político que o anúncio gerou. O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, disse que seu governo está “explorando todas as possibilidades, incluindo opções legislativas” para impedir a criação da nova liga. O príncipe William, duque de Cambridge, disse que compartilha “as preocupações dos fãs sobre a proposta da Superliga e os danos que ela pode causar ao jogo que amamos”.

Ainda assim, a liga tem um apoiador poderoso: JPMorgan Chase, que confirmou ao CNN Business na segunda-feira que está fornecendo financiamento.

O Tottenham Hotspur disse, em um comunicado à imprensa, que os clubes fundadores receberão 3,5 bilhões de euros (US$ 4,2 bilhões) para apoiar seus planos de investimento em infraestrutura e compensar o impacto da pandemia do coronavírus. Cada um dos clubes receberá um “bônus de boas-vindas” de até 300 milhões de euros (US$ 360 milhões), informou o Financial Times.

Os torcedores criticaram o JPMorgan no Twitter por seu envolvimento na construção da liga. Um usuário sarcasticamente incluiu uma captura de tela da carta recente de um comunicado de Jamie Dimon aos acionistas, na qual o CEO afirma que “as empresas devem ganhar a confiança de seus clientes e comunidades agindo de forma ética e moral”.

Apesar da polêmica, os investidores estão vendo cifrões. As ações do Manchester United subiram 6,7% em Nova York, na segunda-feira, enquanto as ações da Juventus dispararam quase 18% em Milão, antes de devolver parte dos ganhos no dia seguinte.

O presidente da FIFA, Gianni Infantino, disse, na terça-feira, que os clubes devem pensar com muito cuidado em suas próximas jogadas.

“Eles precisam refletir e assumir responsabilidades”, disse ele. “Eles precisam pensar não apenas nos seus acionistas, que são importantes, claro, mas precisam pensar em todos os torcedores, em todos aqueles que contribuíram para fazer do futebol europeu o que ele é hoje.”

(Texto traduzido. Para ler na versão original, clique aqui.)

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