A pandemia impulsionou as empresas de delivery, mas a realidade pode mudar

Setor aproveitou o isolamento causado pela pandemia e também o número alto de desempregados que atuaram como empregadores, mas as coisas podem mudar

Alerj aprova projeto de lei que garante prioridade aos idosos nos serviços de delivery
Alerj aprova projeto de lei que garante prioridade aos idosos nos serviços de delivery Foto: Divulgação/Alerj

Sara Ashley O'Brien,

do CNN Business

Ouvir notícia

No início de 2020, parecia que o setor de food delivery estava prestes a enfrentar um acerto de contas depois de anos ganhando e perdendo bilhões de dólares.

Um dos negócios originais do setor nos Estados Unidos, o Grubhub, estava considerando sua venda após perder sua posição de mercado. Seus concorrentes, DoorDash, Postmates e Uber Eats, supostamente também estavam pensando em fusões.

Nesse meio tempo, o presidente da Uber sinalizou uma mudança radical no seu serviço de entrega de refeições: foco no crescimento lucrativo.

Daí veio a pandemia e mudou tudo.

A crise sanitária acompanhada da crise econômica criou a turbulência perfeita para as empresas de entrega: um grande fluxo de recém-desempregados à procura de trabalho, inúmeras pessoas em casa pedindo refeições e restaurantes cada vez mais dependentes de comida para viagem e entrega.

Leia também:
Bike no lugar de van? Startup usa bicicleta para fretes de até 100 kg
Entrevista exclusiva: Objetivo da Amazon é entregar em 2 ou até 1 dia no Brasil

Os serviços de delivery viram a demanda disparar. A Uber se apoiou no Uber Eats quando seu negócio principal – transporte privado – despencou. A valorização do Instacart e DoorDash disparou à medida que as empresas garantiam centenas de milhões de dólares em capital e passavam a oferecer entregas de varejistas de eletrônicos e lojas de conveniência.

Um dos principais investidores na recente rodada de financiamento do DoorDash comentou que o serviço tinha “se tornado essencial para a vida das comunidades locais”.

Vacina pode mudar tudo

O lançamento da vacina sinaliza o que pode ser o início do fim da pandemia e, com isso, uma outra mudança na demanda. Para empresas de food delivery como o DoorDash, a questão é o quanto o fim da pandemia o afetará.

“As pessoas ficaram muito mais acostumadas a pedir comida e outros produtos por serviços de entrega. Parte dessa demanda diminuirá quando for seguro fazer as coisas pessoalmente, é claro”, comenta Scott Duke Kominers, professor associado da Harvard Business School. “No entanto, a formação de novos hábitos é poderosa”, complementa.

A empresa, que também é dona da Caviar, se tornou a líder norte-americana em vendas em maio de 2019, segundo dados da Second Measure. Porém, foi necessária uma pandemia para que o DoorDash desse seu primeiro lucro no segundo trimestre deste ano, antes de reportar perdas novamente no último trimestre.

Sem dúvida nenhuma, os serviços de entrega como o DoorDash tiveram uma vantagem durante a pandemia, já que muitos restaurantes dependem de entregas, mas o pêndulo pode oscilar na direção contrária no pós-pandemia.

Kominers, que recentemente foi coautor de um artigo sobre a importância do relacionamento de um aplicativo de delivery com restaurantes e outros fornecedores, disse que as empresas de entrega precisam se concentrar em uma melhor divisão de receita e em ferramentas com os comerciantes para construir negócios sustentáveis.

As altas taxas que os serviços de entrega cobram dos restaurantes sobre as encomendas ganharam destaque durante a pandemia. Alguns estados e cidades limitaram as taxas de entrega de terceiros para ajudar os negócios locais.

As empresas exploraram novas maneiras de trabalhar com os negócios. O DoorDash introduziu o Storefront, um produto que permite aos restaurantes criar suas próprias lojas online, onde não são cobradas comissões sobre os itens vendidos, e o Self-Delivery, uma forma de os parceiros serem listados na plataforma e cuidarem de sua própria entrega.

Leia também:
Já é possível investir em água, assim como em petróleo e soja, em Wall Street
Inflação faz juro ficar negativo e ter pior rendimento do milênio – e vai piorar

Olhando para o futuro, o fim da pandemia combinado com a melhoria da economia e desafios jurídicos ao seu modelo de negócios pode tornar mais difícil para empresas como o DoorDash manter seu modelo de prestadores independentes, que não têm os mesmos benefícios onerosos e respaldo trabalhista que funcionários teriam.

As empresas obtiveram uma vitória com a aprovação de um referendo na Califórnia no mês passado, permitindo que as empresas não precisassem reclassificar seus trabalhadores temporários como funcionários no estado e contornassem os custos associados a um conjunto completo de benefícios, como salário mínimo, horas extras, licença médica remunerada e seguro-desemprego sob as leis trabalhistas da Califórnia.

Contudo, a questão está longe de ser resolvida.

Esse modelo de negócio “sobrevive essencialmente de forçar os trabalhadores a competir entre si em uma corrida para o fundo do poço”, afirma Rebecca Givan, professora associada de estudos do trabalho da Universidade Rutgers.

“Embora a economia esteja ruim e o desemprego esteja elevado, sempre haverá trabalhadores desesperados que provavelmente estarão dispostos a trabalhar nesses aplicativos mesmo por um pagamento muito baixo”, acrescentou a professora Givan.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).

Mais Recentes da CNN