Brasil deve crescer pouco, com inflação ainda alta e dólar em até R$ 6 em 2022

Projeções da maioria dos economistas falam em alta de até 0,5% do PIB; para alguns, ano pode até voltar a ser de recessão

A sensação de muitos brasileiros hoje, de renda apertada e muita coisa cara, mudará muito pouco no novo ano
A sensação de muitos brasileiros hoje, de renda apertada e muita coisa cara, mudará muito pouco no novo ano REUTERS

Juliana Eliasdo CNN Brasil Business

em São Paulo

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Depois de um tombo de 3,9% em 2020, o crescimento de mais de 4% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2021 está praticamente garantido, ajudado em boa parte pelo efeito estatístico da base muito baixa do ano anterior. O resultado oficial será divulgado em 4 de março.

Em 2022, porém, a história será diferente. Ou melhor: deve voltar a ficar igual ao que era antes, retornado à série de anos em que o país ficou preso a um crescimento fraco logo antes de a pandemia chegar.

Nas projeções generalizadas de economistas, o país, em 2022, deve crescer pouco mais do que zero. A expectativa média de mercado hoje é de uma alta de 0,36%. Alguns já falam até em um novo ano de recessão e em quedas de até 0,5% – caso das projeções dos bancos Itaú e Credit Suisse.

Isto, ainda, apimentado por uma inflação que, embora não deva repetir os mesmos 10% em que está agora, continuará alta, e um dólar que seguirá pressionado pelas fraquezas domésticas e acomodado com folga na casa dos R$ 5,50. Há até quem não descarte que a moeda possa flertar com os R$ 6 em alguns momentos.

Tudo isso com juros amargos provavelmente acima dos 11% ao longo do ano, encarecendo o crédito, espantando os investimentos das empresas e deixando a roda da economia ainda mais difícil de girar.

“O primeiro trimestre se beneficiará de um crescimento forte e pontual do PIB agropecuário, mas esperamos contração nos trimestres subsequentes (…), devido à contração na demanda decorrente do aumento de juros”, escreveu o Itaú em seu relatório mais recente de previsões, em dezembro.

Na prática, significa que a sensação de muitos brasileiros hoje, de renda apertada e muita coisa cara, mudará muito pouco no novo ano, dado que crescer perto de zero é deixar tudo mais ou menos onde está.

“A recuperação já está perdendo tração e tudo isso sugere que ainda teremos um ano difícil pela frente”, diz o estrategista-chefe do Banco Mizuho, Luciano Rostagno.

“Claro que não será tão ruim quanto 2020, quando houve a eclosão da pandemia, mas teremos um ritmo de crescimento muito baixo e uma sensação para o trabalhador e o consumidor de que as coisas não estão melhorando no ritmo em que gostariam.”

A previsão do Mizuho é de um crescimento do PIB de 0,5% em 2022, podendo ser menor e até negativo sob a sombra de alguns fatores que podem surpreender – caso da variante Ômicron do coronavírus, novas ondas de infecções que fujam do controle ou de uma crise hídrica que não melhore no ritmo esperado e possa até levar ao racionamento de energia neste ano.

A inflação, hoje em 10,8%, deve desacelerar aos 4,7% até o final do ano, na estimativa do banco – mas ainda flertando com o limite máximo tolerado pela meta do país, que é de uma alta de preços de até 5%.

Isso significa que, no geral, os preços não vão cair, mas apenas crescer com menos força em cima dos níveis já altos a que chegaram.

O dólar, por sua vez, deve ficar navegando entre os R$ 5,40 e os R$ 5,90. “Pode até testar o patamar dos R$ 6, por conta principalmente das eleições e também pela perspectiva de que os banco central dos Estados Unidos volte a subir juros”, disse Rostagno.

Inflação e rupturas na indústria

“Parte da desaceleração do crescimento que estamos vendo vem de uma perda de fôlego natural, depois de um movimento muito forte de recuperação”, diz o economista-chefe da Santander Asset Management, Eduardo Jarra. “Mas é uma acomodação mais forte do que se esperava.”

A economia já teve pequenas quedas no segundo e no terceiro trimestre de 2021, e indica que encerrou o quarto no zero, pelos resultados fracos dos principais dados setoriais do período.

A expetativa é que os trimestres seguintes, já 2022 adentro, continuem nesta mesma toada morna, dando o compasso que conferirá o crescimento quase parado do ano completo.

“Há alguns suspeitos para isso”, diz Jarra. “Um deles é a inflação muito mais alta, que afeta o poder de compra das famílias e a dinâmica do consumo. Há também problemas na indústria, que, depois de uma recuperação forte no início, passa hoje por dificuldades na cadeia de suprimentos.”

A projeção da gestora do Santander é que o PIB cresça 0,5% em 2022, e a inflação vá para 5,4%, ainda acima do teto da meta, de 5%. “É ainda um ano de inflação alta, com os juros apertados, a economia engatinhando. Será ainda um ano difícil”, disse o economista.

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