Compra do Grupo Soma é ganha-ganha, mas é ainda melhor para Hering, diz analista

As companhias assumiram compromisso de exclusividade, cujo descumprimento prevê pagamento de multa de R$ 250 milhões

Tamires Vitorio e Leonardo Guimarães, do CNN Brasil Business, em São Paulo*

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A disputa pela Hering parece ter chegado ao fim: nesta segunda-feira (26), o Grupo Soma (dono de grifes como Animale e Farm) anunciou um acordo que prevê a compra da varejista por cerca de R$ 5,1 bilhões, deixando a outra interessada, a Arezzo, para trás.

Os acionistas da Hering (HGTX3) receberão uma ação ordinária e uma preferencial da nova companhia por cada ação que detêm atualmente. Com isso, Grupo Soma (SOMA3) vai desembolsar cerca de R$ 1,5 bilhão em dinheiro e R$ 3,6 bilhões em ações na transação.

No acordo, tanto a Hering quanto o Soma assumiram compromisso de exclusividade, cujo descumprimento prevê pagamento de multa de R$ 250 milhões — o que pode impossibilitar a Arezzo de fazer uma futura oferta pela companhia. A transação está sujeita à aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). 

“A Hering e o Grupo SOMA avaliam que a Operação será transformacional no que tange a consolidação de uma plataforma de marcas no varejo de moda, ampliando o seu mercado endereçável total, conectando diferentes audiências e abrindo um novo espaço e avenida de crescimento dado o portfólio altamente complementar”, disseram as empresas em um comunicado.

Após o anúncio da aquisição, as ações da Hering dispararam, chegando a subir quase 35%. Os papéis da Hering fecharam o pregão desta segunda-feira com alta de 26,19%, para R$ 28,62. Foi a maior alta do Ibovespa hoje. 

Já os papéis do Grupo Soma (SOMA3) caíram 10,14% para R$ 12,67.

Procuradas, as empresas ainda não responderam ao pedido de entrevista do CNN Brasil Business.

Quem ganha com a aquisição? 

O negócio parece ser bom para os dois lados. Mas os acionistas da Hering saem muito mais felizes com a compra do que os do Grupo Soma, que ainda estão desconfiados. 

Entre os motivos, está o desempenho da Hering, que já não empolga há muito tempo. É uma empresa com resultados ruins em um setor que também não vai muito bem das pernas desde o início da pandemia. Enquanto o varejo ensaiou uma retomada em ‘V’ no segundo semestre do ano passado, as vendas da varejista de moda caíram 10,4% no terceiro trimestre e 9,9% nos últimos três meses. 

Há duas semanas, a Arezzo tentou comprar a Hering oferecendo cerca de R$ 3,3 bilhões, algo em torno de R$ 22 por ação. Já o acordo Soma-Hering prevê pagamento de R$ 33 por ação – um prêmio de 93% sobre o preço da Hering no dia 14 de abril. No último fechamento (em 23 de abril), as ações da Hering custavam R$ 22,68. 

Se os acionistas da Hering já ficaram animados com a proposta da Arezzo, hoje estão ainda mais contentes com o anúncio de incorporação pelo Grupo Soma. “É uma notícia positiva para a Hering, porque conseguiu um ‘valuation’ que não conseguiria alcançar tão cedo”, afirma Henrique Esteter, analista da Guide Investimentos. 

Depois de entrar para o Grupo Soma, os acionistas da Hering esperam um ganho de eficiência da empresa, principalmente no digital, já que a empresa demorou para entrar no e-commerce e não tem uma estratégia multicanal tão bem-sucedida. Agora, a expectativa é que a marca forte da Hering ganhe relevância online após começar a ser operada por uma empresa que já consegue um bom desempenho na internet. 

Para o Grupo Soma, o principal benefício está no aumento expressivo da base de clientes. Em teleconferência com analistas, Roberto Jatahy, CEO do Grupo Soma, disse que a combinação de negócios aumenta o potencial de mercado do grupo de R$ 30 bilhões para R$ 110 bilhões. 

O negócio é visto como um ganha-ganha: a Hering consegue uma boa avaliação e ganha fôlego para se reestruturar, enquanto o Grupo Soma ganha penetração na classe média — algo que o conglomerado não tem até o momento com suas marcas premium Farm e Animale. 

Mas os investidores do Grupo Soma estão desconfiados. Não à toa, as ações da empresa despencavam no pregão desta segunda-feira. Os acionistas estão preocupados com descapitalização da empresa, que vai desembolsar um valor bem acima do oferecido pela Arrezzo para ter o controle da Hering. 

“É claro que os investidores queriam que o Grupo Soma comprasse barato, mas a empresa fez contas e sabe o que a Hering vale. Eles identificaram a oportunidade e viram que este é o preço correto”, avalia Douglas Carvalho, sócio da Target Advisor, especializada em M&A.

Além disto, os acionistas estão preocupados com a exposição a um segmento que não fazia parte do portfólio do Grupo Soma até então. Até hoje, quem investia no grupo não tinha na carteira uma empresa que conversava com a classe C, o que pode não agradar alguns investidores. 

Sobre uma possível mudança de posicionamento de marca da Hering, os analistas ouvidos pelo CNN Brasil Business não acreditam que isso vai acontecer, ao menos não no curto prazo. “O Grupo Soma vai se concentrar na integração de canais e pode acrescentar valor aos produtos Hering, mas não acho que faça sentido elevar os preços em um primeiro momento”, afirma Henrique Esteter. 

*Com Reuters 

Vista de loja da Cia. Hering, em São Paulo
Vista de loja da Cia. Hering, em São Paulo
Foto: Aluísio Alves/REUTERS

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