Efeito dos juros pode demorar 9 meses para chegar na economia, mostra estudo

Levantamento da Ryo Asset mostra que até agosto, apenas metade (51%) da subida de juros promovida pelo Banco Central terá efeito sobre a economia

Juros: baixo ponto de partida da Selic, que estava no patamar de 2% até março de 2021, contribuiu para o alongamento dos efeitos da alta, explica economista
Juros: baixo ponto de partida da Selic, que estava no patamar de 2% até março de 2021, contribuiu para o alongamento dos efeitos da alta, explica economista Getty Images

Priscila Yazbekda CNN

São Paulo

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O atual ciclo de alta da taxa Selic, que passou de 2% em março de 2021 para os atuais 11,75% ao ano, deve demorar cerca de nove meses para fazer efeito na economia e na inflação. É o que mostra um estudo divulgado em primeira mão à CNN.

Os dados do levantamento, feito por Gabriel Barros, economista-chefe da Ryo Asset, mostram que até agosto, apenas metade (51%) da subida de juros promovida pelo Banco Central terá efeito sobre a economia. “Dado os efeitos defasados da política monetária sobre a inflação, de nove meses, o ciclo de normalização [alta de juros] passará a pesar sobre a economia a partir de setembro de 2022”, afirma Barros.

O economista explica que o baixo ponto de partida da Selic, que estava no patamar de 2% até março de 2021, contribuiu para o alongamento dos efeitos da alta dos juros.

/ CNN

“Será preciso ter paciência até que os impactos da elevação dos juros sejam sentidos sobre a economia e contribuam para sua desinflação – além de sorte para que não haja nenhum choque adicional exógeno, seja pelo avanço da Covid na China ou pela escalada da guerra Rússia-Ucrânia”, diz Barros.

Na literatura econômica, é comum que se mencione um período de seis meses até que os juros realmente surtam efeito na economia. O estudo publicado por Barros, porém, usou variáveis atualizadas da economia brasileira para chegar a um cálculo mais preciso dessa defasagem.

Alta da Selic faz efeito?

Se por um lado a alta da Selic ajuda a conter a inflação, já que esfria o consumo e os investimentos, por outro a elevação tem o efeito colateral de esfriar a economia. Justamente por isso, o ciclo atual de elevação tem gerado críticas. Além de ocorrer em um momento em que as previsões apontam para crescimento de menos de 1% do PIB, as altas ainda não foram capazes de conter o avanço da inflação, que segue acima dos dois dígitos desde outubro de 2021.

O argumento daqueles que criticam os aumentos é que a inflação atual é causada por choques de oferta – por causa da pandemia e da guerra na Ucrânia. Portanto, o aumento dos juros é ineficaz, porque tem efeito apenas sobre a demanda.

Apesar das críticas, Barros pondera que a defasagem revelada pelo estudo explica por que o aumento da Selic ainda não foi capaz de reduzir a inflação, que bate 11,3% em 12 meses. “O Banco Central não pode ficar de braços cruzados e deve trabalhar para evitar que os efeitos secundários do choque de oferta, como a desancoragem das expectativas de mercado, ocorram e ampliem o custo de manter a inflação na meta dentro do horizonte relevante”, diz.

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