Entrada do WhatsApp pode mudar o cenário da ‘guerra das maquininhas’

É verdade que o termo “maquininha” não entra bem nesse caso – mas exemplifica o quanto que as empresas estão de olho no filão dos meios de pagamento. Entenda

Consumidora faz pagamento em uma maquininha: concorrência alta no setor criou a alcunha "guerra das maquininhas"
Consumidora faz pagamento em uma maquininha: concorrência alta no setor criou a alcunha "guerra das maquininhas" Foto: Blake Wisz/Unplash

André Jankavski,

do CNN Brasil Business, em São Paulo

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Nos últimos tempos, foi comum falar da concorrência cada vez mais acirrada no setor de meios de pagamento. Para isso, foi criada a alcunha “guerra das maquininhas” para nomear a disputa entre empresas como Cielo, Rede, PagSeguro, Stone, Mercado Livre, Getnet, entre outras. Nessa segunda-feira (15), no entanto, entrou mais um concorrente de peso: o WhatsApp, controlado pelo gigante Facebook.

É bem verdade que o termo “maquininha” não entra bem nesse caso – mas exemplifica o quanto que as empresas estão de olho no filão dos meios de pagamento. Além do Facebook, gigantes como a empresa de tecnologia Google e as fabricantes de eletrônicos Apple e Samsung já têm os seus próprios meios. Mas a entrada do WhatsApp joga mais peso à essa disputa.

Primeiro que não foi à toa que o Brasil foi o primeiro país a ser escolhido para a modalidade. Uma pesquisa realizada pela consultoria Opinion Box em parceria com a Mobile Time mostra que 99% dos smartphones no Brasil possuem o WhatsApp instalado. Segundo o Facebook, o Brasil tem 120 milhões de usuários ativos por mês, atrás apenas da Índia, com 400 milhões.

“Acredito que a decisão terá impacto relevante no comportamento da população. Se der certo, vai criar uma nova fonte de renda e influência para o Facebook, que tem quase 100% da sua receita atrelada à mídia”, disse Pedro Waengertner, fundador da aceleradora ACE.

Por isso, o anúncio causou uma volatilidade muito grande das ações das empresas do setor com o anúncio quase que surpreendente do WhatsApp. As ações da Stone e da PagSeguro chegaram a quedas próximas dos 10% no pregão de segunda-feira, mas se recuperaram durante o dia e fecharam com desvalorizações de 0,1% e 2,5%, respectivamente. A Cielo, que é a primeira parceria do Facebook nesse projeto, chegou a ter uma alta de 34% no dia, mas fechou com aumento de 14% no preço das ações.

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Apesar de, em breve, outras adquirentes poderem participar do jogo, a Cielo leva uma grande vantagem: o seu tamanho. A empresa ainda é líder com folga do setor, com 41,8% de participação do mercado.  “O tamanho continua importando muito e a empresa mostra que está atenta às inovações”, diz Carlos Daltozo, sócio de renda variável da Eleven Financial.

Um novo cenário

Mas houve um reequilíbrio nos preços porque ainda é muito cedo para saber qual vai ser a real adoção do sistema de pagamento por WhatsApp. A prática de um “super aplicativo”, que concentra diversos serviços como mensagens, meios de pagamento e até solicitação de táxis e comida, são muito comuns na Ásia – WeChat é o exemplo mais notório. No Ocidente, no entanto, a prática ainda não pegou.

E essa continua sendo a dúvida. Por isso, as próprias empresas de meios de pagamento estão se renovando para além da maquininha. A PagSeguro, por exemplo, foi quem criou os meios de pagamento focado para pequenos e médios empresários, o que permitiu uma popularização do meio (e uma grande fatia de mercado nesse segmento). Ela, assim como a Stone, também partiu para soluções de gestão aos pequenos varejistas, como aplicativos nos smartphones e nas próprias maquininhas.

A Stone, por sua vez, foi às compras e uma das aquisições que mais chamaram a atenção do mercado foi da startup Vitta, que faz gestão de planos de saúde corporativo.

A Getnet, controlada pelo Santander, decidiu ir para uma operação mais verticalizada. Por isso, investiu R$ 1 bilhão em infraestrutura e também ‘pegou na mão’ de seus clientes durante a pandemia – especialmente naqueles que não tinham uma operação online. Isso, segundo Pedro Coutinho, presidente da Getnet, fez com que a empresa ganhasse 1 ponto percentual de participação no primeiro trimestre, a 12,5%.

“Não nos posicionamos como uma empresa de maquininhas, mas de tecnologia. A maquininha faz parte do processo e temos uma prateleira de produtos relacionados aos meios de pagamento”, diz Coutinho.

Tendo ou não maquininhas, a guerra está mais aberta do que nunca. Entre os elementos principais da disputa estão a antecipação de recebíveis, em que as taxas cobradas pelas empresas podem chegar ao dobro, e também a satisfação do cliente. Um relatório do banco suíço UBS mostra que Cielo e Stone, além das companhias menores SumUp, iZettle e Stelo estão entre as mais elogiadas.

Mas com o Facebook entrando na disputa, a dúvida de quem sairá vencedor fica ainda maior – e quais serão os critérios avaliados daqui para frente. Se for penetração, o WhatsApp, com certeza, larga bem na frente – especialmente no universo de cerca de 50 milhões de desbancarizados. 

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