Europa, Brasil e EUA têm reuniões de juros em meio à guerra; saiba o que esperar

Para especialistas, potencial inflacionário com conflito na Ucrânia pode influenciar decisões e sinalizações

Guerra na Ucrânia pode influenciar decisões de bancos centrais
Guerra na Ucrânia pode influenciar decisões de bancos centrais cottonbro/Pexels

João Pedro Malardo CNN Brasil Business

em São Paulo

Ouvir notícia

Dois dos principais bancos centrais do mundo, o Banco Central Europeu (BCE) e o Federal Reserve (Fed, o BC americano), terão suas reuniões de juros em março com menos de sete dias de diferença. E elas vão atrair a atenção dos investidores por serem as primeiras desde a eclosão da guerra entre Ucrânia e Rússia.

Os investidores no mercado brasileiro terão outra preocupação: a próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central ocorrerá nos mesmos dias que a dos Estados Unidos.

Segundo Livio Ribeiro, pesquisador do Ibre/FGV, a guerra tem colocado pressão na política monetária global devido aos riscos inflacionários, e exigirá alguma reação de países como Estados Unidos e Brasil se essa nova pressão der sinais de disseminação pela economia.

A resposta principal seria uma alta de juros, mas ele afirma que “é complicado restringir, tirar estímulos em um cenário de guerra”. Com isso, o desafio dos bancos centrais será equilibrar esses dois lados, e os sinais desses esforços já devem surgir nas reuniões dos próximos dias.

Europa

Responsável pela política monetária dos 19 países da zona do euro, o BCE será o primeiro a realizar a reunião sobre juros, na próxima quinta-feira (10). Atualmente, a taxa de juros mais importante, a de refinanciamento, é de 0%.

Para Simão Silber, professor da FEA-USP, a Europa tem sido a região mais afetada pelo conflito. A  União Europeia e a Alemanha estão especialmente vulneráveis ao fornecimento de gás natural pela Rússia.

A redução de fornecimento e a guerra fizeram os preços do gás dispararem, o que traz consequências inflacionárias. Há ainda os efeitos das altas de outras commodities produzidas pela Rússia e Ucrânia, caso do petróleo, do trigo e do milho.

“Tudo isso pode fazer com que o BCE, que estava cauteloso porque a recuperação europeia estava mais fraca que a dos Estados Unidos e relutante em aumentar juros, mude de ideia”, afirma.

Nesse sentido, Silber diz que é possível que o banco central reverta sua posição e suba os juros já nesta reunião, entre 0,25 e 0,5 ponto percentual. A chance de não ocorrer altas no ano, como o BCE afirmou anteriormente, é avaliada por ele como baixa.

“Há um potencial de contaminação grande da inflação na economia. O problema não é controlar preço do combustível, é evitar que a inflação suba mais ainda, e ela já está o dobro da meta”.

Ribeiro lembra, entretanto, que o banco central já vinha enfrentando a combinação de uma pressão no mercado para subir juros, com esse movimento sendo precificado nas curvas de juros, e também internamente, com membros do conselho monetário publicamente defendendo a realização de altas já em 2022.

O pesquisador afirma que Christine Lagarde, presidente do BCE e defensora da manutenção da taxa atual, disse em fevereiro que os dados inflacionários estavam surpreendendo o banco, e vindo maiores que o esperado, e que o BCE estaria disposto a mudar de posição se necessário. Com a guerra, essa situação deve se repetir, e piorar.

“A inflação em 12 meses está em 5,8% na preliminar de fevereiro, mas não quer dizer que o BCE vai subir juros, porque tem um cenário particular de um choque na pandemia para outro com a guerra e uma tendência de estagflação na Europa, com atividade baixa e preços altos”, diz.

A alta de juros, nesse cenário de estagnação, poderia piorar ainda mais a situação econômica no continente. Além disso, o chamado núcleo de inflação, que desconsidera alimentos e energia, não tem dado sinais de contaminação, indicando que a inflação pode passar quando os choques de oferta se resolverem.

Por isso, Ribeiro afirma que ficaria “surpreso” se já ocorresse alguma elevação de juros nesta reunião.

O mais importante, diz, será observar a atualização de cenário que o BCE faz trimestralmente, e que dará pistas dos próximos passos do banco e a visão sobre o processo inflacionário, incluindo possíveis altas mais para frente.

“Eles devem indicar que a amplitude de cenários possíveis aumentou, e que pode atuar em qualquer direção necessária”.

Estados Unidos

No caso dos Estados Unidos, o professor da USP afirma que os efeitos da guerra são menos intensos que na Europa, até pela dependência menor das commodities russas. Mesmo assim, eles serão sentidos, já que os preços desses produtos são os mesmos em todos os países, assim como as altas neles.

O presidente do Fed, Jerome Powell, realizou um ato inédito no dia 2 de março e antecipou que o banco central deverá elevar os juros em 0,25 ponto percentual na reunião que termina em 16 de março, o que já era esperado pelo mercado.

Powell afirmou que a alta se justificava pela inflação alta, disseminada pela economia, e um mercado de trabalho “extremamente apertado”, apesar das incertezas na Ucrânia.

Silber avalia que os novos desdobramentos da guerra “podem mudar um pouco do que foi anunciado, mas não dramaticamente”.

“A promessa anterior do Fed, na última reunião, era que em todas as reuniões deste ano haveria aumento de juros para que no fim do ano ficasse em torno de 3%”, afirma.

A inflação maior devido à guerra pode, segundo Silber, fazer essa projeção subir para 3,5%, e uma alta de 0,5 ponto percentual em março não estaria totalmente descartada. Mas, alerta: “As coisas estão mudando a cada dia, é difícil dar certeza”.

Livio Ribeiro vê a alta de 0,25 p.p. como a mais provável, em especial pela inflação no núcleo bem acima da meta, indicando um debate diferente do da Europa. Ao fim do ano, ele aposta na taxa de juros entre 3% e 3,5%.

Para ele, a instabilidade e incerteza com a guerra na Ucrânia tornam uma alta de 0,5 p.p. no curto prazo difícil, e o mais provável é que o Fed faça altas de 0,25 p.p. a cada reunião, como forma de “testar as águas”.

Na visão do pesquisador, o mais importante da reunião não será nem a alta de juros nem o comunicado do Fed, mas sim a tradicional sessão de perguntas e respostas de Powell com a imprensa após a reunião, em especial pelo tom que ele dará nas respostas.

Também será importante, segundo Ribeiro, ficar atento à atualização do chamado Dot Plot, que reúne as projeções e expectativas de cada um dos membros do FOMC, o equivalente ao Copom nos Estados Unidos.

Brasil

Os especialistas afirmam que, das três decisões de juros, a mais certa é a do Brasil. O mercado tem praticamente consenso de que a taxa básica de juros, a taxa Selic, subirá mais um ponto percentual na reunião de 15 e 16 de março, chegando a 11,75%, como indicado pelo Relatório Focus.

Silber afirma que a principal diferença do Brasil para os Estados Unidos e a zona do euro é que o ciclo de alta de juros no país já está acabando, com os juros em um patamar elevado, enquanto o dos outros dois ainda vai começar. A expectativa dele é de que a Selic termine 2022 em 12,5% ao ano, como o próprio Copom já indicou.

“É difícil ter mudança, a Selic já subiu muito, é a campeã mundial em termos reais. Não acho que está no radar uma Selic a 13%, 13,25%”, diz.Mesmo assim, ele avalia ser importante considerar possíveis alterações nesse cenário, em especial no segundo semestre. A combinação de uma guerra ainda em andamento com as eleições presidenciais seria o “pior dos cenários”, e poderia levar a um nível de inflação que demandasse juros maiores.

Ao contrário das reuniões do BCE e do Fed, o professor diz que o comunicado pós-encontro do Copom será menos importante, já que a tradição no Brasil não é a do chamado “foward guidance”, em que o banco central passa ao mercado a previsão para as próximas reuniões.

Já Ribeiro afirma que apesar de as commodities estarem subindo muito com a guerra, o dólar depreciou em 2022, o que ajuda a estabilizar a inflação. Para ele, uma alta menor que 1 p.p. nesta reunião é pouco provável, mas a Selic corre risco de terminar 2022 acima de 12,25%.

“O Copom pode ir diminuindo a velocidade de alta para perceber o que vai acontecendo. O mais improvável agora com a guerra é cortar a Selic neste ano”, diz.

Além da combinação guerra e eleições, Ribeiro afirma que será importante o “meio do caminho”, com a guerra pressionando os preços dos combustíveis e o governo tentando moderar essa alta.

O próprio Banco Central já avisou, em comunicados, do risco inflacionário dessas medidas devido à perda de confiança do mercado e alta do dólar. Se isso ocorresse, o “estabilizador” da inflação seria perdido, e aí haveria risco de inflação maior, demandando juros igualmente maiores.

Mais Recentes da CNN