Fundos investem em ações de empresas com mais mulheres; falta de opção é gargalo

Bolsa brasileira é relativamente pequena e poucas companhia têm participação feminina relevante na liderança, mas gestores veem avanços

Reunião de executivos em escritório
Reunião de executivos em escritório Rodeo Project Management Software/Unsplash

Juliana Eliasdo CNN Brasil Business

em São Paulo

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Eles ainda podem ser contados no dedo de uma mão, mas têm o trunfo de serem os primeiros de uma tendência que tem todos os sinais de que vem para ficar.

Tratam-se dos primeiros fundos do Brasil que investem apenas em ações de empresas que possuam participação relevante de mulheres em suas lideranças, como diretoras ou conselheiras, ou que tenham políticas consolidadas de diversidade de gênero em seus quadros. São quatro os principais a fazer isso no mercado brasileiro atualmente.

De um lado, há uma demanda crescente de uma parte dos investidores por opções de aplicações comprometidas com os princípios chamados ESG (“meio ambiente, sociedade e governança”, em inglês), e a busca pela igualdade de cargos e salários entre homens e mulheres é um dos pilares dessa agenda.

Do outro lado, porém, mesmo que queiram criar um novo produto com foco em participação feminina, as gestoras de fundos ainda sofrem com a falta de opções no Brasil – seja porque o número de empresas listadas na B3, a bolsa brasileira, é relativamente pequeno, seja porque são ainda pouquíssimas delas que têm um mínimo de mulheres em suas cúpulas.

Só duas das 90 empresas do Ibovespa, por exemplo, têm CEOs mulheres, enquanto 85% das cadeiras dos conselhos de administração são ocupadas por homens, de acordo com um levantamento feito pela Teva Indices para o CNN Brasil Business.

“A quantidade de companhias listadas nos Estados Unidos e outros mercados mais desenvolvidos é enorme, enquanto o Brasil mal tem 400; já começamos com um problema de quantidade”, diz Claudia Yoshinaga, coordenadora do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV).

“Há uma ou outra que são lembradas por fortes presenças femininas, como o Magazine Luiza [que tem o conselho presidido pela fundadora Luiza Trajano], mas, fora essas, o que mais a gente tem?”

Yoshinaga também destaca que, como a amostra é ainda muito pequena no Brasil, também é difícil mensurar o quanto os fundos dedicados a lideranças femininas conseguem de fato ter uma performance melhor do que o mercado tradicional. Em alguns momentos eles se saíram melhores que os índices de referência, em outros se saíram piores.

“Todos têm vontade de saber se é uma estratégia que dá mais dinheiro ou que tem menos risco, mas ainda temos limitação de dados pra conseguir mensurar isso”, diz a pesquisadora.

O fato de serem poucos fundos e ainda com vidas curtas é citado por ela como um limitador. O mais antigo, do Banco do Brasil, é de 2018, e o mais jovem foi lançado na semana passada pelo Safra.

“Também há muita diferença setorial”, acrescenta Yoshinaga. “Empresas de varejo e consumo, por exemplo, têm mais participação de mulheres do que petroleiras ou siderúrgicas, e não dá para separar ainda se as diferenças de desempenho acontecem por conta da política de diversidade dessas companhias ou por efeitos de cada setor.”

Os primeiros

Os dois primeiros fundos que olharam para empresas com lideranças femininas foram lançados pelo Banco do Brasil a seus clientes em setembro de 2018: o BB Ações Equidade e o BB Ações Equidade Private.

Eles aplicam em companhias da bolsa brasileira e também americana comprometidas com políticas de equidade de gênero entre suas lideranças e colaboradores. Magazine Luiza, Vivo, Itaú, B3, Vale e Petrobras, no Brasil, além de Johnson & Johnson, Pepsico e P&G, no exterior, são algumas ações nas carteiras.

De lá para cá, os dois fundos renderam 39% e 41%, respectivamente. No mesmo período, o Ibovespa subiu 51%.

Os fundos especiais do BB, porém, subiram mais que o índice de referência em todos seus três primeiros anos de vida (de 2018 a 2020). Foi em 2021 e 2022, quando as ações de commodities se saíram melhores, que começaram a perder a corrida para o Ibovespa.

Em 2020, foi a vez da XP trazer seu fundo de gênero a mercado, o Trend Lideranças Femininas, disponível para os clientes das corretoras do grupo. Ele replica o SHE, o fundo listado na Bolsa de Nova York (ETF) formado pelas ações das companhias com as maiores proporções de mulheres em seus cargos de gestão.

A decisão por partir direto para o mercado externo se deu justamente pela dificuldade de encontrar variedades de opções no Brasil.

“Lá fora são mais de 3 mil empresas listadas; aqui no Brasil são de 350 a 400 e, na época que criamos o fundo, só 17% delas [menos de 70] tinham pelo menos 2 mulheres no conselho”, conta a chefe de produtos ESG da XP, Beatriz Vergueiro. “Ia ser um produto difícil de diversificar e pouco atraente financeiramente. No SHE, são de 150 a 170 empresas.”

Netflix, Disney, Nike, Coca-Cola e o banco Wells Fargo estão entre as dezenas de companhias que formam o SHE e o fundo da XP.

Desde seu início, em setembro de 2020, até o fechamento de 2021, o Trend Lideranças Femininas rendeu 33%, ante 41% do S&P 500, o índice com as 500 maiores companhias listadas em Nova York. O fundo da XP usa recursos que anulam os efeitos do dólar no preço das ações internacionais investidas, de maneira que as duas variações ficam diretamente comparáveis.

Versão brasileira

Por fim, o mais recente dos fundos brasileiros voltados para lideranças femininas tem duas semanas de vida: trata-se do ELAS11, ETF lançado em 8 de março, dia das mulheres, pelo Safra.

Os ETFs – “fundos negociados em bolsa”, em inglês –, são fundos que costumam replicar índices de referência e podem ser comprados diretamente na bolsa, como ações. Qualquer pessoa pode investir no ELAS11 diretamente na B3.

Ele acompanha o Teva Mulheres na Liderança, uma cesta com 71 ações da B3 criada pela Teva Indices que, à exemplo do norte-americano SHE nos Estados Unidos, reúne as companhias da bolsa brasileira com os melhores índices de participação de mulheres em suas cúpulas. Vivara,  Light, Fleury, Iguatemi e Magazine Luiza são algumas na lista.

“O ELAS11 captou R$ 69 milhões e teve, em nove dias, valorização de 4,9%, enquanto que o Ibovespa subiu 1,18%”, disse ao CNN Brasil Business o chefe do Safra Asset, Ricardo Negreiros, em nota.

Avaliação

Apesar de ser o primeiro passo para um índice de lideranças femininas inteiramente nacional, o Teva Mulheres na Liderança, estruturado há dois anos, também tem que lidar com os percalços de um mercado onde a presença de mulheres ao lado dos chefes homens é ainda minúscula.

Para compor o índice, a Teva criou algoritmos que dão notas a todas as empresas da B3 de acordo com suas proporções de mulheres nas diretorias e conselhos, entre outros critérios de comprometimento com a diversidade de gênero e de liquidez. Entram para a lista aquelas com as notas mais altas.

Atualmente, a maior nota, do Banco Santander, é de 44,6 pontos. De acordo com o sócio-fundador da Teva, Solly Nissim Sayeg, chegam aos 50 pontos as empresas que atingirem 50% de participação de mulheres em todos os seus órgãos de governança, entre os outros critérios, com a pontuação máxima chegando a 100 conforme aumenta a proporção feminina.

Hoje, também de acordo com a base de dados da Teva, só uma das 400 empresas da bolsa brasileira – a varejista Marisa – chegou ao número igual de homens e mulheres em seu Conselho de Administração. E isso não considera os executivos das diretorias.

“De fato, temos um panorama de diversidade ainda muito baixa e, se quiséssemos fazer um índice só com companhias que realmente alcançaram a diversidade seriam muito poucas”, afirma Sayeg. “Por outro lado, estamos vendo avanços.”

Há três anos, diz ele, a proporção de empresas de toda a bolsa brasileira com nenhuma mulher no conselho administrativo era de 60%. Hoje, esse número caiu para 38%.

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