Mercados de TI e dados não param de crescer e ditam profissões do futuro

Enquanto algumas profissões estão desaparecendo, as carreiras do futuro são disputadas por empresas nacionais e internacionais

Programador: já há desequilíbrio entre oferta e demanda por esses profissionais
Programador: já há desequilíbrio entre oferta e demanda por esses profissionais Foto: Arif Riyanto/Unsplash

Estadão Conteúdo

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Wagner Delbaje era piloto comercial e instrutor de voo; Thabata Dornelas se formou em Direito; e Maurício Batista fez faculdade de Engenharia Civil. Do ano passado para cá, os três decidiram dar uma guinada na vida profissional e trabalhar em áreas bem diferentes de suas formações.

Em comum, escolheram vagas que estão na lista das profissões do futuro. Delbaje virou piloto de drone; Thabata, desenvolvedora “front-end” (que faz páginas na web); e Batista, um “business operation” – função que trabalha com a gestão de negócios com base em dados e fatos.

O movimento dos três profissionais atende a um mercado que não para de crescer, sobretudo após a pandemia.

Com a transformação digital acelerada dentro das empresas, algumas funções ganharam mais importância e outras foram criadas. A maioria está ligada, de alguma forma, à tecnologia, seja na análise de dados, no desenvolvimento de programas, no marketing digital ou nas vendas online.

“Essas profissões trazem um viés tecnológico grande e estão ligadas à transformação digital”, diz Fernando Mantovani, diretor-geral da Robert Half Brasil, que acaba de lançar o Guia Salarial 2021 e traz as carreiras do futuro em vários setores.

Muitas delas envolvem a produção, a coleta e a análise de dados em diferentes esferas. São profissões que exigem do candidato um alto nível de interpretação e análise de dados para aplicação no dia a dia das empresas.

A lista da Robert Half inclui funções pouco conhecidas pela população, mas em alta no mercado, como o líder de “live streaming”, que coordena transmissões ao vivo; o “pentester”, responsável pela segurança de dados; e o “people analytics”, que faz a coleta e a análise de dados para gestão de pessoas; além dos desenvolvedores de programas – profissionais que hoje valem “ouro”.

O lado negativo é que já há desequilíbrio entre oferta e demanda por esses profissionais.

Mercado disputa profissionais

Enquanto algumas profissões estão desaparecendo, as carreiras do futuro são disputadas por empresas nacionais e internacionais.

A escassez de mão de obra ligada à tecnologia é um problema que aflige não só o Brasil como todo o mundo. Exemplo disso é que tem sido uma tendência as multinacionais buscarem profissionais de tecnologia no Brasil. Tudo isso ajuda a elevar o salário desses trabalhadores.

Nas profissões mais recentes, a oferta de mão de obra é ainda mais restrita e, em alguns casos, o nível de qualificação abaixo dos requisitos das empresas, diz Leonardo Berto, gerente da operação da Robert Half.

“A agenda de decisões baseada em dados, no nível de hoje, é relativamente nova no País”, completa ele, explicando a escassez de mão de obra.

Além disso, as faculdades não estão preparadas para formar esses profissionais do futuro. Muitas vezes o conhecimento é adquirido em cursos de curto e médio prazos ou quando as empresas praticamente “adotam” o profissional para formá-lo. “Cada vez mais, há uma desconexão com a graduação tradicional.

Currículo e formação não vão vir mais em primeiro lugar numa contratação”, afirma Diogo Forghieri, diretor da empresa de recursos humanos Randstad do Brasil.

Essa tendência tem incentivado os profissionais a se reposicionar, como foi o caso de Thabata Dornelas. Ela fez Direito, influenciada pela família, mas durante o curso já entendeu que não era exatamente naquilo que gostaria de trabalhar. Apesar disso, concluiu a faculdade e entregou o diploma para a mãe.

Foi numa startup que descobriu o gosto pela tecnologia. Durante algum tempo, transitou por várias áreas até começar a notar o trabalho de um colega desenvolvedor. “Fiquei muito interessada no trabalho dele e resolvi fazer um curso de um ano, bem puxado. Com oito meses, consegui um emprego na área”, diz ela, que mora em Belo Horizonte e trabalha em home office.

Para Wagner Delbaje, a mudança representou a recolocação no mercado de trabalho. Piloto comercial e instrutor de voos, ele ficou praticamente sem emprego durante a pandemia.

Mas a notícia de que a agência reguladora havia autorizado testes para delivery por drones o fez se movimentar. Procurou uma empresa de drones, apresentou-se e conseguiu um emprego. “Trouxe a experiência da aviação tripulada para a aviação não tripulada”, disse ele, que se mudou de Piracicaba para Franca para seguir essa nova profissão.

Flexibilidade e atualização são pré-requisitos para carreira em TI

Ser versátil, acompanhar as tendências do mercado e ter uma cultura de constante aprendizado são características essenciais para os candidatos às novas profissões. Para Luciano Montezzo, da 99Hunters, a carreira do futuro é desafiadora.

“Antes, as habilidades não eram tão amplas. Hoje, o profissional precisa conhecer e estudar a fundo vários assuntos. Por isso, as pessoas precisam ser flexíveis para acompanhar o mercado.”

Gustavo Previatto, de 32 anos, é um exemplo dessa mudança provocada pela revolução tecnológica. Formado em Matemática, ele tinha planos de fazer mestrado e se tornar pesquisador ou professor da matéria. Mas sua vida tomou outros rumos quando conseguiu um estágio no Itaú. Ali, teve o primeiro contato com o mundo de tecnologia e dados.

O interesse pelo assunto o levou a estudar mais sobre esse universo. Sozinho, pesquisou materiais disponíveis na internet, aprendeu a programar e conseguiu um trabalho na Empiricus como analista de BI (inteligência de negócios). Hoje, é especialista em “machine learning” – profissional que programa, desenvolve e “treina” máquinas com capacidade de aprenderem de forma autônoma. “Valeu muito a pena mudar de carreira. Eu gosto e pagam bem”, diz Previatto.

Uma característica comum desses profissionais é o desapego e a facilidade em mudar estratégias e o rumo do trabalho. A cientista de computação Daniela Canuta, de 32 anos, pretendia fazer um mestrado, mas largou tudo e foi fazer um curso de big data.

Hoje, ela trabalha na startup Olívia como engenheira de inteligência artificial e de “machine learning”. “Essa é a profissão do futuro, pois quase tudo a máquina consegue fazer. Hoje, o dado é o novo ouro, mas você precisa agregar contexto a ele.”

Maurício Batista, de 29 anos, sabe bem o que é isso. Formado em Engenharia Civil, hoje ele trabalha na análise de dados para resolver problemas das empresas. Ele trabalhou três anos na área de construção civil, com projetos e construção de estações de água.

Com a crise do setor, ele migrou para a área de consultoria de negócios e, hoje, está na Neon na área de operação de negócios.

 

 

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