O que pode impactar o preço das ações da Oi no curto e no médio prazo

Potencial venda dos ativos levou as ações ordinárias da empresa a avançar 60% em junho e 51,6% em julho, mas risco de quedas é grande, alertam analistas

Loja da Oi: empresa de telecomunicações estuda qual a melhor oferta pela área de telefonia móvel
Loja da Oi: empresa de telecomunicações estuda qual a melhor oferta pela área de telefonia móvel

Matheus Prado,

do CNN Brasil Business, em São Paulo*

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A Oi se encontra em um momento decisivo. A tele, que está em recuperação judicial (conhecida pela sigla RJ) desde 2017, lançou um plano de venda de ativos para pagar parte das dívidas e começar a retomada dos negócios. Recebeu duas ofertas superiores a R$ 15 bilhões, valor mínimo que a própria empresa havia estipulado pela sua unidade de telefonia móvel. 

A mais alta delas, de R$ 16,5 bilhões, veio do consórcio formado por suas principais concorrentes, Claro, TIM e Vivo. A outra proposta foi realizada pela Highline, que pertence à empresa americana Digital Colony, que tinha a preferência nas negociações até esta segunda (3). Com o vencimento do primeiro prazo, a empresa deve anunciar ainda nesta semana se mantém o interesse ou desiste.

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Em entrevista exclusiva ao CNN Líderes, o CEO da companhia, Rodrigo Abreu, disse que não considera “hostil” a oferta do trio de concorrentes pela operação de telefonia móvel. “A nossa preferência é pela melhor oferta”, disse Abreu, ressaltando que a empresa, que está em recuperação judicial, precisa dos recursos para pagar os credores.

Até aí, tudo bem. Com a possibilidade de venda dos ativos, os papéis da Oi, desvalorizados nos últimos anos por causa da crise, chegaram a disparar na Bolsa de São Paulo: as ações ordinárias avançaram 60% em junho e outros 51,6% em julho. Vale fazer a ressalva de que a base é baixa, ou seja, as cotações estavam abaixo de R$ 1 antes do movimento recente de valorização.

Mas o negócio tem outras camadas. 

Sócio-fundador e analista de ações da casa de análises Nord Research, Ricardo Schweitzer produziu relatório sobre a situação financeira e de mercado da companhia e explica alguns fatores que podem afetar a forma como o mercado precificará as ações da empresa de telecomunicações.

Plano judicial

A Oi tem uma assembleia com credores que deve ser realizada em agosto para defender a criação de quatro unidades produtivas isoladas (UPIs): redes móveis, torres, data centers e infraestrutura de fibra. O objetivo é segregar os ativos e vender grande parte deles.

Traduzindo: sem que esse passo seja aprovado pelos credores, não existe nem mesmo o leilão. Não existindo leilão, volta tudo à estaca zero. Isso porque, nos moldes atuais do plano de recuperação da empresa, quem compra os ativos acaba assumindo as dívidas das companhia. 

Schweitzer aponta que alguns credores já demonstraram insatisfação com as mudanças que o aditamento poderá trazer ao plano, o que pode ser um complicador. Apesar disso, considera que o movimento deve ser “uma estratégia para negociar melhores condições de recebimento”. “Eles sabem que a chance de a empresa se recuperar sem realizar a venda de ativos é substancialmente menor.”

Ofertas pelos ativos

“As ofertas realizadas pelos ativos da Oi no geral, não só pela telefonia móvel, dão uma maior margem de barganha para a empresa, pois sinaliza que existe interesse de outros players”, explica o analista. “Isso se traduz na concreta execução do plano de recuperação judicial.”

Aqui, é preciso notar dois movimentos. Parte da expectativa por essas possíveis vendas já foi precificada pelo mercado. “Os preços das ações neste caso não têm basicamente nenhuma ligação com a situação atual da empresa”, diz. “O mercado está reagindo, fazendo contas para arbitrar quanto a empresa vai valer caso essas expectativas sejam cumpridas, tanto na venda dos ativos como no novo core business (ou seja, no que vai ser o novo foco de atuação) da companhia.”

Por outro lado, uma possível restrição do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), que terá que aprovar a eventual venda dos ativos de telefonia móvel da Oi para o consórcio de concorrentes, pode ter efeito contrário. “A posição do Cade pode acarretar um movimento mais conservador no mercado, mas isso depende de como estiver o andamento da alienação dos outros ativos”, explica. A venda dos outros segmentos disponíveis para negociação da companhia devem movimentar mais de R$ 7 bilhões, o que pode segurar o caixa por mais tempo.

Resultados do 2º tri

Com a reestruturação em curso, o primeiro trimestre de 2020 trouxe resultados muito ruins para a companhia. A Oi teve um prejuízo líquido consolidado de R$ 6,25 bilhões no primeiro trimestre de 2020, contra lucro de R$ 679 milhões nos mesmos três meses do ano anterior. Além disso, a dívida bruta consolidada cresceu 34,1% e ficou em R$ 24,44 bilhões no período.

O câmbio teve influência decisiva nestes números, já que a empresa possui dívidas em dólar. No segundo trimestre, a empresa deve ter sofrido menos pressão em relação ao câmbio, já que a disparada da moeda americana ficou mais controlada. O que deve ter pesado mais foram efeitos da pandemia do novo coronavírus, afetando resultados da empresa em relação a serviços pré-pagos.

Schweitzer estima que, apesar da expectativa de outro resultado ruim, os números não devem ser fortes o suficiente para desviar a atenção dos investidores da venda dos ativos, que é a bola da vez. “A não ser que venham números absolutamente estarrecedores ou surpreendentemente positivos, a divulgação não deve fazer alteração no preço”, argumenta.

Pessoas físicas

As ações da Oi na B3 estão entre as mais negociadas por pessoas físicas, muito por conta dos preços baixos. Existe uma parcela de acionistas que são da época das linhas de telefone, mas dados mostram que os papéis da empresa atraíram novos investidores nos últimos meses.

“As redes sociais aceleraram a troca de informações, de qualidades diversas, entre os investidores. Isso ajuda a alimentar movimentos para cima e para baixo”, explica Ricardo. “Também gera uma ação especulativa, em que parcela substancial dos investidores nem sabe direito o que está comprando.” Este fator ajuda a explicar as variações bruscas na precificação dos ativos.

O movimento ganhou novos contornos nos últimos dias, quando as ações preferenciais subiram quase 20% enquanto as ordinárias caíram. Isso fez com que corretoras avisassem seus investidores que o aluguel de ações OIBR4 estava indisponível. “As ações preferenciais têm muito menos liquidez, então os investidores começaram a alugar estes papéis para comprar os ordinários”, explica.

Diagnóstico

Como visto acima, diversos fatores podem influenciar a precificação dos papéis da Oi nos próximos tempos. Em seu último exercício para avaliar o potencial dos ativos, Schweitzer estimou que o preço-alvo deve estar entre R$ 2 e R$ 3,10. A oferta mais alta pela operação de telefonia móvel da companhia ainda era de R$ 15 bilhões quando o relatório foi escrito.

As ações encerraram a segunda-feira (3) negociadas a R$ 2,63, depois de uma queda de 13,2% no primeiro pregão de agosto. 

(Com informações de Raquel Landim)

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