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    Para combater a inflação, Brasil já passou por seis trocas de moeda; entenda

    Real completa 28 anos nesta sexta-feira (1º); especialistas destacam consolidação da moeda

    Pedro Zanattado CNN Brasil Business

    em São Paulo

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    “Ao invés de surpreender o povo, vamos explicar o que é a inflação e como vamos combatê-la, passo a passo”. Foi assim que o ex-presidente e ex-ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, definiu, em entrevista à Veja, em 2009, a estratégia por trás do lançamento da nova moeda, o real, em 1° de julho de 1994.

    A moeda, que completa 28 anos nesta sexta-feira (1°), teve um papel crucial quando idealizada, o de tentar conter o descontrole da inflação que corroía a renda dos brasileiros desde os anos 70.

    Antes de sua chegada, o Brasil passou por seis trocas de cédulas, entre várias reformas monetárias.

    Brasil passou por seis trocas de cédulas, entre várias reformas monetárias / Arte/CNN

    As seis trocas

    Cruzeiro (1970 – 1984)

    Até o ano de 1970, a moeda vigente no Brasil era o Cruzeiro Novo, que havia sido implementado no ano de 1967. Naquele momento, o país já enfrentava um processo inflacionário.

    O governo de Emílio Garrastazu Médici (1969-1974) concluía uma reforma monetária que havia sido iniciada em 1967. A partir do dia 15 de maio de 1970, foi colocada a nova cédula em circulação, o Cruzeiro.

    O doutor em História Econômica e professor do Insper Vinícius Müller explica que a política de 1967 fez parte de um pacote de reorganização da economia brasileira proposto pelo governo militar.

    “Fundamentalmente, estão lidando com uma inflação que foi gerada na década anterior, estavam sofrendo com os reflexos dela”, afirmou.

    O processo inflacionário herdado pelo governo militar possuía duas causas principais. A primeira delas foi o forte aumento dos gastos públicos. Segundo o professor, esse descuido com as contas públicas ocorre entre o governo de Juscelino Kubitschek e de João Goulart.

    O segundo fator foi a diminuição da capacidade produtiva brasileira. Até então, o país seguia um alto ritmo de produção de bens, mas que não se sustenta durante a primeira metade da década de 60. Dessa maneira, ocorre uma queda na oferta de produtos.

    “Nossa economia era parcialmente fechada, uma característica da época, não exclusiva do Brasil. Logo, a combinação de gastos públicos exagerados com a queda de produtividade, fazia com que faltassem produtos e com que a inflação crescesse”, explica Müller.

    A nova cédula permaneceu em circulação até o ano de 1986, quando a inflação voltou a atingir índices altos para a época, de até 16,2% ao mês. Como solução, o governo do então presidente José Sarney (1985-1990) concebeu um dos planos que ficaria marcado na memória dos brasileiros, o Plano Cruzado.

    Cruzado (1986 – 1989)

    Os motivos para a continuidade dos altos índices inflacionários eram os mesmos: uma economia desorganizada, com gastos exagerados por parte do governo federal – principalmente pela realização de obras que demandavam altos investimentos -, além da dívida externa do país que aumentou exponencialmente durante o governo militar.

    O objetivo com a nova moeda era realizar um corte de três zeros para facilitar as contas e transações. Müller diz que a quantidade de zeros presentes estava prejudicando a confiabilidade do Cruzeiro por parte da população, sentimento que acaba se alastrando para o governo.

    O grande problema do Plano Cruzado, segundo o especialista, foi a implementação abrupta feita por Sarney, sem uma comunicação clara, o que resultou em um sentimento, por parte dos brasileiros, de que estariam perdendo poder de compra com a nova moeda.

    “O exemplo mais clássico, com a mudança para o Cruzado, foram as tabelas de preços que eram estabelecidas para evitar que os valores dos produtos subissem – o tabelamento de preços. Sarney percebeu, na mudança da moeda, que a sensação para o público era de que tinham perdido dinheiro”.

    Dessa maneira, muitos comerciantes e empresas começaram a esconder mercadorias e vendiam em uma espécie de “mercado paralelo” para cobrar um preço mais alto, o chamado “ágio”. Caso os consumidores estivessem dispostos a pagar a mais, o comerciante realizava a venda.

    A população então começa a reivindicar o aumento de salários. Essa pressão vai sair do controle do governo até o momento em que a reivindicação é atendida. O governo em 86 estava muito preocupado com esse tema, pois poderia gerar essa crise de credibilidade e, além disso, também poderia impactar nas eleições que ocorreram no final daquele ano.

    “Existia o interesse político em segurar, ainda que artificialmente, os preços para não gerar uma desconfiança maior, uma insatisfação da população e, portanto, comprometer os partidários do governo”, explica Muller.

    Cruzado Novo (1989 – 1990)

    No ano de 1988, a inflação acumulou de maneira exponencial, alcançando 264,11% em 12 meses. Em mais um tentativa de cortar zeros da moeda, o governo lança o Cruzado Novo, que dura apenas um ano.

    O plano também não mostrou resultados e permaneceu até a eleição de Fernando Collor de Melo, em 1990. A partir de então, o então presidente eleito já estaria planejando os próximos passos para tentar combater a escalada dos preços.

    Cruzeiro (1990 – 1993)

    Como um dos primeiros atos de seu governo, Collor realiza o confisco dos ativos dos brasileiros, o Plano Brasil Novo, mais conhecido como Plano Collor e anunciado pela então ministra da Fazenda, Zélia Cardoso de Mello.

    O confisco se dava da seguinte forma: 80% de todos os depósitos, das contas correntes ou das cadernetas de poupança que excedessem a 50mil cruzados novos seriam congelados por 18 meses.

    A equipe econômica imaginava que um choque na oferta de dinheiro, somado à nova mudança da moeda, que sofre nova alteração e retorna a ser chamada de Cruzeiro, impactaria em uma queda imediata da inflação.

    Em um primeiro momento existe uma queda na inflação, mas que não se sustenta por mais de um mês. O plano foi implementado em março de 1990, quando o país registrava uma inflação de 82,39% em 12 meses.

    Em abril, o IPCA cai para 15,52% e, em maio, alcança 7,59%. No entanto, os resultados voltam a subir nos meses seguintes, até que em 1993, o saldo mensal já encostava nos 38% ao mês.

    Cruzeiro Real (1993 – 1994)

    Já em 1993, já com o governo de Itamar Franco, após a renúncia de Collor em meio ao processo de impeachment, os índices do IPCA não dão trégua aos brasileiros. O acumulado, em 12 meses, no ano de 1992 foi de 278,23%. Dessa maneira, o governo realiza a quinta troca de moeda brasileira desde os anos 70.

    Sem grandes novidades, a nova moeda, o Cruzeiro Real, implantada tinha como fundamento o corte de “zeros” em relação a moeda anterior, o Cruzeiro, de modo que um cruzeiro real valeria um mil cruzeiros.

    A nova cédula entrou em circulação em agosto daquele ano, momento em que o ministério da Fazenda já era comandado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que havia assumido o posto em maio daquele ano.

    Para Vinícius Müller, Se a criação do cruzeiro real pode ser vista, por um lado, como mais uma tentativa de reorganização monetária em nome do combate a inflação, por outro foi importante para a criação da URV (Unidade Real de Valor) em 1994. E, portanto, ao Real também em 1994.

    O especialista avalia que a mudança, em princípio não foi pensada com esse objetivo de facilitar a adoção da URV, mas foi um efeito secundário, uma vez que, em última instância, o sistema monetário foi atualizado.

    Com um curto período de existência, o Cruzeiro Real permanece em circulação até o ano de 1994, quando a moeda é recolhida na troca pelas novas cédulas do padrão Real.

    Naquele momento, Fernando Henrique já havia formado a equipe econômica que planejaria o Plano Real. O então ministro reuniu um grupo de economistas, dentre eles Persio Arida, André Lara Resende, Francisco Lopes, Gustavo Franco, Pedro Malan, Edmar Bacha e Winston Fritsch.

    Plano Real (1994 – atual)

    No ano de 1994, o próximo plano começa a ter suas fases de implementação pensadas. A dificuldade para combater a inflação continuava alta, assim como o índice que, em 1993, atingiu, em 12 meses, 375,79%.

    Ainda em 1994, o então ministro FHC renuncia ao cargo para se candidatar à Presidência. Como substituto, o então ministro do Meio ambiente, Rubens Ricupero, assume o posto e se torna o coordenador da implantação do Plano Real.

    Enquanto Sarney e Fernando Collor haviam tentado ações abruptas que antecipassem e surpreendessem a economia brasileira, a equipe responsável pelo Plano Real teve a preocupação em anunciar todas as ações com antecedência, explicitando e explicando todos os passos, desde os ajustes fiscais, passando pela adoção da Unidade Real de Valor (URV) até finalmente a troca efetiva da moeda em circulação.

    A URV foi o primeiro passo para que o Real fosse posto em circulação, da forma gradual como o governo planejava. Nada mais era do que uma moeda escritural para todas as transações econômicas, uma forma de fazer com que as pessoas se adaptassem ao novo padrão que viria a ser estabelecido.

    Ou seja, através dela a população poderia converter contratos para a nova unidade, por exemplo. Experimentando a nova moeda e observando seu funcionamento no dia a dia.

    A unidade foi utilizada até o dia 1° de julho, quando houve a conclusão do plano de estabilização e a efetivo lançamento do Real como a nova moeda brasileira que se tornou o padrão monetário mais duradouro desde o período colonial.

    Mesmo com uma comunicação transparente, o Plano Real enfrentou descrença por parte de alguns setores da mídia e políticos. Segundo o ex-ministro Rubens Ricupero a confiança do presidente Itamar Franco na equipe econômica possibilitou uma maior liberdade para concretizar o objetivo.

    “Ele [Itamar] não acreditava que daria certo sem o tabelamento de preços, tinha a mania do Plano Cruzado, de congelamento de preços, precisei convencê-lo. Embora tivesse uma desconfiança, ele nos deu crédito para que fosse possível levar até o fim nosso plano”.

    Desafio atual

    O Brasil se encontra hoje com um novo desafio relacionado à inflação. Segundo o último dado divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) – que mede a inflação oficial do país – desacelerou a 0,47% em maio.

    No entanto, no ano o indicador acumula alta de 4,78% e, nos últimos 12 meses, de 11,73%, abaixo dos 12,13% observados nos 12 meses imediatamente anteriores.

    Ricupero explica que o país tem um novo desafio, no entanto, ele pontua que os fatores para a atual inflação diferem daqueles que existiam no passado.

    “O Brasil vinha de, pelo menos, 30 anos de inflação persistentemente alta, que ameaçava virar hiperinflação. Precisamos lembrar que a inflação presente não atinge apenas o Brasil, é um fenômeno global”.

    Contudo, o ex-ministro alerta para a persistência de aumento do IPCA. Segundo ele, quanto maior a duração da inflação, mais difícil se torna o desafio de controlar o índice.

    “É mais difícil combater por conta das expectativas, pois cria-se a expectativa de que ela vai continuar alta, fenômeno psicológico com o qual as medidas não tem efeito”, diz Ricupero.

    Daqui para frente

    Especialistas dizem que, apesar de estarmos diante de um novo ciclo inflacionário, não existem perspectivas para um debate sobre uma troca no padrão monetário. O economista e professor da FGV Mario Rubens lembra que não existe cenário para que os atuais níveis de inflação alcancem os números que eram vistos nas décadas anteriores ao Plano Real.

    Rubens Ricupero também não enxerga cenário para tal possibilidade. Para ele, tivemos várias mudanças de padrão monetário, finalmente, após todas as tentativas e erros, se conseguiu acertar com o plano real. Agora a situação não é comparável, é um surto inflacionário que está crescendo muito no mundo, não só aqui.

    O professor do Insper Vinícius Müller lembra que a própria inflação também é uma das causas para o aumento dos gastos públicos.  Ele lembra que a inflação está aumentando, dificuldades internas dos países, muita pressão para aumentar os gastos do governo e, portanto, a tendência é que o problema volte, mas não na mesma dimensão que vimos nos anos 80.

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