Pré, pós-fixado ou IPCA: com juros subindo, como investir na renda fixa

Os três tipos de títulos podem entrar na carteira neste momento, cada um com vantagens e riscos a serem considerados

Selic está atualmente em 6,25% e deve subir para perto de 8,5% até início de 2022
Selic está atualmente em 6,25% e deve subir para perto de 8,5% até início de 2022 Pexels

Juliana Eliasdo CNN Brasil Business

em São Paulo

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Com a Selic, a taxa básica de juros do país, voltando a subir, depois de uma temporada de alguns anos em baixa, os investimentos em renda fixa voltam a ficar um pouco mais atraentes.

Escolher um título de renda fixa, porém, também envolve ter que decidir entre diferentes opções de remunerações e prazos, que podem ser mais ou menos vantajosos conforme os cenários de juros e de inflação do país mudam.

Os prefixados – aqueles que têm juros fixos e sempre iguais até o fim da aplicação – e os pós-fixados – que têm os juros atrelados à Selic ou ao CDI e variam conforme eles sobem e descem – são as principais opções de títulos como CDBs, LCAs, LCIs e LCs. O CDI é uma taxa de juros do sistema bancário que anda colada à Selic.

Além destas duas opções, há também os títulos com a remuneração atrelada à inflação, umas das principais opções do Tesouro Direto e comum também nas debêntures, que são títulos de dívida das empresas, também de renda fixa.

Como a Selic está subindo, o consenso diz que os títulos prefixados começam a perder atratividade – porque, nos meses à frente, tendem a surgir novos títulos com juros fixos mais altos.

Por outro lado, a mesma rota de Selic em alta tende a tornar os pós-fixados mais vantajosos, porque a remuneração deles vai ficar maior junto.

Juros subindo também significam, na teoria, que a inflação, hoje alta, comece a ceder em algum momento no ano à frente, o que poderia enfraquecer os títulos atrelados aos índices de preços.

Mas, no mar de incertezas por qual navega o cenário político e fiscal do Brasil, nenhuma resposta é tão simples. Gestores consultados pelo CNN Brasil Business apontam para caminhos em que os três tipos de títulos podem entrar na carteira, cada um com vantagens e riscos a serem considerados.

Pós-fixados

Nos bancos, os títulos pós-fixados oferecem uma porcentagem do CDI como remuneração. Para uma Selic de 6,25% ao ano, como hoje, o CDI fica em torno dos 6,15%. Um CDB, LCA ou LCI, por exemplo, que ofereça 110% do CDI, pagaria 6,77% em um ano (110% de 6,15%).

Como, porém, a Selic e o CDI estão em franco aumento, essa remuneração também deve ir crescendo ao longo da aplicação.

A projeção de analistas é que a Selic continuará subindo até chegar por volta dos 8,5% no começo do ano que vem – levando o CDI anualizado a 8,4%. Os mesmos 110% do CDI, então, já estarão valendo o equivalente a 9,24% (110% de 8,4%).

Essa porcentagem oferecida varia de acordo com o banco e os prazos de vencimento do título.

No Tesouro Direto, a única opção de título pós-fixado é o Tesouro Selic, que remunera sempre exatamente a Selic, sem adicional. Por esta razão, é menos recomendado para investimentos de longo prazo, já que é possível encontrar CDBs e outros títulos privados pagando mais em proporção ao CDI.

“Acreditamos que o retorno ajustado ao risco dos papéis pós-fixados segue mais interessante que o dos títulos prefixados”, disse Renato Iversson, gestor da gestora de patrimônios Taler.

O cenário atual favorece essa alocação porque o Banco Central deve continuar subindo a Selic para ancorar as expectativas inflacionárias, que seguem piorando para 2022

Renato Iversson, da Taler

Por outro lado, Mario Kepler, sócio da Portofino Multi Family Office, pondera que os prêmios desses títulos em relação ao CDI estão baixos para o nível esperado de juros, o que enfraquece a sua atratividade.

“Mesmo nos bancos médios está difícil encontrar CDBs pagando mais do que 114% do CDI, o que não é um nível de retorno muito entusiasmante”, disse.

Para o CDI chegando, por exemplo, aos 8,5%, isso significa um ganho anual de 9,69%, enquanto há hoje no Tesouro Direto opções prefixadas que estão oferecendo juros de mais de 10%.

Prefixados

Os títulos prefixados têm os juros definidos no momento da aplicação e eles não mudam até o dia do resgate, independentemente do que acontecer no mercado.

De toda maneira, Selic baixa leva à emissão de títulos prefixados novos com juros mais baixos, enquanto Selic alta leva a novos títulos com juros fixos também mais altos.

“Normalmente, o melhor momento para comprar títulos pré é quando o Banco Central está fazendo cortes de juros, e não subindo, como agora”, diz Kepler, da Portofino.

Quem comprou, por exemplo, um título prefixado quando a Selic estava acima dos 14%, em 2016, “travou” os juros de seus títulos nesse nível enquanto a Selic engatou em anos de quedas até despencar aos 2%, no ano passado.

“Mas achamos que os ativos prefixados já estão com muita coisa embutida no preço e estão com um prêmio adicional bastante interessante”, afirma Kepler.

Com temores persistentes dos investidores quanto ao descontrole dos gastos e da dívida do país, os juros futuros negociados no mercado subiram muito rápido e obrigaram o Tesouro a oferecer remunerações mais altas para conseguir vender seus títulos públicos.

O resultado é que os títulos públicos prefixados atuais já estão pagando mais de 10%. O mais longo deles, com vencimento em 2031, já remunera 11%, ou quase o dobro da Selic atual (6,25%). As remunerações mudam diariamente e podem ser checadas na página do Tesouro.

Para Kepler, já são remunerações atraentes e seria difícil imaginar que possam subir mais, mesmo com a Selic ficando maior. Como, porém, há muita incerteza no ar, é difícil cravar o que vai acontecer.

É uma opção mais indicada para quem pode levar a aplicação até o vencimento, e com prazos curtos, de três ou máximo quatro anos

Mario Kepler, da Portofino

Atrelados à inflação

Comuns nos títulos públicos, são ativos que pagam o IPCA, índice oficial de inflação, do período, acrescida de uma porção prefixada de juros.

As opções atuais do Tesouro Direto, por exemplo, vão de IPCA + 4,8% a IPCA + 5,11% ao ano. Ou seja: eles misturam uma porção pós-fixada, que vai variar ao longo do tempo (o IPCA), e outra pré, que é a taxa fixa adicional.

Continuam sendo os preferidos dos gestores para os investimentos de longo prazo, justamente porque, como já embutem a inflação na remuneração, não correm nunca o risco de perder para ela em algum momento.

Além disso, os juros fixos adicionais atuais, de 4% a 5%, estão também bastante generosos na visão dos gestores, pressionados pelo mesmo temor de risco fiscal que obrigou o Tesouro a puxar suas remunerações para cima.

Os papéis indexados à inflação além de carregarem prêmios de risco bem relevantes, devem proteger o capital dos investidores em cenários de inflação mais adversos

Renato Iversson, da Taler

“Esse ano acabou sendo emblemático de como o Brasil continua sendo um país onde sempre há algum estresse inflacionário”, diz Kepler, da Portofino. “Então os ativos indexados à inflação continuam sendo importantes para compor a carteira e permitem alongar mais os prazos, porque têm essa proteção do IPCA.”

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