Produtores de São Paulo e Minas são os mais dependentes de fertilizante russo

Mais de um terço das importações do insumo nesses estados vem da Rússia, diz estudo

Iuri Pittada CNN

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São Paulo e Minas Gerais são os dois estados brasileiros com maior dependência de fertilizantes importados da Rússia, de acordo com estudo do Instituto Pensar Agropecuária (IPA), vinculado à Frente Parlamentar Agropecuária (FPA), a partir de dados levantados pela Esalq-Log (Grupo de Pesquisa e Extensão em Logística Agroindustrial da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” da USP).

Nas duas localidades, o país alvo de sanções internacionais motivadas pela invasão à vizinha Ucrânia responde pelo envio de mais de um terço do insumo agrícola utilizado por produtores paulistas e mineiros.

De acordo com o levantamento obtido pela CNN, São Paulo é o estado mais dependente de fertilizantes vindos da Rússia, com 35,9% do volume de insumos importados pelos produtores paulistas em 2021. Em Minas Gerais, esse percentual foi de 33,1%. Outros três estados apresentam dependência relevante de fertilizantes russos: Mato Grosso (20%), Paraná (19,8%) e Rio Grande do Sul (15%).

Esses cinco estados respondem por 68% de toda a importação de fertilizantes pelo Brasil. No ano passado, o Brasil comprou de outros países 41,6 milhões de toneladas desse insumo, dos quais a Rússia foi o principal fornecedor, com 22,3% desse volume (9,3 milhões de toneladas), seguido por China (15,2%, ou 6,3 milhões de toneladas) e Canadá (10%, ou 4,2 milhões de toneladas). Em quinto lugar está Belarus, outro país alvo de sanções internacionais, com 5,8% (2,4 milhões de toneladas).

O impacto da guerra na Ucrânia sobre o mercado mundial de fertilizantes e as consequências para o agronegócio brasileiro estão na lista de prioridades do Ministério da Agricultura e da Frente Parlamentar Agropecuária. A ministra Tereza Cristina tem viagem agendada para o Canadá, para negociar a ampliação do fornecimento desse insumo para o Brasil. Integrantes da FPA, incluindo o presidente da bancada, deputado Sergio Souza (MDB-PR), vão acompanhar a ministra na viagem oficial.

Em entrevista à CNN, Tereza Cristina afirmou que o Brasil tem “estoque de passagem para chegar até a próxima safra, em outubro”.

Além das graves consequências provocadas pela guerra no mercado de fertilizantes, o presidente da FPA destaca que o setor já havia sofrido “aumentos abusivos de até 300% em dólar” nos últimos meses.

“Essa situação nos preocupa muito. O Brasil já tem muitos contratos firmados com fornecedores da Rússia para a safra verão, que começamos no segundo semestre, e até para a safra 2023”, explicou Sergio Souza. “Tudo isso pode acarretar custo para o produtor rural e, consequentemente, refletir no alimento que chega à mesa dos brasileiros.”

De acordo com o estudo do IPA, são três os impactos da guerra na Ucrânia sobre o agronegócio brasileiro:

1) Restrição no Swift: O Sistema Swift é responsável pela realização e cumprimento de contratos financeiros no mundo todo. A restrição sofrida pela Rússia pode impedir que os bancos russos façam operações de compra e venda por meio do sistema. Nesse sentido, os contratos de compra e venda de fertilizantes, por exemplo, podem ser dificultados pela insegurança nas transações;

2) A instabilidade gera custos: desde o início do conflito na Ucrânia, commodities como gás natural, petróleo, trigo, milho (com grande potencial para afetar ainda mais a produção de proteínas no Brasil), entre outras, tiveram valorizações exponenciais causadas pelas incertezas à situação conflituosa;

3) Diminuição na oferta de grãos: a Ucrânia é o 5º maior produtor de milho no mundo e o 6º de trigo. A instabilidade tende a criar uma ansiedade no mercado, elevando o preço desses dois grãos no mercado mundial. No caso do milho, setores como o de produção de aves e suínos, que já enfrentam dificuldades por causas dos altos preço anteriores ao conflito, ficam ainda mais fragilizados.

Na avaliação do IPA, “ainda é cedo para um prognóstico sobre os reais impactos que a guerra na Ucrânia exercerá sobre as importações brasileiras de fertilizantes e até mesmo no agro como um todo”. “No entanto, se as sanções (de forma geral) se estenderem no tempo, a situação se tornará preocupante, em razão dos seus efeitos secundários, como as dificuldades relacionadas a pagamentos, fretes e preços de alimentos”, aponta o documento.

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