Senadores começam mobilização para que nova estatal nuclear ENBpar fique no RJ

Carlos Portinho (PL-RJ) quer manter gestão de ativos da Eletronuclear no estado que abriga as duas usinas brasileiras

Complexo de energia nuclear de Angra dos Reis, RJ
Complexo de energia nuclear de Angra dos Reis, RJ 31/08/2011REUTERS/Ricardo Moraes

Stéfano Sallesda CNN

no Rio de Janeiro

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Começa uma mobilização na bancada do Rio de Janeiro no Senado para evitar que a nova estatal ENBpar, que reunirá os ativos da Eletronuclear e de Itaipu Binacional, fique em Brasília.

O movimento acontece porque as duas companhias que terão seus espólios assumidos pela nova empresa ficam em estados diferentes: Rio de Janeiro e Paraná, onde concentram suas operações.

O senador Carlos Portinho (PL-RJ) destaca que toda a operação da Eletronuclear, subsidiária da Eletrobras, está no Rio de Janeiro, estado que, além de abrigar a sede da empresa, sedia as duas únicas usinas do projeto nuclear brasileiro: Angra 1 e 2.

O complexo abrigará ainda a unidade de Angra 3, que está 65% concluída e tem inauguração prevista para 2026.

O governo criou esse ano a Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN), uma autarquia que ficará sediada no Rio de Janeiro, produto da divisão da Comissão Nacional de Energia Nuclear.

Portinho entende que, assim como a ANSN, a sede da ENBpar ficar no Rio de Janeiro é uma necessidade nacional.

“Não vejo sentido nenhum em essa sede ir para Brasília. Os empregados são da Eletrobras e devem ficar no estado. Há também uma questão de segurança nacional. Não faz sentido uma empresa nuclear ficar em Brasília, o telefone vermelho tocar e todos estarem reunidos lá. É uma questão nacional, não há nenhum bairrismo nisto”, afirma o senador.

A criação da nova estatal é parte do processo de privatização da Eletrobras, que não contemplará a operação nuclear brasileira e a participação brasileira na gestão da usina hidrelétrica de Itaipu.

Na bancada fluminense, Portinho já obteve o apoio do senador Romário (PL-RJ) e tenta o de Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) para garantir que a nova estatal fique no estado, assim como ocorreu com a ANSN.

Ele já se reuniu com a ministra da Secretaria de Governo da Presidência da República, Flávia Arruda, e busca agora conversar com o ministro de Minas de Energia, Bento Albuquerque.

“Estou buscando uma audiência com o ministro para tratar do tema. Tenho certeza que até o presidente Jair Bolsonaro desconhece o assunto, tendo em vista que um dos principais lemas do governo é mais Brasil e menos Brasília. O mesmo vale para Itaipu. O mais natural seria que fossem feitas duas empresas, sediadas nos locais das operações”, avalia Portinho.

O principal desafio da Eletronuclear é a conclusão de Angra 3. Com a construção iniciada em 1984, já consumiu R$ 8 bilhões e a previsão é que demanda pelo menos outros R$ 15 bilhões para ser terminada.

A unidade é percebida como estratégica pelo Ministério de Minas e Energia porque vai gerar eletricidade para a área que mais a consome no país, uma vez que ficará situada entre as capitais de Rio de Janeiro e São Paulo.

Fachada da sede da Eletrobras
Fachada da sede da Eletrobras / REUTERS

Mão de obra

Outro ponto encarado como preocupante na transferência da gestão dos ativos da Eletronuclear para a ENBpar sediada em Brasília é a formação de mão de obra especializada para lidar com a energia nuclear.

No estado, ela está concentrada no curso de Engenharia Nuclear da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), um dos poucos do gênero no país, que só oferece a formação semelhante em São Paulo e no Recife.

Ex-presidente da Eletrobras e professor do curso de Engenharia Nuclear da UFRJ, o físico Luiz Pinguelli Rosa entende que a transferência pode ser prejudicial para o estado e para o país.

Atualmente, a Eletronuclear tem 1.642 empregados no Rio de Janeiro. Deste total, 371 na sede, na capital do estado, e 1.271 em Angra dos Reis, além de contratados e terceirizados.

“É perda de receita de empregos qualificados. A Eletronuclear cuida dos reatores de Angra e das Indústrias Nucleares do Brasil (INB). Há uma relação de projetos de estudo em que a Eletronuclear solicita o apoio do curso, que fica sediado na Coppe. Em Brasília não há nada, é um deserto nuclear, há apenas uma burocracia do estado”, avalia Luiz Rosa.

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