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    Criptomoeda como garantia de crédito: conheça riscos e facilidades da operação

    Especialista alerta para falta de regulamentação do mercado e risco de operação, enquanto simplificação do processo de acesso ao crédito é facilidade

    Rispar aceita bitcoins como garantia
    Rispar aceita bitcoins como garantia Kanchanara/ Unsplash

    Artur Nicocelido CNN Brasil Business

    Em São Paulo

    O universo blockchain e das finanças descentralizadas (Defi) deu origem a uma nova modalidade de garantia de crédito: as criptomoedas. Segundo especialistas ouvidos pelo CNN Brasil Business, a simplificação do processo de acesso ao crédito e a falta de regulamentação do mercado estão entre as vantagens e os riscos para quem recorre a esse tipo de empréstimo.

    No sistema tradicional de crédito —que em janeiro deste ano totalizou R$ 4,7 trilhões de saldo, segundo o Banco Central—,  um empréstimo é concedido mediante uma garantia, seja ela imobiliária, com possibilidade de penhorar (como joias) ou um bem, que é transferido para o credor até que a dívida seja paga.

    A professora do Insper, Tatiana Revoredo, afirma que a primeira grande diferença entre os empréstimos bancários e os realizados em DeFi é a quantidade de documentos exigidos antes do empréstimo.

    As instituições financeiras costumam solicitar documentos de identidade, comprovante de endereço, de renda, de emprego, detalhes do seguro social, além da pontuação de crédito. Enquanto o pedido em plataformas de finanças descentralizadas é necessário apenas a criação de uma conta, “sem a necessidade de pilhas de documentos”, segundo a professora.

    Um sistema de empréstimo DeFi é chamado de Secrured Automated Lending (SALT), e, para se cadastrar, basta comprar um token nativo do programa —aquele usado nas operações de uma determinada rede, como o ether do blockchain ethereum.

    Entre as vantanges do modelo, segundo a professora do Insper, está a ausência de taxas bancárias, comissões ou encargos, de comprovantes de renda.

    “A disponibilidade de crédito para aqueles com nenhuma ou baixa classificação de crédito são outras vantagens do SALT”, diz Revoredo. “Além de ser aberto para todas as pessoas, mesmo aqueles que não tem endereço físico ou conta bancária”.

    Por outro lado, Josilmar Cordenonssi, professor de economia do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas (CCSA) da Universidade Mackenzie, recomenda muita cautela com as criptomoedas, “devido ao alto risco que elas representam”.

    Para ele, pode valer a pena somente se a taxa de juros for baixa e ele já tiver criptomoedas para dar em garantia. Mas, segundo Cordenonssi, o tomador de crédito terá um risco elevado com uma possível alta do valor de mercado de criptomoeda.

    O professor também afirma que há uma vantagem aparente de ser menos burocrático e mais barato, mas isto se deve ao fato de não estar sob a regulação do Banco Central.

    “Apesar de se ter este nome de ‘descentralizado’, o risco do sistema depende da empresa que efetua a custódia, que, em última instância, é a garantidora dos empréstimos. [Mas, no final], elas têm os mesmos riscos dos bancos, mas sem as garantias do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) que só as instituições financeiras podem prover, pois, estão sob a regulação do Banco Central”, explica o professor.

    Par ele, essas ‘finanças descentralizadas’ são uma volta ao passado, em que o risco era maior.

    Como saída, ele sugere que se o tomador tiver criptomoedas para dar 100% em garantia, talvez fosse mais interessante apenas vender os ativos digitais e obter um retorno financeiro no mercado de compra e venda.

    Mercado

    A MakerDAO é hoje a principal plataforma de empréstimos descentralizados do mundo, com mais de 50% de domínio do mercado, segundo o site Defi Pulse. E, de acordo com Caio Vicentino, embaixador da MakerDAO no Brasil, eles apenas copiaram e “desintermediaram o sistema financeiro tradicional”.

    Uma das diferenças entre as instituições financeiras e a companhia é que os tomadores de crédito recebem a criptomoeda DAI, ao invés de uma moeda real. Ou seja, uma pessoa consegue oferecer uma quantidade de ether como garantia, por exemplo, e receber um valor menor de DAI. Sempre o valor oferecido como garantia precisa ser maior que o solicitado como empréstimo.

    O índice de garantia do ether é 150%, ou, em outras palavras, depositar US$ 150 em ether permite que se tome emprestado até 100 DAI.

    O ativo digital DAI procura manter seu valor o mais próximo possível do dólar; na quarta-feira (9), a criptomoeda equivalia aos exatos US$ 1. E, após receber o token nativo do programa, é possível transformar a moeda digital em dólar e utilizar o dinheiro normalmente.

    Como garantia, a MakerDAO aceita aproximadamente 30 criptoativos para serem usados como garantidor de crédito. Porém, se o valor de uma moeda digital se desvalorizar após ser emitido o DAI, o empréstimo será liquidado automaticamente. Por outro lado, se o valor aumentar, serão adicionados DAI à carteira de quem pediu o crédito.

    Ao tomar um empréstimo, uma dívida também é aberta até que se pague todo o valor. E, com ela, ficam correndo juros anualizados de 2,5%. Ao final da quitação, são liberadas todas as garantias —como um empréstimo em banco tradicional.

    Para Vicentino, o desafio é as pessoas aprenderem mais sobre a tecnologia blockchain e o DeFI para se sentirem mais seguras a ponto de usarem ferramentas como os empréstimos descentralizados.

    Veja abaixo o TVL (Total Value Locked, ou Valor Total Bloqueado) da MakerDAO nos últimos 30 dias. A medida é usada para saber a soma de todos os valores financeiros presentes em uma plataforma, tanto na capacidade de concessão de crédito, endividamento e transação.

    Outra companhia que também aceita criptomoedas como garantia é a Rispar. Mas, diferentemente da MakerDAO, ao solicitar um empréstimo, o valor recebido já é em reais, não em outra moeda digital, e apenas o bitcoin é usado como segurança.

    Rafael Izidoro, CEO da Rispar, explica que a escolha por adotar apenas uma cripto é porque o “ativo se consolidou nos últimos anos e se aproximou de seu fundamento de reserva de valor e de proteção contra a inflação”.

    Na plataforma também é possível assinar uma “garantia protegida” em que o tomador de crédito recebe um aviso caso o bitcoin se desvalorize. E as taxas de juros cobradas variam de acordo com o montante que alguém necessita e o período que gostaria de pagar a dívida.

    Até o momento, a Rispar tem dois tipos de clientes: os que possuem ticket médio em torno de R$ 150 mil e os com ticker médio inferior a R$ 10 mil.

    “O primeiro tipo são investidores de longo prazo que utilizam das linhas de crédito para realizarem projetos que necessitam de reais, como investir em imóveis, em seus negócios ou ainda consumir bens duráveis [como automóveis]”, explica Izidoro.

    “E o segundo tipo de cliente são os que utilizam a linha de crédito para reestruturar outras dívidas mais caras, consumir ou investir em outros ativos, incluindo criptomoedas em momentos de baixa”.

    Dessa forma, todos os investidores de criptomoedas têm direito às linhas de crédito.

    Para o segundo trimestre de 2022 está previsto o lançamento de uma nova fase, em que outras criptomoedas deverão ser recebidas como garantia.