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    Após 2ª alta seguida, serviços têm espaço para crescer e ajudar empregos, dizem analistas

    Auxílio Brasil terá impacto positivo no setor, que também deve ter desafios no segundo semestre, segundo economistas

    Setor de serviços acumula crescimento de 2,2% desde o mês de março
    Setor de serviços acumula crescimento de 2,2% desde o mês de março Fernando Frazão/Agência Brasil

    João Pedro Malardo CNN Brasil Business em São Paulo

    O segundo crescimento consecutivo do setor de serviços registrado em junho reflete os efeitos positivos da normalização da atividade econômica pós-pandemia, e o movimento vem impactando positivamente na queda do desemprego, afirmam especialistas ao CNN Brasil Business.

    Em junho, o setor teve alta de 0,7%, acima da expectativa de 0,4% do mercado. Com isso, acumula crescimento de 2,2% desde o mês de março, e está 7,5% acima do nível pré-pandemia.

    A tendência é que os serviços ainda tenham um espaço para crescer, ajudado também por medidas de incentivo à economia do governo, mas com um risco de desaceleração em meio à combinação de juros e inflação elevados.

    Serviços e emprego

    A recuperação de serviços tem uma relação direta com a queda no desemprego, atualmente no menor nível desde 2015, devido ao peso do setor na economia, segundo Rodolpho Tobler, do FGV-Ibre.

    “As pessoas têm conseguido repor o poder de compra mesmo com a renda média mais baixa, o que ajuda a ter uma atividade mais aquecida, e as expectativas têm sido revisadas para cima”, observa.

    Dentre os segmentos de serviços, ele destaca os prestados a famílias, como restaurantes e hotéis, cujo crescimento está ligado ao contexto pós-pandemia e de retomada completa da economia e da circulação de pessoas a partir de 2022.

    “As famílias têm conseguido sair mais, ir a serviços, usufruir deles, e o mercado de trabalho responde com uma recuperação mais forte que o esperado”, diz.

    Para Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa, o bom desempenho do setor ajuda na queda do desemprego ao estimular uma contratação de pessoal para atender uma demanda retomada pós-pandemia.

    Ele aponta, ainda, as perspectivas mais positivas em relação ao crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 2022, o que também fortalece o mercado de trabalho ao melhorar as expectativas de demanda.

    Nesse cenário, o setor de serviços tem sido o com maior saldo de vagas criadas, destaca Rafael Pacheco, economista da Guide Investimentos.

    Ele aponta, entretanto, que o mercado de trabalho tende a responder com defasagem à queda de demanda pela alta de juros, o que ainda pode levar a um desempenho mais negativo do emprego no segundo semestre.

    Já Ricardo Jacomassi, economista-chefe da TCP Partners, considera que o crescimento de serviços “é muito positivo para o emprego”. “Temos uma expectativa de queda do desemprego nos próximos meses, o que também impacta na melhora da renda”.

    Pacheco lembra que o setor de serviços vem surpreendendo o mercado, com aceleração mês a mês. Ele associa o desempenho positivo a uma demanda reprimida, que na visão dele tem sido “subestimada” pelo mercado.

    “As famílias deixaram de consumir diversas categorias de serviços, como restaurantes, hotéis e atividades turísticas durante a pandemia, e retomaram a demanda quando a gente viu a reabertura total agora em 2022”, explica.

    A duração do efeito desse movimento tem sido maior que o esperado, mesmo com alguns sinais de perda de força nos últimos meses, segundo o economista.

    Outro segmento que tem sido beneficiado é o de transportes, nesse caso com um ciclo favorável de commodities que elevou a demanda por serviços de transporte de carga.

    Há, ainda, uma “mudança no perfil de consumidor, consumindo mais serviços eletrônicos, com mais demanda por transporte do que no comércio físico”.

    Sanchez pondera que não há como saber exatamente o que representa um novo normal nos padrões de consumo de serviços e o que é um resquício da recuperação pós-pandemia, entretanto os serviços “estão tendo avanço natural nesse processo de normalização da economia”.

    Próximos meses

    Tobler, do Ibre, ainda vê um espaço para o setor crescer mais nos próximos meses, apoiado principalmente pelo segmento de serviços prestados a famílias, que segue em um patamar inferior ao pré-pandemia.

    “Tem uma demanda reprimida, por viagens, bares. O grande ponto é que precisa de controle maior da inflação para o poder de compra crescer mais e a recuperação ser mais rápida. Parte desse consumo não é essencial, daí a importância de controlar a inflação”, afirma.

    Segundo ele, o setor tem tido uma resiliência maior que o esperado, mas o segundo trimestre foi ajudado por medidas de estímulo do governo como a antecipação do 13º salário e a liberação de saque no FGTS.

    Ele avalia que isso pode ocorrer novamente, com o aumento de R$ 200 no Auxílio Brasil e outros benefícios anunciados pelo governo, o que ajudaria o setor. Entretanto, “há fatores de incerteza como inflação e juros altos e cautela entre investidores”.

    Sanchez, da Ativa, afirma que a tendência é de um segundo semestre pior que o primeiro conforme as restrições de poder de compra aumentam pela combinação de juros e inflação altos, assim como níveis elevados de endividamento e inadimplência.

    Ele vê um recuo na atividade como “inevitável”, mas considera que o Auxílio Brasil pode tornar o desempenho menos negativo.

    “Esse recurso que está sendo injetado está mais ligado a consumo de subsistência que de serviços, é de energia, moradia, alimentação, são bens que não vão impulsionar ou aliviar serviços propriamente dito”, pondera.

    Os próprios resultados de junho já indicam uma desaceleração nas categorias na comparação com o mesmo mês de 2021, afirma Rafael Pacheco, o que já era esperado pelo mercado.

    A expectativa é que isso “continue no segundo semestre pelo efeito da Selic no atual patamar e a defasagem da política monetária, que começa a surtir efeito”.

    “Olhando para frente, o Auxílio Brasil e outras medidas do governo tendem a sustentar um pouco essa demanda, mas do outro lado temos juros altos que devem desacelerar a demanda, com famílias de baixa renda ainda tendo alguma sustentação”, diz.