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    Mesmo que déficit não seja zero, governo ganha tempo se mostrar direção do equilíbrio fiscal, diz Campos Neto

    Presidente do BC afirmou que a interlocução com a Fazenda sempre foi boa e que Haddad tem feito um bom trabalho no âmbito fiscal, mas que o país tem um problema histórico de dificuldade de cortar gastos estruturais

    Campos Neto também riu ao ser questionado sobre ter sido um interlocutor do então presidente Jair Bolsonaro como um agregador de pesquisas eleitorais
    Campos Neto também riu ao ser questionado sobre ter sido um interlocutor do então presidente Jair Bolsonaro como um agregador de pesquisas eleitorais 07/03/2023REUTERS/Adriano Machado

    Célia Froufe e Thaís Barcellos, do Estadão Conteúdo

    Diante da difícil tarefa de arrumar mais fontes de arrecadação para fechar as contas em 2024, o presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, voltou a indicar que, mesmo que o resultado fiscal não alcance a meta de neutralidade no ano que vem, o governo ganha tempo se mostrar esforço na direção do equilíbrio fiscal.

    “Mesmo não sendo zero o resultado fiscal de 2024, se o governo fizer o esforço de ir nessa direção, ganha um tempo. Mas, em algum momento, vamos ter que enfrentar a questão verdadeira, que é nosso gasto estrutural maior do que o de emergentes”, disse em entrevista ao Amarelas on Air, da revista Veja.

    Campos Neto afirmou que a interlocução com o Ministério da Fazenda sempre foi boa e que o ministro Fernando Haddad tem feito um bom trabalho no âmbito fiscal, mas que o país tem um problema histórico, não só desse governo, de dificuldade de cortar gastos estruturais.

    “Vejo esforço do governo nesse sentido. Precisa agora passar medidas de arrecadação. Vemos que sempre tem incerteza sobre esse processo”, considerou.

    O presidente do BC voltou a citar o processo de “desancoragem gêmea”, conjunta de inflação e indicadores fiscais, cujas expectativas estão acima das metas estabelecidas.

    À medida que as medidas de arrecadação forem aprovadas, vai ter melhora das expectativas. O ano de 2023 importa menos, as pessoas estão olhando para frente.”

    Ele também voltou a dizer que, com a ancoragem fiscal, a queda de juros pode ser mais sólida e perene. “É difícil para o BC entrar em detalhes sobre como o governo precisa se comportar no fiscal. O que a gente precisa é passar a mensagem que precisamos ter um fiscal ancorado, para ter uma trajetória de Selic mais baixa.”

    Campos Neto também repetiu que vários governos caíram na tentação de inflação maior para ajudar fiscal, mas que essa atitude acaba prejudicando as camadas mais vulneráveis da população.

    Além disso, o presidente do BC riu ao ser questionado sobre ter sido um interlocutor do então presidente Jair Bolsonaro como um agregador de pesquisas eleitorais.

    “Se o governo precisasse de consultoria política minha, estaria em maus lençóis, porque não entendo nada de política”, disse. “Quando leio que eu prestava consultoria política para o governo nas eleições, para mim chega a ser engraçado”, continuou.

    Campos Neto garantiu que nunca conversou com o então presidente Bolsonaro sobre pesquisas eleitorais e nem com o marqueteiro do governo “sobre nenhum assunto”.

    Porém, na entrevista, ele foi lembrado que surgiu a confirmação de um encontro em maio de 2022, poucas horas antes da decisão do Copom com o presidente Bolsonaro. Esse encontro só foi revelado meses depois.

    Campos Neto disse que tentou se lembrar sobre essa reunião específica. “De vez em quando, (Bolsonaro) me chamava para falar. Se o presidente Lula me chamasse para falar num dia de reunião do Copom, eu ia com certeza e tenho certeza que o próximo presidente do BC, se o presidente chamar, irá com certeza”, argumentou.

    O melhor, segundo ele, é observar como o BC atuou após esse encontro.

    “O que o BC fez? Atuou de forma autônoma, subiu os juros de um ano e meio antes das eleições até três meses antes das eleições, colocou os juros num patamar muito alto de forma independente exatamente para ter certeza de que o próximo mandato, independente de ser um incumbente ou não, a gente pudesse ter situação de juros mais baixos”, descreveu.

    O certo, de acordo com o presidente da autoridade monetária, é “sair do ruído e dos factoides” e prestar atenção ao que foi feito “de verdade”, reforçando que o BC sempre atuou de forma independente e técnica.

    Campos Neto argumentou que o chamado “período do silêncio”, que é quando os integrantes do Copom evitam fazer comunicações públicas, principalmente sobre assuntos ligados à política monetária, vale apenas para agentes de mercado, e não para integrantes do governo.

    Principalmente, de acordo com ele, para integrantes do alto Executivo. “Eu tive algumas reuniões com Bolsonaro com certeza. Acho que essa foi para discussão do Plano Safra”, cogitou.

    Mais uma vez, o comandante do BC disse que a instituição atuou de forma autônoma sobre os juros. “O BC atuou de forma autônoma e vai continuar assim. Se me chamarem, eu vou em qualquer momento porque acho que é importante, e não infringe as regras do Copom.”

    Mandato no BC e carreira na política

    O presidente do Banco Central garantiu que permanecerá à frente da instituição até o encerramento de 2024, que é quando é previsto o fim de seu mandato pela nova lei de autonomia da autoridade monetária. “Não pretendo abreviar o meu mandato, pretendo cumpri-lo até o fim”, disse.

    Campos Neto afirmou que deve essa postura a todos que acreditaram ao projeto da autonomia.

    “Este não é um tema do Roberto, é um tema do BC, da autonomia, é do ganho institucional”, citou, lembrando que, além do envolvimento de parlamentares que defenderam e votaram a causa, o assunto também foi parar na Suprema Corte, que considerou a lei constitucional por oito votos a dois.

    “Então, o Banco Central também deve ao STF (Supremo Tribunal Federal) esse ganho institucional. Acho que a gente tem de passar por esse teste, então a resposta é não.”

    O presidente do BC disse ainda que não tem pretensões políticas e que nunca foi convidado a integrar nenhum partido. “Não pretendo ser político, ser candidato a nada, e não serei”, garantiu, acrescentando que, quando deixar o comando da autoridade monetária, voltará a atuar no setor privado.

    Veja também: Governo prevê zerar déficit com propostas no Congresso