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    Selic alta e crise global reduzem participação de investidores pessoa física na B3

    No ano, esse tipo de investidor corresponde a 15,4% do total de negociações. Em 2019, representava 18,2%, enquanto em 2020 atingiu 21,4%

    Investidores pessoa física perderam espaço na B3 em 2022
    Investidores pessoa física perderam espaço na B3 em 2022 Cris Faga/NurPhoto via Getty Images

    João Pedro Malardo CNN Brasil Business

    em São Paulo

    A participação dos investidores pessoa física nas negociações da bolsa de valores brasileira nos seis primeiros meses de 2022 recuou em relação a anos anteriores.

    Dados da B3, a empresa responsável por operar a bolsa de valores, indicam que, até 6 de julho de 2022, a participação desse tipo de investidor correspondia a 15,4% do total. Em 2019, era de 18,2%, enquanto em 2020 foi de 21,4%.

    Naquele ano, o percentual da participação de pessoas físicas chegou a se aproximar do de investidores institucionais, com 27,2%, mas desde então a distância voltou a crescer.

    Por trás desse cenário, especialistas consultados pelo CNN Brasil Business apontam uma combinação de taxa Selic elevada, de volta aos dois dígitos, e um forte pessimismo em meio a um cenário global mais desafiador, revertendo as causas do resultado positivo anterior.

    O crescimento em 2020

    Alberto Amparo, head de Análise internacional na Suno Research, aponta que o crescimento entre 2019 e 2020 está ligado a um “efeito da pandemia”. “As pessoas ficaram fechadas dentro de casa, viram muitos influenciadores falando sobre mercado de ações e a Selic foi de 14,25% em 2016 para 2% em 2020”, explica.

    A exposição maior a conteúdos positivos sobre o mercado de ações e uma alta da bolsa entre 2016 e 2020 teriam chamado a atenção dos investidores. Além disso, com a Selic baixa, a remuneração da renda fixa caiu. A combinação favoreceu uma migração para a renda variável.

    Professor da Universidade Mackenzie, Maurício Takahashi aponta ainda que esse crescimento representou uma “segunda onda” de investimentos na bolsa, gerada pela primeira, ligada aos investidores estrangeiros.

    “As pessoas acabaram seguindo esse movimento de entrada dos estrangeiros porque viam um ambiente que parecia ser favorável para a bolsa. Isso ocorreu mesmo durante ao cenário mais adverso na pandemia”, avalia.

    Com isso, a participação dos investidores pessoa física individuais nas negociações da bolsa cresceu mais de três pontos percentuais entre um ano e outro, para um dos maiores valores na série histórica.

    O desempenho favorável, porém, acabou se revertendo já no ano seguinte, em um momento que continua em 2022, e que está fortemente ligado ao que Amparo afirma ser um “centro de gravidade” em relação ao mercado de ações: a taxa Selic.

    A queda nos anos seguintes

    Em 2021, o Banco Central iniciou um novo ciclo de alta de juros para lidar com a inflação elevada. Apenas naquele ano, a taxa básica, a Selic, saltou de 2% para 9,25%. A alta se manteve em 2022. Hoje, a taxa já está em 13,25%, e ainda deve subir ao menos uma vez neste ano.

    “O pico de pessoa física está ligado primeiro a um movimento de alta da própria bolsa por investidores estrangeiros. Mas aí tem a queda sistemática da taxa Selic, revertendo uma expansão monetária”, diz Takahashi.

    Amparo afirma que “as ações competem com os títulos públicos, que não tem risco, então quanto maior for a remuneração, comparativamente, fica menos atraente ir para ações, mesmo que não pague mais”.

    Foi o que passou a ocorrer em meio ao ciclo de alta. Com a Selic maior, o rendimento ao investir na renda fixa aumentou, com os investidores migrando sua renda de um tipo de investimento para outro.

    O analista aponta ainda que a queda de participação se deu, em menor nível, pelo aumento na participação dos investidores estrangeiros. Ou seja, uma participação menor nem sempre significa uma retirada de investimentos, por mais que esse seja o caso atual.

    Takahashi resume a perda de espaço a uma “correlação negativa” com a renda fixa, mas avalia que existem outros fatores por trás do cenário atual.

    “Estamos em um problema mundial de choque de oferta negativo, fazendo com que exista uma pressão sobre preços e quebra de cadeia, falta de produtos, então o cenário global tende a ser recessivo, e aí é negativo para a renda variável tanto a nível local quanto global”, diz.

    Em ambientes como esse, não é incomum que o pessimismo se espalhe entre os investidores, o que exige considerar também o que o analista da Suno chama de “fator psicológico”, o medo das pessoas de perder ainda mais dinheiro em um cenário recessivo e, para evitar isso, a busca pela segurança na renda fixa.

    Segundo o professor do Mackenzie, os investidores pessoa física não costumam ter capital suficiente para aguentar momentos de baixa no mercado, e por isso acabam saindo.

    Paradoxalmente, porém, é comum que investidores institucionais e estrangeiros aumentem seus investimentos nesses cenários, já que a ideia é comprar as ações na baixa, quando estão baratas, e esperar que elas valorizem.

    O pensamento do investidor pessoa física, afirma Takahashi, parece ser o contrário: “a pessoa física parece ter uma visão mais de curto prazo, não exatamente tem essa visão de que está barata. Em especial especuladores”.

    Ele afirma que o mercado atual é o de “bear market”, expressão usada quando a tendência é de queda, e que “a não ser que a pessoa física esteja mais preparada, ao invés de comprar tende a sair da bolsa e ir para a renda fixa”.

    Com a Selic ainda mais alta em 2022 e um cenário externo negativo em meio a diversas altas de juros pelo mundo, a participação de investidores pessoa física tem caído mês após mês na B3. Em janeiro de 2022, eram 16% do total. Em junho, eram 13,9%.

    Amparo não acha que a queda de participação seja alarmante, e reflete um movimento natural que ocorre tanto no Brasil quanto em outros países, como os Estados Unidos, em que os juros também estão subindo.

    “O dinheiro secou, juros subiram, renda fixa pagando melhor. A renda fixa pode não ser o melhor investimento em termos de remuneração, mas é o melhor pensando em segurança”, diz.

    Ele pontua ainda que a bolsa brasileira não subiu muito em 2021 e 2022, pelo contrário, e que, “por mais errado que isso seja”, quedas ou estabilidade reduzem o interesse das pessoas em comprar ações.

    “A maior parte das pessoas que compram ações não estudam bastante antes de comprar, então elas agem com base na emoção. Muitos entram na bolsa não por ver a empresa como barata, mas porque o vizinho entrou, a bolsa está subindo, ele está ganhando dinheiro e não quer ficar de fora. Aí agora é o movimento contrário”, afirma.

    Efeitos e perspectivas

    Takahashi acredita que, uma vez que a Selic volte a cair e o sentimento global melhore, a tendência é de retorno desses investidores individuais para a bolsa.

    “No caso das pessoas físicas, tem uma questão que é a exposição a renda variável. Nos últimos 10 anos, o tema ganhou mais destaque, a educação financeira está crescendo. Com a renda fixa voltando a patamares menores, a variável fica mais atraente”, diz.

    Na visão dele, os investidores pessoa física não são os tomadores de decisão na bolsa, que movem o mercado, mas sim os que seguem esses tomadores.

    Ou seja, a perda de espaço deles na bolsa não implica em um enfraquecimento desses movimentos.

    Entretanto, são os investidores pessoa física que dão mais liquidez, ou seja, volume de dinheiro circulando, para o mercado de ações. Com uma participação menor, a liquidez reduz, tornando investidores institucionais e estrangeiros mais fortes, com mais capacidade de influenciar movimentos de ações a partir de decisões individuais.

    Já Amparo não acha que a queda na participação possui efeitos práticos, já que ocorre ao mesmo tempo em que os estrangeiros estão ganhando espaço e entrando na bolsa. O efeito, nesse aspecto, é mais dos agentes envolvidos nas negociações.

    Entretanto, a saída de pessoas em um cenário de bolsa “barata” indica que “o mercado de ações virou uma distração para o ato de investir. As pessoas focam na cotação, nas narrativas, não na empresa em si, o mudo real, que é o que realmente influencia nos lucros”.

    No curto prazo, Takahashi aposta em uma continuidade na queda de participação de pessoas físicas devido à Selic. Amparo pontua que as incertezas com a eleição presidencial brasileira podem reforçar essa saída, mas não há como ter certeza.

    Há a possibilidade, ainda, de que os próprios investidores pessoa física sejam convencidos pela ideia de uma bolsa barata e atrativa, de comprar na baixa e vender na alta, e retornem para os mesmos investimentos que abandonaram.

    “Com juros mais baixos, as pessoas tendem a ficar mais atraídas por investimentos em ações, mas como é percentual do total, pode ter uma enxurrada de capital estrangeiro e aí crescer no volume mas percentualmente não. Não dá para saber até onde vai cair ou subir”, afirma.

    Na visão da B3

    Segundo disse a CNN Brasil Business, “as operações da pessoa física passaram a ter peso menor, enquanto as dos investidores estrangeiros, por outro lado, passaram a responder por uma fatia maior do volume”, afirmou a B3 em nota.

    A empresa destacou ainda que a quantidade de pessoas físicas na renda variável segue crescendo. Até maio de 2022, eram 5,13 milhões. Entretanto, o ritmo de crescimento desacelerou nos últimos meses. De janeiro a março de 2022, foram menos de 40 mil novos investidores, distante de saltos como o de dezembro de 2021, quando a bolsa somou quase 1 milhão de novos investidores.

    Se em 2020 a bolsa viu a entrada de cerca de 1,4 milhão de novos investidores pessoa física. Em 2021, foram cerca de 1,6 milhão. Já nos seis primeiros meses de 2022, foram pouco mais de 100 mil.

    Ainda segundo os dados disponibilizados pela B3, o volume investido por pessoas físicas também recuou nos últimos meses. O pico foi registrado em julho de 2021, no valor de R$ 548 bilhões. Desde então, a tendência foi de queda, apesar de uma leve recuperação no primeiro trimestre deste ano.

    Os meses de abril e maio tiveram dois recuos consecutivos, com o volume investido caindo para R$ 494 bilhões e R$ 493 bilhões, respectivamente. Os números são levemente superiores os níveis de setembro, outubro e novembro de 2021, quando a B3 viu uma forte saída de investimento devido a tensões fiscais e políticas.