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    Semana de 4 dias de trabalho: agência brasileira vê tarefas mais organizadas com modelo

    Modalidade vai ser testada em 30 empresas no Reino Unido; advogados alertam para custos no caso de reversão do quadro após adesão

    Cresce adesão de empresas à redução dos dias de trabalho na semana
    Cresce adesão de empresas à redução dos dias de trabalho na semana Foto: Bench Accounting/Unsplash

    Fabrício Juliãodo CNN Brasil Business

    em São Paulo

    Já imaginou chegar no fim do domingo e não ter que se preocupar em trabalhar no dia seguinte? Ou encerrar o expediente na quinta-feira e já começar a aproveitar suas horas de folga? A semana de quatro dias de trabalho já é uma realidade em empresas pelo mundo.

    Nesses casos, os funcionários têm uma folga a mais além de sábado e domingo, substituindo assim as 40 horas semanais de trabalho por 32 horas.

    Na Inglaterra, pesquisadores da Universidade de Oxford e da Universidade de Cambridge vão fazer pesquisas sobre a semana de trabalho de 4 dias.

    Os testes começam em junho de 2022 com cerca de 30 empresas em todo o Reino Unido e devem durar pelo menos seis meses. O objetivo de monitorar mudanças na produtividade e na satisfação dos funcionários.

    Além do Reino Unido e da Islândia, que também já teve estudou a prática entre 2015 e 2019, são esperados estudos com horários de trabalho semanais menores nos Estados Unidos, Suécia, Espanha e Japão.

    E no Brasil?

    A agência de comunicação brasileira Shoot também experimentou retirar um dia de trabalho semanal dos funcionários no ano passado.

    Ao CNN Brasil Business, o sócio Luciano Braga afirmou que os trabalhadores agora trabalham 6 horas por dia, durante 4 dias na semana, e que a mudança deve ser permanente.

    “Percebemos nos últimos dois anos que todo mundo estava mundo cansado, mesmo com uma carga horária considerada normal. Os funcionários chegavam sempre exaustos na segunda-feira, mesmo após o fim de semana, e começamos a nos questionar como poderíamos mudar isso”, disse.

    O empresário afirmou que ele e seu sócio, Artur Scartazzini, foram impactados com o conhecimento sobre a redução de carga horária em empresas de outros países e resolveram fazer seu próprio experimento.

    “Começamos a testar no ano passado para ver se esse modelo realmente funcionava. Tiramos a sexta-feira da escala em um período de quatro meses para analisar o rendimento e vimos que nada aconteceu de prejudicial. Todos trabalharam como tinha que ser feito. Então, a partir de fevereiro adotamos um dia a menos de trabalho e isso tem sido muito positivo desde então”, afirmou Luciano Braga.

    “Fizemos isso com o objetivo de trazer um pouco mais de qualidade de vida, de saúde mental para as pessoas e entendendo que a vida hoje é muito mais caótica, temos muito mais informações e nosso cérebro não consegue desligar no fim de semana. A vida é muito mais agitada do que era no passado, temos muitos compromissos para condensar em só dois dias”, declarou Luciano, ao CNN Brasil Business.

    Desde que o modelo foi implementado, o empresário disse que o time da Shoot tem sido mais organizado nas tarefas. Os funcionários foram divididos em duas equipes que alternam o dia de folga durante a semana. A primeira folga segunda-feira, enquanto a outra não trabalha na sexta-feira.

    Segundo ele, os colaboradores estão mais felizes com a mudança e menos cansados no início da semana produtiva. Ainda assim, os mais jovens se sentem culpados por terem um dia a mais para folgar e não sabem, por vezes, como aproveitá-lo sem produzir, revelou Luciano.

    “O maior desafio é saber o que fazer com o dia útil que na verdade não é útil. Para pessoas muito novas isso gera ansiedade porque elas não sabem como proceder, nunca trabalharam assim. Mas com o tempo eles vão entendendo que é um dia para relaxar, que você pode dormir o dia inteiro sem ter que dar satisfação para alguém”, disse.

    O empresário também afirmou que, desde que a Shoot adotou esse sistema, as buscas por vagas na empresa aumentaram em mais de 300%.

    “Tínhamos um formulário no nosso Instagram para as pessoas deixarem o currículo. Recebíamos mais ou menos 150 mensagens, mas somente em uma semana, depois que adotados 4 dias de trabalho, recebemos mais de 700 respostas de pessoas querendo trabalhar com a gente”, contou.

    “Desde então várias pessoas de setor de RH e de cultura de grandes empresas entraram em contato com a gente para entender melhor o modelo para replicar ele em seus negócios”, concluiu.

    O que diz a lei

    Conforme descrito na Constituição Federal (artigo 7º, inciso XIII), é direito dos trabalhadores ter uma jornada de trabalho que não seja superior a 8 horas diárias, bem como não superior a 44 horas semanais.

    No entanto, a divisão da carga horária ao longo da semana fica a critério da empresa. Ela pode escolher adotar uma jornada de trabalho de 8 horas de segunda a sexta-feira e de mais 4 horas aos sábados, estabelecer 9 horas de trabalho (sendo 1h de almoço) de segunda a quinta ou 48 minutos a mais de segunda a sexta.

    Segundo Henrique Melo, advogado especializado em Direito Trabalhista, não existe uma legislação que proíba uma carga horária menor do que a estipulada pela Constituição.

    “Caso a empresa vá reduzir a jornada sem reduzir os salários, a condição é mais benéfica aos trabalhadores e não há a necessidade de autorizações prévias”, disse.

    “Recomenda-se, de todo modo, que as alterações sejam formalizadas por meio da assinatura de aditivo ao contrato de trabalho”, salientou.

    O advogado também afirmou que, se a empresa reduzir a jornada de trabalho e não reduzir salário, essa condição irá “aderir” ao contrato de trabalho dos empregados, tornando-se direito adquirido.

    “Isso significa que se no futuro a empresa quiser voltar à jornada anteriormente praticada, aumentando as horas de trabalho, terá que aumentar o salário dos seus empregados”, argumentou.

    O advogado trabalhista Miguel Marin Ruiz afirmou CNN Brasil Business que, como a lei não prevê nenhum mecanismo que disponha de uma carga horária com um dia útil a menos de trabalho, a adoção do método não seria um problema, desde que o empregado não pague a conta pelo “descanso extra” no fim do mês.

    “A finalidade da tal concessão aparentemente se dá com o intuito de conceder uma qualidade de vida melhor ao empregado, aumentando assim, sua produtividade. Por não haver previsão legal que regulamente tal modalidade, e por ser algo tão recente no Brasil, este dia deverá equivaler ao descanso semanal remunerado (final de semana), não podendo o empregado ser obrigado a ‘pagar’ por tal dia”, afirmou.