Grande vencedor do Grammy, Jon Batiste sonha em fazer parceria com cantora brasileira

Em entrevista à CNN, o pianista reflete após os 5 prêmios no Grammy, fala de sua admiração pela música brasileira, o desejo de tocar na Bahia e o sonho de colaborar com a cirandeira pernambucana Lia de Itamaracá

Léo Lopesda CNN

em São Paulo

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“Eu te amo, mesmo que eu não te conheça.” Foi assim que o músico Jon Batiste encerrou seu discurso ao receber o último Grammy da noite, na cerimônia realizada no dia 3 de abril, em Las Vegas.

A maior premiação da música internacional consagrou o brilhante momento em que vive o pianista de 35 anos, nascido e criado na região metropolitana de Nova Orleans, berço do jazz.

No total, foram cinco gramofones de ouro conquistados, todos resultados de seus dois últimos trabalhos: o álbum “We Are”, que foi considerado o “Melhor do Ano”, e a trilha sonora da animação “Soul”, pela qual ele também arrematou um Oscar no ano passado.

As produções de Batiste são feitas em meio a uma rotina intensa. Além de seu projeto artístico pessoal, durante cinco dias por semana ele é diretor musical do “Late Show” com Stephen Colbert, talk show americano que sucedeu o consagrado David Letterman e no qual lidera a banda residente.

Para ter tempo de produzir “We Are”, ele precisou literalmente construir um estúdio no camarim do teatro Ed Sullivan, onde grava o programa em Nova York.

Foi diretamente deste camarim, em uma de suas primeiras entrevistas desde o Grammy, que Jon Batiste conversou via Zoom com a CNN.

Na conversa, ele refletiu sobre como foram seus últimos dias e seu momento artístico, declarou sua admiração pela música brasileira, disse que sonha em tocar nas ruas do Brasil e revelou o desejo platônico de colaborar com a cirandeira e patrimônio cultural pernambucano, Lia de Itamaracá.

“Apostamos em nós mesmos”

No momento em que o cantor Lenny Kravitz anuncia pausadamente “We Are” como o melhor álbum de 2022, a expressão facial de Jon parecia demonstrar incredulidade.

Mas ele explica que estava chocado por ver que ele e seus colaboradores “apostaram neles mesmos”, e funcionou.

“Eu não achava que nós não pudéssemos ganhar o ‘Álbum do Ano’. Só estava tão chocado com nossa força. A força de apostarmos em nós mesmos, acreditando no que nós fazemos, e não seguindo algoritmos ou tendências”, disse.

“E isso funcionar ao ponto de receber prêmios que você achava que não conseguiria se não seguisse a multidão. É algo que, você sabe, está acima de mim, é maior do que eu. É intervenção divina, como um momento lindo”, acrescentou.

O álbum “We Are” tem suas raízes também nos protestos americanos do Black Lives Matter que surgiram após o assassinato de George Floyd. Jon convocou uma marcha em Nova York para protestar contra a brutalidade policial para com os negros, e batizou o movimento de “We Are”.

Jon Batiste lidera marcha “We Are” com a presença de músicos em Nova York, logo após o assassinato de George Floyd/ Corbis via Getty Images

“Temos que combater a apatia mais do que qualquer coisa. Temos que lutar por vidas negras. Agora, se não fizermos isso, ninguém fará. Nós somos [“We are”] os únicos”, disse em entrevista à CNN durante o protesto.

Pouco menos de dois anos depois, com o álbum e a faixa de abertura intitulados “We Are”, Jon se tornou o primeiro artista negro a vencer o “Melhor Álbum do Ano” em 14 anos.

Além disso, Jon Batiste pode não ter mirado o topo dos charts, mas o Grammy mudou o panorama. Na semana seguinte ao prêmio, somente nos EUA, o álbum “We Are” viu um aumento de 2.749% nas vendas.

Orgulho pela família

Acompanhado de seus dançarinos e músicos em figurinos coloridos, Jon entregou uma performance coletiva animada de “Freedom” e foi ovacionado – inclusive pela cantora Billie Eilish e o irmão Finneas, cuja mesa virou o próprio palco no final da música.

“Estou tão honrado por ter me apresentado no Grammy. Ainda mais honrado por ter trabalhado com minha equipe de criação para dar ao mundo algo que é tanta luz e transcende alegria e amor”, afirmou.

“Estou animado para assistir de novo essa performance nos próximos anos, mostrar aos meus filhos, se eu tiver a benção de ter filhos. Minha família vai olhar para essa apresentação como um marco”, acrescentou.

Jon Batiste durante sua apresentação da música “Freedom” no Grammy Awards de 2022. Artista encerrou a performance cantando na mesa da cantora Billie Eilish e seu irmão Finneas / Getty Images for The Recording A

Estudioso do piano desde os 8 anos de idade, Jon vem de uma família tradicionalmente composta por artistas da cena musical de Nova Orleans. Seus mais de 20 familiares músicos fizeram parte de bandas relevantes de jazz da cidade, e até formaram a “The Batiste Brothers Band”.

Ele conta que a maior parte da família estava presente no Grammy, incluindo seu avô de quase 90 anos. Jon demonstrou que a felicidade de vencer foi ainda maior porque os familiares também colaboraram no álbum “We Are”.

“Meus sobrinhos quando gravaram para o álbum tinham 5 e 11 anos de idade. E eles venceram um Grammy de ‘Melhor Álbum do Ano’. Foi incrível ter minha família lá e, não só estar com eles, mas compartilhar a vitória, sabe, compartilhar esse reconhecimento. Estou tão agradecido”, disse.

“Estou só começando”

Os cinco Grammys fazem agora companhia na prateleira da casa do pianista para um Oscar, vencido em 2021 pela trilha sonora da animação da Disney, “Soul”. Jon inclusive cedeu suas mãos para servir de molde para o desenho do protagonista.

A lista de prêmios do artista inclui ainda o Globo de Ouro, o Bafta e o Critic’s Choice Awards. Mas Jon reforça que os prêmios nunca são seu objetivo, apenas uma consequência natural.

Jon Batiste apresenta sua música “Freedom” durante o Grammy Awards 2022 / Getty Images for The Recording A

“Como uma pessoa criativa e artista no mundo, você está aqui para servir. Você não está aqui para ganhar prêmios, embora o reconhecimento por seus pares seja ótimo. Esse não é o propósito do que fazemos”, disse.

“Fazemos porque amamos. E quando você ama e dá tudo de si, os prêmios vêm porque você serviu ao público, você serviu às pessoas e há um respeito que vem com isso”, acrescentou.

Apesar do caminhão de prêmios, Jon acredita que está só começando e seu auge criativo ainda está por vir. Sua próxima meta artística e o foco principal de sua atenção no momento já tem data marcada.

No dia 7 de maio, ele estreia sua primeira sinfonia autoral no Carnegie Hall, em Nova York, uma das casas de concertos mais respeitadas do mundo.

“É minha primeira sinfonia. Vai ser muito especial porque não é uma sinfonia comum. Não é uma sinfonia de orquestra tradicional, é minha visão do que é uma sinfonia no século 21”, pontuou.

Jon Batiste é entrevistado no Late Show com Stephen Colbert, no dia 5 de abril de 2022 / CBS via Getty Images

Ele espera trazer artistas de diferentes estilos, do folk à eletrônica, para dialogarem na criação desse espetáculo.

Parceria dos sonhos com Lia de Itamaracá

Ao falar de artistas que o inspiram, Jon Batiste faz questão de destacar uma brasileira. Mais precisamente, um patrimônio cultural do estado de Pernambuco: a cantora Lia de Itamaracá.

A cirandeira ícone de 78 anos, que vive na ilha de Itamaracá, a cerca de 50 km do Recife, considerada “diva da música negra” pelo “New York Times”, é uma parceria dos sonhos para Jon.

“Lia, se você me ouve, eu quero trabalhar com você. Eu amaria colaborar. Eu estou muito, muito ocupado, mas vou encontrar tempo para você”, disse Jon durante a entrevista, olhando e sorrindo para a câmera.

A CNN entrou em contato com a produção da artista brasileira, que revelou que o artista já enviou uma mensagem para Lia pelo Instagram.

Um print das conversas privadas do perfil da cantora mostra que Jon entrou em contato em janeiro deste ano revelando seu desejo de tocar com a pernambucana.

Naquele momento, ele até mesmo sugeriu de viajar para onde Lia estivesse para que pudessem tocar juntos.

Mensagem enviada por Jon Batiste ao perfil da cantora Lia de Itamaracá no Instagram, em janeiro de 2022. O e-mail do artista foi editado da imagem / CNN

O pianista também mencionou a apresentação que está planejando para maio no Carnegie Hall, dizendo que amaria que Lia participasse de alguma forma.

A produção da cantora afirma que respondeu o primeiro convite de Jon, mas o contato direto não foi retomado desde então.

Ao saber da lembrança de seu nome durante a entrevista, Lia de Itamaracá enviou um vídeo à CNN em resposta a Jon.

“Jon, meu filho, obrigada pelo carinho. Eu gostaria muito de me encontrar com você. Venha para Itamaracá, pra gente ter um diálogo maravilhoso, conversar bastante, vem!”, disse a cantora enquanto sorri.

Inspiração pelo Brasil e a vontade de voltar

Não é a primeira vez que Jon tenta fazer uma parceria com um artista brasileiro. Antes da pandemia chegar, ele tinha a expectativa de gravar com o alagoano Hermeto Pascoal.

“Antes da pandemia estávamos planejando fazer algo juntos. Honestamente, eu fiquei chocado a primeira vez que o vi tocar. Ele fez tantas coisas que nunca imaginei fazer. Ele tirou som de uma pequena piscina de água. Ele tocou água no palco e foi lindo”, relembra.

Essa situação aconteceu em 2009, primeira e única vez que Jon esteve no Brasil, quando acompanhou uma turnê da cantora Cassandra Wilson.

Jon Batiste durante o discurso após vencer o Grammy de “Melhor Álbum do Ano”, por “We Are” / Getty Images for The Recording A

Jon relembrou que amou o país e se sentiu como se estivesse em casa, em Nova Orleans. “Todos eram tão calorosos, tão legais e hospitaleiros e todo mundo tinha uma linda alma. As pessoas são lindas. A paisagem e a comida pareciam paralelas com o que eu cresci em Nova Orleans”, contou.

“Isso fez eu me sentir como se fôssemos primos. Apenas senti que estava curtindo com vários primos meus. E a energia era muito familiar, parecia coisa de família. Parecia uma volta pra casa, de algum jeito estranho”, acrescentou.

Mesmo não pisando no país há 13 anos, Jon não ficou completamente distante daqui. Há sete anos, ele é acompanhado pela percussionista brasileira Nêgah Santos.

“Nêgah é genial. Ela é incrível. Me ensinou tanto nos últimos anos que tocamos juntos. Aprendi tanto sobre a cultura brasileira”, conta.

Jon revela que o Brasil é uma inspiração de longa data. Graduado em uma das mais prestigiadas faculdades de música do mundo, a Juilliard, em Nova York, o pianista conta que estudou a música brasileira.

“Milton Nascimento, Antonio Carlos Jobim, tantos grandes músicos que eu admiro. Até mesmo alguns dos compositores de pop e suas letras. Ou o falsete da voz de Caetano Veloso. Eu amo a música [brasileira]”, disse.

O sonho de voltar ao Brasil e tocar nas ruas

Ao falar da viagem de 2009, Jon relembra carinhosamente: “Amei o Brasil e quero voltar. Quero estar entre as pessoas.”

Nos EUA, o cantor é conhecido por uma espécie de “protesto musical” que costuma organizar. As chamadas “Love Riots” são apresentações coletivas, nas quais um grupo variado de músicos toma as ruas e caminha enquanto toca.

Jon disse que sonha em conseguir fazer uma “Love Riot” pelas ruas brasileiras. “Acho que pode acontecer, eu realmente acho. Ainda neste ano, eu espero”, afirma.

O músico explicou que sua equipe criou um site chamado “Love Riot Magic”, que pode ser acessado aqui. Jon comenta que esse site é a ferramenta pela qual os fãs podem se inscrever para receber em primeira mão as informações sobre os próximos shows.

“Essa comunidade que se forma, eu também colaboro com ela [Jon costuma enviar e-mails aos inscritos]. Quando você se junta ao movimento, você pode colaborar comigo, pode ajudar a levar uma Love Riot para sua comunidade”, declarou.

O artista informou que planeja priorizar o próximo ano e meio de seu calendário para atender as demandas de locais para tocar, que surgiram pelo site.

“Nós podemos ir para São Paulo, para o Rio de Janeiro, podemos ir para a Bahia. Eu quero ir, cara. Eu estou animado. Amo a cultura e amo as pessoas [do Brasil]. Então, você sabe, vamos nessa. LoveRiotMagic.com“, disse.

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