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    Os algoritmos precisam ser treinados. E quem treina os algoritmos? Os humanos

    Phelipe Siani fala sobre criatividade e inteligência artificial

    Phelipe Siani

    Quem é naturalmente inteligente não precisa ter medo de nenhuma inteligência que é artificial.

    Calma, gente! Eu sei que, do ponto de vista técnico, a inteligência artificial é uma realidade, principalmente as generativas – e que elas vão sim acabar com vagas de trabalho do jeito que a gente conhece. E, se por um acaso você ainda não tá familiarizado com essa terminologia esquisita, tá tudo bem, é só eu te explicar que inteligência artificial generativa é o ChatGPT.

    Pronto, ficou mais fácil, né? Agora eu já posso te dizer que o ChatGPT é só uma das muitas e muitas plataformas de inteligência artificial generativa que já existem e que já tão sendo usadas por CPF’s e, principalmente CNPJ’s. Eu sei que muita gente que tá lendo já sabe de tudo isso e pode tá me achando meio tonto de explicar desse jeito. Não ache… é importante demais a gente começar essa discussão colocando todo mundo na mesma página.

    Sendo assim, bora discutir o conceito que tá por trás da tecnologia.

    Explicar o processo de criação de uma inteligência artificial é bastante complexo. Tão complexo que, se eu correr o risco de me aventurar nesse detalhamento, é muito provável que eu fale besteira, não sou programador.

    Mas, como comunicador, me debruço sobre os processos macro das tecnologias e, conversando com vários especialistas mais técnicos, a resposta sempre foi parecida: as inteligências artificiais generativas são nada menos que tecnologias que se baseiam num conjunto absurdamente gigantesco de informações sobre assuntos diversos.

    Elas usam essas informações todas que já foram produzidas pra criar uma média de resultados e entregar isso de um jeito organizado pra gente que dá algum comando. “Me escreve um roteiro de um programa de cultura pop pra ser exibido na CNN Brasil de segunda a sábado”. Um ChatGPT da vida vai me escrever isso de um jeito até que bacana… mas só vai fazer isso se baseando no que já existe na nuvem sobre os assuntos, entende?!

    Nesse caso, a IA não vai tirar o meu emprego por um motivo muito simples: o roteiro que ela fizer não tem o toque humano de empatia. Ou seja, pra perder o medo de ser substituído por um bot, o humano atrás do monitor precisa entender quais os pontos que diferenciam ele do “inimigo” em questão: gente, inteligência artificial não trabalha com subjetividade.

    E o mundo dos humanos não é sempre binário, não é sempre par ou ímpar, céu ou inferno. IA não tem discernimento sobre aspectos éticos, não sabe dizer se um comportamento x ou y pode ferir ou ofender alguém porque isso depende de sensibilidade. E máquina não é sensível… máquina é máquina.

    Cabe, então, ao ser humano entender que ganhar o jogo “contra” as IA’s depende dessa pessoa fazer o que uma pessoa faz de melhor… ser humana. Trabalhar em algo extremamente repetitivo como só inserir dados numa planilha sem fazer análises ou avaliar riscos pra além dos números é pedir pra perder o emprego. E, infelizmente, muita gente vai perder.

    Pra ser mais específico, 300 milhões de pessoas, segundo o Goldman Sachs, que avaliou que dava pra informatizar 18% do trabalho no mundo. E vai ser pior pra quem é funcionário administrativo e advogado, segundo o banco gringo. Nos Estados Unidos e na Europa, dois terços dos trabalhos devem ter algum nível de automatização. É cruel, mas em termos capitalistas é assim desde que o mundo é mundo.

    A revolução industrial foi um epicentro de críticas e revoltas pela substituição do trabalho braçal pelas máquinas a vapor. Isso trouxe desemprego, mas também tecnologia pra otimizar os processos de produção, ganhar escala, baratear os produtos. A gente sente até hoje esses benefícios. Óbvio que nunca é justo com quem perde o emprego, é preciso ter com essas pessoas a empatia que as máquinas não tem.

    O fato é que nenhuma grande revolução tecnológica vem sozinha. Ela sempre é acompanhada de ondas que chegam mais tarde trazendo, entre coisas boas e ruins, novas vagas, empregos que não existiam antes porque as necessidades passaram a ser outras. A dificuldade é se preparar pras novas oportunidades, abandonar a zona de conforto pra não morrer afogado nessa maré brava de mudanças. Não é fácil, mas não dá pra ignorar que esse é o processo e fingir que nada tá acontecendo.

    Isso significa que eu não vou usar a possibilidade de um ChatGPT poder fazer um roteiro todo pra mim? Não, mas significa que se eu me limitar a usar o que ele fez sem dar meu toque humano ao conteúdo me limito à condição de máquina e me torno inútil como mão de obra. É importante lembrar que as informações que a inteligência artificial generativa cria são resultado de uma média do que já existe.

    Entendeu? Uma média. Decidir tratar essas tecnologias como únicas criadoras de conteúdo a partir de agora é se contentar com resultados medianos. E o mundo nunca evoluiu assim. Pra criar o que quer que seja, os algoritmos precisam ser treinados. E, no começo da cadeia, quem treina os algoritmos? Os humanos. Ficou clara a lógica? É sempre sobre a nossa capacidade de criar.

    O roteiro que o ChatGPT me fizer pode servir então como base pro começo de um trabalho. Como pontapé daquilo que vai ajudar o start do MEU poder de criação. Inteligência natural é usar a artificial pra cortar da sua rotina o que é “braçal”, o que é repetitivo, como a rotina dos funcionários ingleses do século XIX.

    Quem entende essa lógica ganha espaço pra liberar a própria mente pra fazer aquilo que só o humano é capaz de fazer… ter a sensibilidade natural pra ir além da média. E entender que, diante de uma revolução tecnológica, a gente precisa ser naturalmente inteligente pra ir além do backoffice.