Futuro do golfe pode estar no campo curto

Campos curtos são mais baratos e de manutenção mais simples

Tom Pilcher, da CNN
25 de outubro de 2020 às 06:00
Campos curtos são a nova tendência no esporte
Foto: Pixabay

Certamente não há propaganda melhor para o golfe do que um menino de 11 anos acertar um hole-in-one na tacada inicial de um percurso desenvolvido por Tiger Woods na frente do próprio, vencedor de grandes títulos no esporte dezenas de vezes. 

Foi exatamente o que aconteceu com o garoto Taylor Crozier em março de 2016 no Bluejack National disputado no Texas, com os gritos da multidão fazendo com que o feito se igualasse a um dos maiores triunfos de Woods ao longo dos anos. 

Naquela ocasião, jogando uma partida de três bolas com o garoto sortudo, Woods seguiu com seu putter (um tipo de taco) até o buraco de abertura de 81 jardas (74 metros), marcando notavelmente o eagle (quando o jogador acerta o buraco com duas tacadas abaixo do par). 

E, assim, uma visão do golfe nos próximos anos foi confirmada na mente de Woods. 

“A empresa de projetos de golfe de Tiger começou depois que ele teve filhos. Ele disse desde o início que os clubes voltados para a família são o futuro do esporte”, disse à CNN Sport Bryon Bell, presidente da TGR Design e amigo de longa data do grande campeão.  

Tiger Woods teve a filha Sam em 2007 e o filho Charlie em 2009. Ele cresceu jogando em um campo curto em Long Beach, Califórnia, nas décadas de 1970 e 1980. 

“Sua infância, passada em jogos com seu pai em um campo curto quando tinha apenas três ou quatro anos e aproveitava cada minuto, o fez perceber como essa era uma ótima introdução ao golfe”, diz Bell.

Agora avance três anos desde a primeira incursão de Woods no projeto de campos curtos com o Bluejack em 2016. No ano passado, o atual campeão do Masters e sua equipe foram convidados a redesenhar o famoso layout par-três de Pebble Beach. 

Bell disse que eles responderam “imediatamente” ao convite, para mostrar que estavam interessados — e na primavera de 2021 esse campo curto com novo visual será revelado. 

“Quando fizemos isso pela primeira vez no Bluejack, não tínhamos certeza de como o público receberia a ideia”, disse Bell, que cursou o ensino médio com Woods e chegou a ser caddie dele em 2011. 

“Amamos o conceito e o Bluejack é um clube muito voltado para a família. Mas não sabíamos se estaria vazio, por isso nos perguntávamos: 'estamos construindo isso para crianças mesmo?' e 'alguém vai jogar?'

Por fim, toda essa experiência nos deixou muito confortáveis com o conceito de campo de golfe. Soubemos que vale a pena empreender e que há muito interesse nele, além de ser uma ótima ferramenta para campos de golfe que envolvem mais pessoas no jogo”.

Ilustração do campo curto projetado por Tiger Woods no Bluejack National no Texas, EUA
Foto: TGR Design

Quanto maior, mais caro

Aqueles que criticam o golfe costumam dizer que o esporte é elitista e custa muito caro. Isso sem falar de quanto tempo uma rodada pode durar. Nada mais natural, portanto, do que achar que um percurso curto seja mais viável, certo? 

“Há um elemento para ajudar as pessoas a aprimorar seu jogo de ‘100 jardas dentro’ do campo, mas não acho que seja o objetivo principal de Tiger. Seu objetivo é fazer com que as pessoas joguem mais golfe”, disse Bell. 

“As grandes reclamações sobre golfe são de que ele demora muito e custa caro, o que esse conceito de jogo curto ajuda a resolver. Tiger quer criar campos de golfe mais acessíveis e divertidos. Sempre haverá um lugar para campos grandes como o US Open, mas como tornar o golfe mais divertido, mais convidativo e mais atrativo para os jogadores? Esse era o seu objetivo desde o início”, continuou. 

“Se você está organizando um torneio, pode acelerar os greens (as áreas próximas ao buracos), firmar os fairways (o centro do campo) e tornar o percurso mais difícil, mas é desafiador tornar mais fácil um percurso difícil. Não acho que seu objetivo seja mudar todo o golfe, há sempre um lugar para o jogo mais difícil”, observa Bell. 

A escolha do local do US Open no mês passado – Winged Foot em Nova York – mostrou exatamente isso. Mas os EUA também estão repletos de ótimos campos mais curtos, como Pinehurst's Cradle Course (local de abertura do US Open e projetado pelo criador do curso dos Jogos Olimpicos do Rio em 2016, Gil Hanse) e o layout par-três do Augusta National, que todo ano hospeda o tradicional torneio de nove buracos pré-Masters.

A associação a um clube também costuma ser mais cara nos Estados Unidos, já que os locais buscam cada vez mais combinar campos de golfe com restaurantes, piscinas e academias para torná-los mais atraentes para as famílias. 

Ilustração do Short Course em Pebble Beach, Califórnia.
Foto: TGR Design

Mercado parado

A situação é um pouco diferente do outro lado do Atlântico. 

“Acho que no Reino Unido e na Irlanda estamos muito longe de investir dinheiro em campos curtos. Nosso mercado está preso naquele espaço tradicional dos 18 buracos”, afirmou James Edwards, arquiteto de campos de golfe cuja empresa EDI-Golf projeta e renova campos e academias de golfe. 

Edwards cresceu jogando golfe ao lado de jogadores como os ex-números um do mundo Justin Rose e Luke Donald, bem como as estrelas da Ryder Cup Paul Casey e Ross Fisher. 

Ele está acostumado a longas horas em campos de treino rebatendo bolas. Sua empresa trabalha com o treinador de renome mundial David Leadbetter, que levou jogadores a 26 títulos importantes – sete jogadores de golfe que alcançaram o primeiro lugar no ranking mundial. 

Visão geral do campo Cumberwell Park
Foto: EDI Design

Especializado em academias, campos curtos e soluções alternativas de golfe, Edwards começou a jogar golfe em um gramado fora da casa de sua família em Maidstone, Kent. Era uma área ao lado da rua sem saída onde morava, com cerca de 2.500 metros quadrados. O tamanho certamente evoca uma imagem de criatividade, a mesma usada pelo duas vezes campeão do Masters Bubba Watson, o canhoto autodidata que cresceu acertando uma bola de Wiffle (jogo parecido com baseball) ao redor de sua casa. 

“O clube de onde acabei de vir, por exemplo, recusou uma opção de redesenho para incluir um campo curto e um alcance de 300 jardas”, revelou Edwards. “Eles escolheram uma opção muito mais segura, e estão presos a um alcance de cerca de 200 jardas, sem percurso curto. É preciso enxergar o futuro. Todos os melhores campos de golfe do mundo possuem um campo curto. Os projetistas atuais viram essa relevância em ter um jogo rápido de golfe com nível de campeonato”. 

Edwards, que construiu um campo de par-três no inovador complexo Cumberwell Park em Wiltshire, acha que a “consciência do golfe” ainda não existe no Reino Unido. 

“A indústria não viabiliza o campo curto no momento. Vai ser preciso algo de alta qualidade para mudar o coração e a mente das pessoas”. 

Visão geral do campo Cumberwell Park.
Foto: EDI Design

“Driblando” a tendência

Um campo de alta qualidade pode funcionar. Mas, como disse em agosto Justin Thomas, jogador do ano do PGA of America, não importa o quão longe você acerte, o jogo curto ainda é rei. 

“Comprimento não é a resposta. É apenas útil. Ainda é preciso acertar a bola no buraco”, disse o vencedor do PGA Championship 2017. 

Woods e o antigo número um do mundo, Luke Donald, são ótimos exemplos de como você pode?atingir?o auge do golfe, com uma partida curta impecável, e continuar ali. Apesar de nunca ter tido a fama de Woods, Donald passou 40 semanas consecutivas no topo na temporada 2011-12. 

Ilustração do Bluejack National com comprimento total
Foto: TGR Design

Bell lembra que, como o próprio Tiger Woods lhe disse, se o golfe parece difícil, por que sofrer se dá para desfrutar o jogo em um formato diferente?

“É inegável que há um movimento em direção a como desenvolvemos o jogo, e o conceito de campo curto é uma forma excelente e nada intimidante de apresentar o jogo às pessoas. Ninguém quer ser aquela pessoa que fica conduzindo todo o público ao longo de um campo de 18 buracos”. 

(Texto traduzido. Clique aqui para ler o original em inglês)