Os espíritos do skate e do surfe têm muito de olímpicos (e Brasil como potência)

Modalidades estreantes nos Jogos marcaram pela forma como os atletas se relacionam e foram fundamentais para o melhor desempenho do Brasil em Olimpíadas

Douglas Vieira e Leandro Silveira, colaboração para CNN

Ouvir notícia

Concentração, foco e minutos de solidão antes de começar. Medalha conquistada, muita comemoração com a equipe técnica, seguida de cumprimentos quase sempre cercados de cordialidade com os adversários na prova. Medalha no peito — e já devidamente mordida –, falta dar a última entrevista ainda no contexto da competição para, por fim, poder voltar para casa. Esse ritual faz parte de quase todos os eventos olímpicos.

Nas Olimpíadas de 2020, essa cerimônia foi novamente onipresente, mas há algo de novo, ou resgatado, no espírito olímpico, que chamou a atenção dos brasileiros desde que movimentamos pela primeira vez o quadro de medalhas. 

Foi em 25 de julho que o Brasil chegou a seu primeiro pódio no Japão, a prata de Kelvin Hoefler na prova de street do skate. Entre as muitas repercussões em torno da conquista, a atenção de muita gente nas redes sociais se voltou para algo que aconteceu nos instantes imediatamente seguintes à prova.

Ao sair da pista, o brasileiro foi cumprimentado efusivamente por um adversário peruano, Angelo Caro, que ficou em quinto lugar na disputa, mas estava por lá vibrando com as outras voltas, em vez de se lamentar por ter ficado sem medalha. Ao contrário: ele vibrava como se fosse alguém do próprio país que tivesse subido no pódio, indo bem além dos cumprimentos cordiais e protocolares.

Um dia depois, uma menina de apenas 13 anos, Rayssa Leal, dançava e sorria enquanto aguardava o momento de se apresentar na disputa feminina da mesma prova de Kelvin. Um jeito peculiar de se concentrar. Em seguida, já confirmada como medalha de prata, Fadinha também foi celebrada por adversárias, e ela própria parabenizou afetuosamente a medalhista de ouro Momiji Nishiya, do Japão.

Tony Hawk conversa com Rayssa Leal durante treino em Tóquio
Tony Hawk, figura lendária do skate, conversa com Rayssa Leal durante treino em Tóquio. O skatista norte-americano compartilhou famoso vídeo de Rayssa criança andando de skate com uma fantasia de fada
Foto: Reprodução/rayssalealsk8/Instagram

Cultura de rua

O interesse das pessoas nesse comportamento passa por este ser incomum ao que se costuma ver em Olimpíadas ou quaisquer outras competições esportivas de grande porte, embora seja muito próximo do que passamos a chamar de espírito olímpico ao longo das décadas. Engana-se, no entanto, quem pensa que isso tem a ver com ganhar ou perder, ou com não se importar em ganhar ou perder. “Todo mundo entra para ganhar, é o objetivo. É uma competição e foi a competição de skate em mais alto nível que eu já vi. Mas o skatista também está lá para se divertir”, explica à CNN o skatista brasileiro Cristiano Mateus, técnico da chilena Josefina Tapia, de 24 anos, que disputou as Olimpíadas na prova de skate park.

Cristiano lembra em sua explicação que uma competição de skate é sempre uma reprodução de como o esporte é encarado na vida de quem pratica, sejam amadores ou profissionais. A modalidade é, na verdade, uma cultura urbana traduzida como estilo de vida. Assim, antes de ser um esporte, é um modo de se relacionar com a cidade, um elemento de mobilidade, um meio de interagir com a cidade e com as pessoas.

Todo mundo entra para ganhar, é o objetivo. É uma competição e foi a competição de skate em mais alto nível que eu já vi. Mas o skatista também está lá para se divertir

Cristiano Mateus, à CNN, sobre a importância da competição
Skatista brasileiro Cristiano Mateus abraça chilena Josefina Tapia na pista
Skatista brasileiro Cristiano Mateus treinou chilena Josefina Tapia nos Jogos de Tóquio
Foto: Arquivo pessoal

O resultado dessa cultura não passa despercebido em nenhum contexto em que esteja inserido, seja pelo estilo de se vestir até a forma de competir, entre outros fatores, desenvolvidos a partir da troca e do convívio. “É mais legal andar de skate com amigos do que sozinho”, resume o técnico, sobre essa interação entre os competidores que tanto surpreendeu a audiência olímpica.

O que Cristiano diz vai ao encontro do que pensa o mais importante skatista brasileiro da história, Bob Burnquist, que começou a andar nos anos 1980 em uma pista chamada Ultra Skate Park, em São Paulo, construída justamente pelo pai de Cristiano.

Lenda da modalidade no mundo, Bob tem 30 medalhas e é o maior vencedor da história dos X-Games, evento criado em 1995 nos Estados Unidos. Conhecido como uma espécie de olimpíada de esportes radicais, o projeto é historicamente um misto entre disputa entre atletas — elemento competitivo e comercial, voltado para a televisão — e um projeto de difusão e celebração da cultura que cada esporte radical presente na programação carrega. Lá, o skate está entre BMX, patins inline, entre outros esportes, todos com diversas provas diferentes. 

Skate é minha vida, competição é o meu trabalho. Ando de skate para aprender, evoluir, é uma transação espiritual. A transação capitalista é participar de um evento, colocar um patrocinador na camisa, o que existe há muito tempo. Para quem não quer isso, é melhor arrumar um emprego e ter o skate como lazer. As Olimpíadas são apenas mais um evento

Bob Burnquist, sobre a relação com o skate
Bob Burnquist sentado em um sofá em frente a um grafite com o skate no pé
Bob Burnquist, ex-presidente da Confederação Brasileira de Skate, é maior medalhista da história do X-Games, com 30 premiações
Foto: Buda Mendes/Getty Images

Na mesma linha de Bob, Pedro Barros exibiu desapego, embora também tenha demonstrado satisfação, ao tratar a medalha de prata conquistada na prova do street em Tóquio como um souvenir. “A vida é muito melhor do que qualquer objeto material. Essa medalha aqui não deixa de ser um objeto material, uma expectativa criada por outras pessoas”, disse. 

Não deu onda, deu roda

A história mais famosa sobre a origem do skate conecta o esporte diretamente ao surfe, outra modalidade que estreou em Tóquio na agenda das Olimpíadas. O esporte teria nascido na Califórnia, nos anos 1940, em um dia em que o mar estava baixo e os surfistas queriam encontrar algo para fazer. Dá-lhe, então, descolar tábuas que pudessem ser conectadas a rodinhas para surfar nas ruas.

Essas culturas cresceram de forma tão exponencial que se distanciaram, tal qual ocorreu com o futebol em relação ao fato de ter derivado do rúgbi. O surfe, como não poderia deixar de ser, se manteve à beira-mar, enquanto o skate encontrou acolhimento nas cidades, em ruas e parques. 

O distanciamento maior entre as modalidades hoje, no entanto, ainda guarda alguma similaridade quando se fala do modo de encarar uma competição e dos atletas se relacionarem, algo que muitas vezes extrapola o ambiente da disputa, migrando também para o convívio social. Tudo com certa leveza.

“Após a medalha, Ítalo [Ferreira, campeão olímpico] me disse: ‘Mainha, a medalha é só um título. Minha vida vai continuar a mesma'”, contou ao site UOL Katiana, mãe do surfista, demonstrando que não havia deslumbramento, apenas a felicidade de vencer.

Ouro em Tóquio, Ítalo Ferreira ressaltou vitórias olímpicas de atletas do Nordes
Ouro em Tóquio, Ítalo Ferreira ressaltou vitórias olímpicas de atletas do Nordeste
Foto: Jonne Roriz – 28.jul.2021/COB

Mas, como Cristiano disse sobre o skate, não importa a filosofia que vem junto com o estilo de vida da modalidade. No skate ou no surfe, todos entram para ganhar. A diferença fica na relação com a vitória e a derrota, apenas uma entre muitas facetas desses esportes que também são tratados como uma cultura. Mas, diante do momento histórico no Japão, os campeões não contiveram lágrimas e soluços nas comemorações e entrevistas.

A emoção com o ouro, o primeiro do Brasil nos Jogos de Tóquio, que tanto contrasta com a forma mais descompromissada com a qual falou com a mãe, mostra isso e combina com o jeito competitivo com o qual Ítalo encara o Circuito Mundial de surfe — o mesmo com o qual ele encarou o mar japonês durante as Olimpíadas.

Em 2019, ano do título do Circuito Mundial da WSL, curiosamente na etapa japonesa, Ítalo Ferreira teve o passaporte furtado e chegou atrasado à bateria em que deveria competir. Com os adversários já na água, o potiguar pisou na areia sem suas pranchas, que ele sequer aguardou na área de bagagens do aeroporto. Faltavam oito minutos para acabar a prova, que normalmente dura de 20 a 30 minutos. Não havia tempo a ser perdido, e, com uma prancha emprestada por Filipe Toledo — outro integrante da Brazilian Storm, apelido que os atletas brasileiros receberam no Circuito Mundial — e ainda vestindo a bermuda jeans que usava ao desembarcar, ele caiu na água e venceu.

Esse espírito forja em Ítalo um candidato a ídolo, e grandes eventos potencializam isso.

Explosão de visibilidade

Estar em eventos de grande porte não é exatamente uma novidade para skate e surfe, que tiveram o espírito radical e libertino associado a grandes marcas ao longo dos últimos anos — tanto a WSL, do surfe, como os X-Games, para o skate, são marcas consolidadas, com premiações, divulgação e rentabilidade relevantes. Mas a dimensão em 2021, em Tóquio, foi outra.

O que também mudou foi o peso dos brasileiros nos dois esportes — o skate há mais tempo e o surfe recentemente –, resultado de muito trabalho que precede a geração campeã. “Comecei a surfar em 1967, quando eu tinha 18, 19 anos. Foi a profissionalização de tudo e vi toda a dificuldade que a gente precisou passar para o Brasil chegar onde está”, conta Lapo Coutinho, surfista há mais de 50 anos e juiz da WSL entre 1997 e 2018. “Nesse período, eu julguei todos os brasileiros, de Fábio Gouveia a Jadson, Ítalo Ferreira, todos esses meninos eu vi começando.” 

Essas modalidades, que seguiam trajetórias de sucesso, neste ano receberam a chancela e as câmeras do maior evento esportivo do planeta, uma audiência jamais experimentada. Assim, levaram às Olimpíadas e, principalmente, aos torcedores estrelas já consagradas, como o skatista norte-americano Nyjah Huston e o surfista Gabriel Medina — duas promessas de ouro que precediam a competição e não se confirmaram nos Jogos.

Essa audiência inédita é capaz de transformar o acesso a essas modalidades. Além disso, as transmissões pela TV deixaram para trás antigos estigmas.

Fernanda Aguerre de camisa florida conversa com o presidente do COI Thomas Bach
Fernando Aguerre, presidente da Associação Internacional de Surfe, recebe o presidente do COI Thomas Bach, durante semifinal do surfe em Tóquio
Foto: Ryan Pierse

Cultura de rua e de praia, não marginalidade

Sucesso também de crítica nos Jogos, durante muito tempo os dois esportes eram vistos de um modo bem diferente. “Eu nunca imaginei que estaria nas Olimpíadas por causa do skate. Quando a gente começou, era um esporte marginalizado, foi proibido em São Paulo, inclusive. É muito especial viver tudo isso”, conta Cristiano Mateus, que acredita em um crescimento do interesse pela modalidade. 

Ítalo, em uma entrevista à revista Trip em 2019, ano em que foi campeão mundial, contou algo parecido: “Só meu avô que me acobertava e dizia que eu ia ser campeão um dia. Tinha muito preconceito com o surfe”, conta o atual campeão mundial e olímpico.

Skate e surfe entraram na agenda como modalidades convidadas nas Olimpíadas de 2020 e em Paris-2024 — o futuro ainda não foi anunciado pelo COI (Comitê Olímpico Internacional). Mas, com a grande repercussão de ambos nas Olimpíadas, é difícil imaginar que não continuem no programa. E a presença de Thomas Bach, presidente do COI, na final do surfe assegura esse interesse na modalidade.

“Acho que vai ser natural continuar, não vai ter campanha para isso. O espanto com o espírito do skate é algo que já deveria estar no espírito olímpico. Mostrou que vai ficar, a questão é ver qual prova a gente vai colocar. Se entra o vert, por exemplo”, diz Bob Burnquist, sobre o skate. “As conversas lá eram sobre isso [ter outras provas, em vez de perder espaço], sobre a possibilidade de crescer”, completa Cristiano, sobre assuntos que surgiram durante a competição no Japão. 

Kelvin Hoefler, brasileiro do skate, nas Olimpíadas
Kelvin Hoefler, brasileiro do skate, nas Olimpíadas
Foto: Jae C. Hong/AP

Grande manobra

A repercussão em torno dos dois esportes é um aliado para a definição desse futuro, que atinge direto o alvo que o COI mirou com o convite. Apostar em modalidades esportivas associadas à cultura urbana para atingir um público mais jovem foi uma decisão adotada pelo COI em 2015, numa parceria com o Comitê Organizador dos Jogos de Tóquio, para renovar e revitalizar o programa olímpico.

E o que se espera, agora, é que o bom resultado para as Olimpíadas impacte também os dois esportes. Isso já se viu em Tóquio: as competições criaram ídolos imediatos como Fadinha, e aumentou a dimensão de ídolos em construção — espelhos para fãs –, além de ter alcançado de fato novos públicos. 

Figuras importantes dessas modalidades asseguram que o saldo foi positivo, não apenas pelo aspecto esportivo, mas principalmente pela junção de toda essa cultura que vem associada — especialmente essa conexão com o nem sempre visto espírito olímpico

“A gente não sabia como seria recebido. Hoje, a gente sabe. E trouxe a alegria, a camaradagem e a exposição da personalidade do skate. O que mais me deixou orgulhoso foi que a apresentação foi correta, com uma interação mais saudável, mais leve”, afirma Bob Burnquist, ex-presidente da Confederação Brasileira de Skate.

Mudou a mente de várias pessoas, que achavam que o skate era só para menino ou não daria futuro. Eu pude ver que muitas meninas começaram a andar de skate ao ver a gente nas Olimpíadas. Muita gente que não é do skate quis aprender, para ter essa sensação

Rayssa Leal, sobre os efeitos dos resultados do skate nas pessoas
Rayssa Leal, a Fadinha
Rayssa Leal, a Fadinha, em manobra na final do skate street nas Olimpíadas de 2020
Foto: Ben Curtis/AP

Presente e futuro dourados

Nas Olimpíadas, ao menos para o Brasil — e também para o Japão –, o sucesso das duas modalidades também passou pelo êxito esportivo. Foi um ouro assegurado pelo país no surfe, com Ítalo Ferreira, e três pratas no skate, com Kelvin Hoefler, Rayssa Leal e Pedro Barros.

Uma das medalhistas, Rayssa aposta que, a partir de agora, muitas crianças e meninas vão se inspirar no seu feito, passando a praticar a modalidade, inclusive fora dos grandes centros urbanos. Ela mesmo não é de um deles, mas de Imperatriz (MA). E o que se viu nas últimas semanas é uma explosão da venda de skates. “Eu comecei a andar mais velho, mas hoje já tem uma geração de 5, 7 anos andando, e que logo logo chega nas competições”, diz Cristiano.

Assim, é de se imaginar que o protagonismo brasileiro certamente prosseguirá em voga, seja pela precocidade de vários atletas da seleção de skate ou mesmo pela geração vitoriosa do surfe. “É de chorar, foi muito emocionante. É um reconhecimento de um trabalho realizado que agora entrou para a história. Quando for contar a história do surfe, sempre vai ter que falar do Brasil”, completa Ícaro Cavalheiro, árbitro da WSL e comentarista da transmissão oficial do Circuito Mundial pelas redes.

Tudo o que está acontecendo com o surfe, esse profissionalismo imenso, é incrível, e o brasileiro está herdando isso neste momento, o posto de ser a referência em uma decisão olímpica

Carlos Burle, surfista brasileiro de ondas gigantes que ganhou notoriedade internacional em 2001, quando surfou a maior onda já registrada à época, cerca de 22 metros
Carlos Burle pequenino enquanto surfa uma onda com mais de 20 metros em Portugal
Carlos Burle surfa em Nazaré, praia portuguesa conhecida por ter algumas das maiores e mais perigosas ondas do mundo
Foto: Octavio Passos/Getty Images

Nem a polêmica envolvendo Gabriel Medina na semifinal e, em seguida, na disputa pelo bronze foi capaz de macular o que o surfe brasileiro fez no Japão. “Faz parte, a gente celebrou muito o Ítalo, só ficamos chateados porque a gente queria ele também na final. Mas o resultado não volta, e o Owen Wright surfou muito bem”, completa Fábio Gouveia, campeão mundial de surfe amador em 1988 e atleta que é referência para Ítalo. “O surfe está em plena evolução, primeiro ano olímpico, vai servir de aprendizado para outras edições e a próxima vai ser no Taiti. Acho estranho, pela distância, tem o litoral francês. Mas o Brasil deve chegar como favorito.” 

Se o maior vencedor da história dos X-Games é Bob, brasileiro, no surfe, desde 2014, só em 2016 e 2017 o campeão mundial da modalidade não foi um brasileiro. “A gente está bem forte e tem muita lenha para queimar. Felipe, Gabriel e Yago são caras que surfam muito e estão fazendo história no Circuito Mundial. Tem alguns nomes da nova geração, mas eles se acham campeões antes de serem. Tem que ir passo a passo para ir crescendo no esporte”, provoca Ítalo Ferreira. 

Fato é que, com as quatro medalhas que garantiram ao Brasil, skate e surfe foram fundamentais para que a delegação brasileira deixasse Tóquio com o melhor desempenho do Brasil em uma edição dos Jogos Olímpicos.

Brasileiro Ítalo Ferreira conquistou a primeira medalha de ouro para o Brasil
Brasileiro Ítalo Ferreira conquistou a primeira medalha de ouro para o Brasil em Tóquio
Foto: Francisco Seco/AP

Mais Recentes da CNN