Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza chama a atenção com obras de Jonathas de Andrade

Em conversa com a CNN, o artista alagoano fala sobre o destaque que a exposição "Com o coração saindo pela boca" tem ganhado nestes primeiros dias do evento

Courtesy Ding Musa / Fundação Bienal de São Paulo

Thayana Nunesda CNN

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Entrar por um ouvido e sair pelo outro. Uma das expressões mais comuns no cotidiano dos brasileiros é a porta de entrada para a exposição “Com o coração saindo pela boca”, de Jonathas de Andrade, artista brasileiro que foi escolhido para representar o país durante a 59ª Exposição Internacional de Arte – La Biennale di Venezia.

Um dos eventos mais prestigiados no universo das artes visuais começou no último fim de semana, no dia 23, e segue até 27 de novembro, e o Pavilhão do Brasil nestes primeiros dias tem sido o grande destaque.

Jonathas, alagoano de 40 anos, foi convidado pelo curador italiano Jacopo Crivelli Visconti para levar suas criações que mergulham na cultura popular e aborda temas como identidade para participar desta que é, além de tudo, a bienal mais antiga do mundo.

O artista levou para a pavilhão esculturas interativas, fotografias, um vídeo instalação, além de 250 expressões populares que, segundo ele, são metáforas que traduzem situações do dia a dia, mas que para sua surpresa “têm ressonância com muito do que está acontecendo no país neste momento”.

“‘Dedo podre’, ‘costas quentes’, ‘fura olho’, ‘entrar por um ouvido e sair pelo outro’, ‘coração saindo pela boca’. É todo um jogo de expressões de como o corpo da gente fala sobre um corpo social político. E como as expressões são uma grande metáfora da coletividade, que depende do uso constante de um grupo de pessoas para existir”, diz Jonathas em conversa com a CNN.

Jonathas de Andrade / Courtesy Ding Musa / Fundação Bienal de São Paulo

A exposição está em sintonia com o tema deste ano da Bienal, inspirado no livro da artista surrealista Leonora Carrington, “The Milk of Dreams” (O leite dos sonhos). A curadoria é de Cecilia Alemani, que se inspirou na artista para levar “o mundo mágico em que a vida é constantemente repensada através do prisma da imaginação”

Jonathas é considerado hoje, por publicações especializadas, um dos jovens artistas mais reconhecidos de sua geração, com passagem pelo New Museum e Museum of Contemporary Art Chicago, e exposições na Bienal de São Paulo. A seguir, trechos de uma conversa com o artista, que já está em Amsterdã para uma série de conversas sobre outra mostra que participa na cidade, no Foam Museum.

CNN: Vimos algumas manifestações polícias acontecendo em frente à entrada do Pavilhão do Brasil. Você já esperava por isso?

Jonathas de Andrade: O cerne desse trabalho acontece nesse nó político e para mim quando eu vejo manifestações como aconteceram nesta semana, apenas me confirma que essa mensagem está reverberando. Principalmente, neste momento que estamos vivendo, tanto no Brasil, como no mundo. Não à toa que a escultura “dedo podre” é a de um dedo apertando um botão da nossa urna eletrônica.

“Entrar por um ouvido e sair pelo outro” fala desse estado de espírito que a gente vive, de tanta coisa que acontece ecologicamente, socialmente, politicamente no Brasil, e a sensação de que tudo acontece em um fluxo diante na nossa timeline, sem que gente consiga reagir, ou pior, sem que a veja a reação daqueles que deveriam nos representar.

Obra de Jonathas de Andrade na Bienal de Veneza /

Nestes primeiros dias, o Pavilhão do Brasil tem sido um dos mais concorridos. Como você acha que os estrangeiros estão reagindo diante de expressões tão comuns na nossa língua?

O projeto é traduzir o intraduzível. Essas expressões foram traduzidas na literalidade delas. Decidi junto com o curador, não buscar expressões semelhantes de outras línguas. Com isso, o próprio visitante estrangeiro fica numa espécie de jogo de desvendar, de entender o que aquele pedaço de corpo fala além do que ele está vendo.

A exposição é também muito interativa. Na obra “o coração que sai pela boca”, o balão cresce, toma o espaço e faz com o que público tenha que renegociar seu próprio espaço. As costas quentes são aquecidas, você pode colocar a mão e sentir. Você pode carregar o mundo nas costas, sentir o peso do mundo em outra obra. Essa exposição como foi feita é uma novidade para mim, essa dimensão interativa é muito plural e chama a atenção de um público muito diversificado.

O filme “Nó na garganta” tem causado diversos tipos de reações do público. Por que você acha que isso está acontecendo?

O filme mostra a interação de um grupo de jovens com cobras. Eles estão tranquilos. Convidei um grupo que mora em uma pousada, que também é um zoológico de animais silvestres, em Maragogi.

Com isso, tem toda uma reflexão, de como a gente lida com a natureza, como uma imagem como essa causa medo e temor, e como gente como humanidade está desconectado. Depois a gente termina com imagens de cenas de desastres ecológicos e intervenções no planeta, tanto do planeta em resposta à ação humana, como a ação humana em relação ao planeta. Quis mostrar toda a dimensão do corpo humano, mas também de como a humanidade como espécie está desconectada.

 

 

 

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